Sandbox da Anvisa reconhece associações de cannabis, avalia advogado Emílio Figueiredo

Nova RDC cria ambiente experimental e abre espaço para modelo não industrial no acesso à cannabis medicinal

Publicada em 01/04/2026

Emilio Figueiredo em painel no Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal falando sobre regulação da cannabis

Emilio Figueiredo participa de debate sobre regulação no Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal em 2025. Foto: Sechat

 

A criação do Sandbox Regulatório pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por meio da RDC nº 1.014 de 2026, marca um novo capítulo na regulação da cannabis medicinal no Brasil. A proposta institui um ambiente experimental, temporário e supervisionado para testar modelos de cultivo, produção e fornecimento de preparados à base de Cannabis sativa L., com foco na geração de evidências e no aperfeiçoamento das regras sanitárias.

O modelo permite, de forma controlada, que projetos experimentais operem fora do padrão industrial e sem fins comerciais, com produção em pequena escala e atendimento restrito a pacientes associados. A iniciativa surge justamente diante do reconhecimento, pela própria Anvisa, de que os instrumentos regulatórios atuais são insuficientes para lidar com novas formas de acesso à saúde que vêm se consolidando no país.

Reconhecimento das associações

 

Para o advogado especialista em políticas de drogas, Emilio Figueiredo, o principal avanço da resolução está nesse reconhecimento institucional. Segundo o advogado, o Brasil tem cerca de 350 associações de pacientes com CNPJ ativo e aproximadamente 30 com algum tipo de autorização judicial, sem considerar as decisões individuais de diretores associativos.  

“O primeiro ponto positivo da RDC 1014 da Anvisa é o reconhecimento pela Anvisa de que há algo novo acontecendo no acesso à saúde no Brasil. Essa novidade são as associações de pessoas que fazem uso medicinal da cannabis.”

Segundo ele, o texto da norma evidencia uma mudança de postura do órgão regulador ao admitir a existência de barreiras regulatórias e a limitação das regras atuais para atender essa realidade.

“Na RDC, a Anvisa reconhece as barreiras regulatórias e a insuficiência dos instrumentos regulatórios para atender as associações e, por isso, precisa observar esse fato social para compreendê-las. Para isso, criou um ambiente regulatório experimental.”

Um modelo fora da lógica industrial

 

O Sandbox Regulatório também abre espaço para que associações mostrem, na prática, como operam seus modelos de produção e fornecimento — historicamente baseados na lógica do cuidado coletivo e não na indústria farmacêutica tradicional.

“Na prática, vai caber às associações apresentarem suas boas práticas e ensinarem à Anvisa que o fornecimento de remédios não precisa ter um caráter industrial ou comercial, e que é possível que os próprios interessados cuidem do cultivo, preparo e entrega.”

A resolução deixa claro que o ambiente experimental não autoriza comercialização, publicidade ou produção em escala industrial. Ainda assim, permite flexibilizações regulatórias temporárias, desde que pactuadas com a Anvisa por meio de protocolos específicos, com controle rigoroso de qualidade, rastreabilidade e monitoramento.

Impacto no futuro da regulação

 

Especialistas avaliam que a medida pode representar um ponto de inflexão na política regulatória brasileira, especialmente ao incorporar evidências geradas fora do modelo tradicional da indústria.

Ao permitir que associações participem de forma estruturada e supervisionada, o Sandbox pode contribuir para a construção de um marco regulatório mais aderente à realidade do país — equilibrando inovação, acesso e segurança sanitária.

A expectativa agora gira em torno da publicação do edital de chamamento público, que definirá os critérios de seleção dos projetos e os limites operacionais dessa fase experimental.

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