Saúde da mulher: cannabis melhora dor e sono na endometriose
Estudo aponta que a cannabis pode melhorar dor, sono e ansiedade, além de reduzir o uso de opioides na saúde da mulher com endometriose. Confira!

Saúde da Mulher - A dor que chega todos os meses e, muitas vezes, ocupa espaços que deveriam pertencer ao sono, ao trabalho, aos encontros e à própria vida.
Um novo estudo joga luz sobre essa realidade ao investigar o papel da cannabis medicinal no cuidado de mulheres com endometriose, apontando melhora da dor, do sono e da ansiedade, além de redução no uso de opioides.
O trabalho foi publicado no Australian and New Zealand Journal of Obstetrics and Gynaecology, periódico científico dedicado à obstetrícia e à ginecologia.
O resultado amplia uma discussão que vem ganhando espaço na saúde da mulher: como oferecer alternativas para sintomas persistentes de uma doença que pode acompanhar pacientes por anos.
A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero e pode provocar dor pélvica, cólicas intensas, dor durante relações sexuais, alterações intestinais e urinárias, além de impacto emocional e redução da qualidade de vida.
Nesse cenário, o interesse pela cannabis não surgiu apenas nos laboratórios. Mulheres com endometriose já relatavam seu uso para lidar com sintomas difíceis de controlar.
Neste artigo você vai ver:
- O que o novo estudo encontrou sobre cannabis e endometriose;
- Como a cannabis pode estar relacionada à dor, ao sono e à ansiedade;
- O que pesquisas anteriores já indicavam;
- A relação entre cannabis e redução do uso de opioides;
- Por que os resultados ainda não significam que a cannabis seja tratamento padrão;
- Quais são os próximos passos da pesquisa.
Cannabis medicinal para endometriose: o que o estudo encontrou
O novo trabalho coloca a cannabis medicinal no centro de uma questão importante para a saúde da mulher: a busca por estratégias capazes de aliviar não apenas a dor, mas também os sintomas que acompanham a endometriose.
De acordo com os dados fornecidos sobre o estudo, mulheres que utilizaram cannabis apresentaram melhora em diferentes dimensões relacionadas à doença, incluindo:
- redução da dor;
- melhora do sono;
- redução da ansiedade;
- menor utilização de opioides.
A importância do resultado está justamente na amplitude dos sintomas analisados.
A endometriose não é apenas uma doença marcada pela dor. Para muitas pacientes, o desconforto persistente pode interferir no descanso, na concentração, na rotina profissional, nos relacionamentos e na saúde emocional.
Por isso, quando uma intervenção é associada a melhorias em diferentes sintomas, a discussão deixa de ser exclusivamente sobre analgesia e passa a envolver qualidade de vida.
SAIBA MAIS: Entenda como a cannabis medicinal pode atuar no controle da dor crônica
Ainda assim, é necessário separar associação de comprovação definitiva. Um resultado positivo em uma pesquisa não significa, por si só, que a cannabis deva substituir tratamentos convencionais ou medicamentos prescritos.
A interpretação deve considerar o desenho do estudo, o número de participantes, os produtos utilizados, as doses, a presença de grupo de comparação e o período de acompanhamento.
Saúde da mulher: por que a dor da endometriose preocupa
A discussão sobre cannabis acontece em um contexto maior da saúde da mulher.
Durante muito tempo, a dor relacionada à menstruação foi tratada como algo que deveria ser simplesmente suportado. No caso da endometriose, essa percepção pode contribuir para atrasos no diagnóstico e para anos de sofrimento antes de uma investigação adequada.
A doença pode afetar diferentes órgãos e apresentar manifestações variadas. Algumas mulheres têm sintomas predominantemente pélvicos; outras convivem com alterações intestinais, urinárias, fadiga, dificuldades para dormir e impactos psicológicos.
A dor crônica, por sua vez, pode criar um ciclo difícil de interromper.
Dor → sono ruim → cansaço → ansiedade → maior percepção da dor.
É justamente nessa combinação de sintomas que a cannabis passou a despertar interesse científico.
Uma pesquisa australiana anterior, publicada no Journal of Obstetrics and Gynaecology Canada, analisou 484 mulheres com endometriose confirmada cirurgicamente. Entre as participantes que utilizavam estratégias de autocuidado, 13% relataram usar cannabis para controlar sintomas. A eficácia percebida para redução da dor recebeu nota média de 7,6 em uma escala de 0 a 10.
O estudo também identificou relatos de melhora do sono e de sintomas gastrointestinais. Entre as mulheres que utilizavam cannabis, 56% disseram ter reduzido em pelo menos metade o uso de medicamentos farmacêuticos.
Esses dados são relevantes, mas tinham uma limitação importante: eram baseados em relatos das próprias participantes, e não em um ensaio clínico capaz de estabelecer eficácia e segurança de forma definitiva.
Cannabis, sono e ansiedade: além da dor
Um dos pontos que chamam atenção na relação entre cannabis e endometriose é justamente a possibilidade de atuar em sintomas que caminham ao lado da dor.
O sono, por exemplo, pode ser profundamente afetado pela dor pélvica. Dormir mal pode aumentar o cansaço e dificultar a recuperação do organismo, além de comprometer atividades cotidianas.
A ansiedade também aparece com frequência entre os sintomas associados à endometriose.
Uma pesquisa publicada anteriormente identificou relatos de melhora de ansiedade, depressão e sono entre mulheres australianas que utilizavam cannabis para lidar com os sintomas da doença.
Outro levantamento, publicado no próprio Australian and New Zealand Journal of Obstetrics and Gynaecology em 2024, analisou 192 pessoas com endometriose que utilizavam produtos medicinais à base de cannabis na Austrália.
Os participantes relataram melhorias especialmente em sono, dor crônica, náusea, ansiedade e depressão, além de redução no uso de opioides, anti-inflamatórios não esteroides e outros medicamentos.
A pesquisa também mostrou que o acesso ainda representa um desafio. O custo dos produtos foi apontado como uma barreira importante para os pacientes australianos.
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Saúde da mulher e redução do uso de opioides
A possível redução do uso de opioides é outro aspecto relevante para a saúde da mulher.
Opioides podem ser utilizados no tratamento de determinados quadros de dor, mas seu uso prolongado exige acompanhamento médico devido aos riscos associados, incluindo tolerância, dependência e outros efeitos adversos.
Por isso, pesquisadores investigam estratégias que possam contribuir para o controle da dor sem necessariamente aumentar a exposição a esses medicamentos.
Uma revisão publicada em 2026 sobre cannabis e endometriose reuniu diferentes estudos e encontrou relatos de redução no uso de medicamentos entre pessoas que utilizavam cannabis. Em uma das pesquisas analisadas, 40% dos medicamentos completamente interrompidos eram opioides.
Outro estudo citado na revisão identificou redução no uso de opioides em 30,8% das participantes.
Esses números, entretanto, não devem ser interpretados como prova de que a cannabis pode substituir opioides em todas as pacientes.
Eles indicam uma área de pesquisa que merece investigação clínica mais robusta.
O que a ciência já sabe sobre cannabis e endometriose?
Apesar do crescimento das pesquisas, a evidência científica ainda está em construção.
Uma revisão de evidências utilizada nas diretrizes australianas de endometriose apontou que, até o período analisado, não havia estudos randomizados relevantes suficientes para responder de maneira direta à questão sobre cannabis medicinal para dor associada à endometriose. As evidências disponíveis eram, em grande parte, indiretas ou provenientes de estudos observacionais e relatos de pacientes.
Isso ajuda a explicar por que resultados de novos estudos despertam interesse.
Em 2025, pesquisadores australianos também publicaram um estudo de viabilidade de um ensaio clínico randomizado que comparava diferentes intervenções com cannabis medicinal e placebo para dor relacionada à endometriose.
O estudo enfrentou dificuldades importantes para recrutar e manter participantes. Dos 12 participantes randomizados, sete desistiram, quatro concluíram o estudo e um não foi acompanhado até o final. Os autores apontaram, entre os principais obstáculos, as restrições relacionadas à condução de veículos e a ocorrência de eventos adversos.
O episódio mostra que a produção de evidências clínicas sobre cannabis e endometriose ainda enfrenta desafios metodológicos e práticos.
Saúde da mulher: resultado não significa substituir tratamentos
Para a saúde da mulher, a principal mensagem dos estudos não é que a cannabis deva substituir tratamentos já estabelecidos.
A endometriose exige avaliação individualizada. O tratamento pode envolver medicamentos hormonais, analgésicos, procedimentos cirúrgicos, fisioterapia pélvica e outras estratégias, de acordo com os sintomas e as características de cada paciente.
A cannabis medicinal, quando considerada, deve ser discutida com um profissional habilitado.
Também é importante lembrar que produtos à base de cannabis podem causar efeitos adversos. Entre os eventos descritos em pesquisas estão sonolência, tontura, boca seca, náusea, ansiedade e alterações do sistema nervoso. Diretrizes australianas também destacam a ocorrência de eventos psiquiátricos em parte dos participantes de estudos com medicamentos à base de cannabis.
Portanto, a presença de resultados positivos não elimina a necessidade de avaliação de riscos e benefícios.
Novas pesquisas podem mudar o cenário
A investigação sobre cannabis e endometriose continua avançando.
Há atualmente ensaios clínicos registrados na Austrália que buscam avaliar a eficácia e a segurança de produtos contendo THC e CBD para mulheres com endometriose, comparando as intervenções com placebo.
Essa próxima etapa é importante porque pode ajudar a responder perguntas que os estudos observacionais ainda não conseguem solucionar:
- Qual formulação apresenta melhor resposta?
- Qual dose é adequada?
- THC, CBD ou a combinação dos dois oferece maior benefício?
- Quais pacientes respondem melhor?
- Quais são os riscos do uso prolongado?
- É possível reduzir medicamentos convencionais com segurança?
São perguntas centrais para o futuro da saúde da mulher.
Mais do que uma promessa, a cannabis representa hoje uma frente de investigação. E, para mulheres que convivem com uma doença frequentemente marcada por dor e invisibilidade, cada nova evidência ajuda a construir uma medicina capaz de olhar para seus sintomas de forma mais ampla.
A ciência ainda precisa avançar. Mas o caminho está sendo desenhado com pesquisas que procuram transformar relatos de pacientes em evidências clínicas capazes de orientar decisões mais seguras.
Na saúde da mulher, compreender a dor também significa investigar todas as possibilidades que possam melhorar a qualidade de vida — sempre com ciência, acompanhamento profissional e informação.
