Vape entre jovens acende alerta sobre nicotina na Irlanda

Vape entre jovens já supera o cigarro tradicional como porta de entrada para a nicotina entre adolescentes na Irlanda, aponta estudo. Confira!

Vape entre jovens aparece como forma de iniciação à nicotina antes do cigarro tradicional entre adolescentes na Irlanda, aponta ESPAD 2024 | CanvaPro

O vape entre jovens está mudando a porta de entrada para o consumo de nicotina na Irlanda. Dados do levantamento ESPAD Ireland 2024 mostram que 76% dos adolescentes que experimentaram cigarros eletrônicos ainda não haviam fumado cigarros tradicionais. O resultado aparece em meio à queda histórica do tabagismo convencional entre estudantes.

A pesquisa ouviu 5.587 estudantes de 28 escolas irlandesas e integra o European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs (ESPAD), que acompanha o consumo de substâncias entre adolescentes europeus.

Vape entre jovens supera o cigarro tradicional

Segundo o levantamento, 32% dos estudantes já haviam experimentado cigarros eletrônicos. O uso nos últimos 30 dias foi relatado por 15,7%, enquanto 6,9% disseram utilizar vape diariamente ou quase diariamente.

No caso do cigarro tradicional, os números foram menores: 11,7% haviam fumado nos últimos 30 dias e apenas 2,1% declararam consumo diário.

O dado que mais chama atenção, porém, está na iniciação. Entre os estudantes que já haviam usado vape, 76% disseram que nunca tinham experimentado cigarro tradicional antes.

A diferença sugere uma mudança no caminho pelo qual parte dos adolescentes entra em contato com produtos de nicotina.

SAIBA MAIS: Irlanda inicia reavaliação do uso medicinal da cannabis e discute futuro da política pública

Cigarro eletrônico entre jovens começa, em geral, aos 14 anos

A idade de 14 anos aparece como a mais comum para o primeiro contato tanto com o vape quanto com o cigarro convencional.

Entre os participantes, 11,4% indicaram essa idade como momento em que experimentaram o cigarro eletrônico. Outros 1,8% disseram ter começado aos 11 anos ou antes.

O acesso aos produtos também aparece como um ponto relevante no levantamento.

66,1% dos estudantes consideraram relativamente fácil ou muito fácil conseguir cigarros eletrônicos. Para os cigarros tradicionais, esse percentual foi de 59,2%.

O relatório do vape entre jovens aponta que medidas de restrição ao acesso de menores aos cigarros tradicionais já possuem uma trajetória mais longa na Irlanda, enquanto regulamentações específicas para cigarros eletrônicos foram implementadas mais recentemente.

Iniciação ao tabagismo ganha novas formas

A queda do cigarro tradicional entre adolescentes irlandeses é expressiva. O ESPAD 2024 registrou os menores níveis históricos de experimentação, consumo atual e uso diário de cigarros entre estudantes de 15 e 16 anos.

Cerca de 24% já haviam experimentado fumar, 12% eram fumantes atuais e 2% fumavam diariamente.

Ao mesmo tempo, outros produtos de nicotina passaram a fazer parte desse cenário. O estudo registrou, por exemplo, experimentação de sachês de nicotina e outros produtos derivados.

Isso significa que acompanhar apenas o número de adolescentes que fumam pode não ser suficiente para compreender como a exposição à nicotina está acontecendo.

O cenário está mudando e o vape entre jovens ocupa uma parte importante dessa transformação.

Curiosidade aparece entre os motivos para experimentar

O estudo sobre vape entre jovens também investigou por que os adolescentes utilizavam cigarros eletrônicos.

Entre as razões mais citadas estavam curiosidade e o fato de amigos ou outras pessoas terem oferecido o produto.

Apenas 0,6% dos estudantes disseram ter usado vape nos últimos 30 dias com o objetivo de tentar parar de fumar.

O dado é importante para contextualizar a discussão. O uso de cigarros eletrônicos por adolescentes que nunca fumaram não deve ser confundido com o uso desses produtos por adultos fumantes que buscam alternativas para deixar o cigarro.

São situações diferentes, com públicos e objetivos distintos.

Redes sociais também fazem parte do cenário

O ESPAD Ireland 2024 investigou ainda a exposição dos adolescentes a conteúdos sobre cigarros eletrônicos nas redes sociais.

Mais de quatro em cada dez estudantes disseram ter visto hashtags relacionadas ao vape. Outros relataram contato com imagens negativas de pessoas utilizando cigarros eletrônicos ou publicações sobre possíveis danos.

A presença desses conteúdos amplia o ambiente no qual os adolescentes formam suas percepções sobre o produto.

Ao mesmo tempo em que circulam informações sobre riscos, também existe conteúdo capaz de normalizar ou estimular a experimentação.

SAIBA MAIS: Adolescentes com sinais de depressão apresentam alterações no sistema endocanabinoide, indica estudo

O que os dados revelam sobre o vape?

O levantamento irlandês apresenta dois movimentos simultâneos:

  • o cigarro tradicional perde espaço entre adolescentes;
  • o cigarro eletrônico apresenta maior experimentação e uso atual nessa população;
  • a maioria dos adolescentes que experimentou vape não havia fumado cigarro tradicional anteriormente;
  • o acesso ao cigarro eletrônico é considerado fácil por grande parte dos estudantes;
  • curiosidade e influência de outras pessoas aparecem entre os motivos para experimentar.

A percepção de risco também é diferente. Enquanto 66,8% consideraram que o uso regular de cigarros tradicionais apresenta grande risco, esse percentual foi de 42,7% para o uso regular de cigarros eletrônicos.

Essa diferença pode ser relevante para as estratégias de prevenção, especialmente quando se trata de adolescentes que ainda não tiveram contato com produtos de nicotina.

Irlanda acompanha uma mudança no consumo de nicotina

Os dados do ESPAD Ireland 2024 não mostram simplesmente o desaparecimento do tabagismo entre adolescentes. Eles apontam para uma transformação na maneira como essa população entra em contato com a nicotina.

O cigarro convencional apresenta os menores índices históricos entre estudantes irlandeses. Paralelamente, o cigarro eletrônico aparece com níveis mais elevados de experimentação e uso recente.

Entre esses números existe uma mudança importante: para muitos adolescentes, o primeiro contato pode não acontecer mais com um cigarro aceso, mas com um dispositivo eletrônico.

O desafio para a saúde pública é compreender esse novo cenário e diferenciar prevenção da iniciação, redução de danos e estratégias de cessação do tabagismo.