Fitocanabinoides na pele: um campo em transformação

A evolução científica e as novas regras da Anvisa ampliam o debate sobre fitocanabinoides tópicos no cuidado de doenças cutâneas.

Publicado em 18/10/2026
Fitocanabinoides na pele: um campo em transformação

Fitocanabinoides na Dermatologia

  • A RDC 1.015/2026 regulamenta a Cannabis medicinal dermatológica. A pele possui um sistema endocanabinoide próprio. O uso tópico de CBD, CBG e THC revela potencial clínico em doenças cutâneas e dor, sendo a eficácia dependente do veículo da fórmula.

A RDC 1.015/2026 trouxe uma mudança importante para a dermatologia: passou a contemplar a via dermatológica para produtos industrializados de Cannabis destinados ao uso medicinal, dentro das condições estabelecidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Essa mudança abre novas perspectivas para o desenvolvimento de produtos aplicados à pele. É importante destacar que a resolução trata de produtos de Cannabis para fins medicinais e não representa uma autorização para sua utilização indiscriminada em cosméticos.

Fora do Brasil, o uso tópico de fitocanabinoides também integra essa discussão. Nos Estados Unidos, por exemplo, ingredientes derivados da Cannabis podem compor formulações cosméticas, desde que atendam às exigências regulatórias aplicáveis. Sua comercialização como cosmético, entretanto, não equivale à aprovação como tratamento de doenças dermatológicas.

As farmácias de manipulação também integram essa discussão, especialmente diante do interesse crescente por formulações individualizadas à base de fitocanabinoides. A possibilidade de desenvolver preparações com diferentes concentrações, associações de ativos e veículos farmacêuticos representa um campo relevante para a dermatologia. Entretanto, a manipulação de produtos derivados de Cannabis deve observar as exigências sanitárias específicas e os limites regulatórios aplicáveis, não se confundindo com a autorização concedida aos produtos industrializados.

O interesse pelos fitocanabinoides na prática dermatológica

Para quem atende pessoas com doenças da pele, essa discussão tem rosto e história. Tem a coceira que interrompe o sono, a dor que limita o dia, as manchas que incomodam e a queda de cabelo que mexe com a identidade. É no encontro entre as perguntas da ciência e as necessidades dos pacientes que nasceu meu interesse pelos fitocanabinoides. Neste texto, abordo exclusivamente o uso tópico, aplicado à pele e ao couro cabeludo.

Na minha prática clínica, tenho observado respostas favoráveis quando associo fitocanabinoides tópicos aos tratamentos dermatológicos. Utilizo principalmente canabidiol, o CBD, e canabigerol, o CBG, e, em situações selecionadas, também tetraidrocanabinol, o THC.

Essas observações incluem pacientes com psoríase, dermatite atópica, vitiligo, rosácea, melasma e diferentes condições relacionadas à queda de cabelo, incluindo alopecia areata. Também acompanho seu uso associado ao cuidado das alterações do envelhecimento cutâneo, entre elas o fotoenvelhecimento. Minha impressão clínica é de uma contribuição para otimizar os resultados em alguns pacientes, dentro de tratamentos individualizados e combinados.

Um caso que me marcou aconteceu em um ambulatório-escola de dermatologia, onde atuo como docente. Um paciente idoso, com neuralgia pós-herpética, apresentava limitações para o uso de analgésicos orais e já utilizava diversos medicamentos. Essa dor, que pode persistir depois do herpes-zóster, comprometia seu bem-estar. Nesse contexto, CBD e THC tópicos integraram o tratamento, e observei uma excelente resposta individual no controle da dor. Essa experiência reforçou meu interesse em investigar possibilidades de cuidado para pacientes com opções terapêuticas limitadas.

O sistema endocanabinoide da pele

O interesse científico por esses compostos tem uma base biológica importante. A pele possui um sistema endocanabinoide próprio e funcional. Além de expressar receptores canabinoides, especialmente CB1 e CB2, suas células são capazes de sintetizar e metabolizar endocanabinoides, como a anandamida (AEA) e o 2-araquidonoilglicerol (2-AG). Esse sistema está presente em diferentes estruturas cutâneas, incluindo a epiderme, os folículos pilosos, as glândulas sebáceas e as terminações nervosas.

O sistema endocanabinoide cutâneo participa da regulação de processos fundamentais, como proliferação e diferenciação celular, resposta inflamatória, função de barreira, atividade sebácea e fisiologia do folículo piloso. A pele, portanto, não é apenas um tecido que responde aos canabinoides, mas também um órgão que produz seus próprios mediadores endocanabinoides e dispõe de mecanismos enzimáticos para regular sua atividade. Essa complexa rede de sinalização contribui para a manutenção da homeostase cutânea e oferece uma base biológica relevante para investigar o potencial dermatológico dos fitocanabinoides.

O que dizem as pesquisas clínicas

As pesquisas clínicas também fazem parte desse percurso. Na psoríase, foi publicado um estudo randomizado e controlado por placebo com tratamento tópico à base de CBD.

No couro cabeludo, uma investigação com 50 pessoas com psoríase ou dermatite seborreica avaliou um xampu contendo CBD e outros ingredientes, relatando melhora de parâmetros relacionados à inflamação. O estudo não apresentou grupo comparador e avaliou condições inflamatórias do couro cabeludo, sem estabelecer um resultado específico sobre queda de cabelo.

Mecanismos biológicos, pesquisas e observações clínicas ajudam a construir esse campo, mas seus resultados precisam ser interpretados conforme o produto, a indicação, os tratamentos associados e o desenho de cada estudo. Minhas observações ainda não foram avaliadas por mim em estudo clínico e não permitem atribuir a melhora exclusivamente aos fitocanabinoides nem generalizar os resultados para todos os pacientes.

É essa leitura que considero importante levar aos meus alunos: observar com atenção, registrar as respostas e transformar a experiência clínica em perguntas capazes de orientar novas pesquisas.

Formulação e absorção: o que acontece na pele?

Há também uma questão que vai além do nome do ingrediente: quanto dele alcança a região em que pretendemos obter uma ação?

Penetrar nas camadas da pele e atravessá-la até a circulação são processos diferentes. No uso tópico, buscamos uma ação local. Na administração transdérmica, o objetivo é a passagem através da pele para produzir exposição sistêmica. Essa distinção ajuda a entender por que produtos aplicados na pele podem ter comportamentos tão diferentes.

Em uma pesquisa experimental com pele humana, aumentar a concentração de CBD de 5% para 10% não aumentou significativamente a quantidade de CBD entregue à pele nas condições avaliadas. Alterar componentes do veículo, por outro lado, modificou sua entrega. A porcentagem do ingrediente, portanto, não descreve sozinha o desempenho de um produto.

Também importa saber como o ativo está presente: dissolvido ou associado a partículas e sistemas de transporte. O tamanho dessas partículas é apenas uma das características relevantes. Precisamos compreender como o composto é liberado, quanto permanece nas diferentes camadas da pele e quanto consegue atravessá-la. Não existe uma porcentagem única de absorção que descreva todos os produtos.

O mesmo cuidado vale para a palavra “nano”. Ela descreve uma característica tecnológica, mas não funciona como selo de superioridade. O que interessa é o desempenho demonstrado pelo produto, a região que ele alcança e sua segurança. Tecnologias avançadas de entrega de ativos, incluindo sistemas nanotecnológicos, exigem avaliação farmacotécnica e regulatória específica, não sendo automaticamente contempladas pelas modalidades simplificadas de autorização sanitária.

Da experiência clínica à pesquisa

O que vejo no consultório alimenta minha curiosidade científica. Quando um paciente melhora, quero compreender o que contribuiu para aquela resposta, em quais condições ela aconteceu e se poderá se repetir em outras pessoas.

Vejo no avanço dos fitocanabinoides tópicos uma oportunidade de aproximar assistência, pesquisa e desenvolvimento de produtos. A evolução regulatória dá espaço a essa conversa, e o acompanhamento dos pacientes ajuda a identificar as perguntas que merecem ser investigadas.

É esse conhecimento que quero ajudar a construir: atento à experiência de cada paciente, consistente em seus métodos e capaz de ampliar nossas possibilidades de cuidado.

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Biografia do Autor Ludmila Militão
Ludmila Militão

Médica especialista em Dermatologia pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, pós-graduada em Práticas Integrativas e em Adequação Nutricional e Manutenção da Homeostasia, com certificação internacional em Medicina Endocanabinoide pela WeCann Academy. É docente da pós-graduação em Dermatologia Clínica e Estética da Afya Educação Médica e colaboradora do Guia de Bolso de Dermatologia, da Editora Atheneu. Sua prática clínica integra saúde da pele e dos cabelos, tecnologias avançadas e medicina regenerativa, com atenção às aplicações terapêuticas dos fitocanabinoides. CRM-SC 29633 | CRM-SP 149152 | RQE 30113