O sabor também importa no tratamento com cannabis medicinal
Estudo que avalia o uso de emulsão óleo em água como estratégia para mascarar o sabor desagradável de extrato de canabinoide. Veja no Sechat
Publicado em 11/10/2026
O sabor no tratamento com cannabis medicinal
- Estudo publicado na revista AAPS PharmSciTech avalia emulsões com CBD e CBG para reduzir o amargor de extratos de cannabis. Os resultados preliminares apontam potencial para melhorar as características sensoriais das formulações.
Quando se discute o desenvolvimento de produtos à base de cannabis, a atenção fica na concentração dos canabinoides, na segurança e nos possíveis efeitos terapêuticos. Entretanto, um aspecto aparentemente simples também pode interferir no tratamento: o sabor.
Óleos ricos em canabinoides podem apresentar sabor amargo, odor intenso e textura pouco agradável. Essas características podem dificultar a administração oral, especialmente em crianças e em pessoas com seletividade alimentar. Por isso, desenvolver um produto farmacêutico não significa apenas incorporar o princípio ativo em uma formulação. É necessário considerar também a experiência do paciente.
Em estudo recentemente publicado na revista AAPS PharmSciTech, avaliamos emulsões óleo-em-água contendo extratos ricos em canabidiol (CBD) ou canabigerol (CBG).
Nas emulsões, a fase oleosa contendo os canabinoides é dispersa em uma fase aquosa. Essa organização pode modificar as características da formulação relacionadas à percepção do sabor e contribuir para reduzir a assinatura associada ao amargor.
Para investigar esse efeito, foi utilizada uma língua eletrônica, equipamento formado por sensores capazes de gerar perfis relacionados às características físico-químicas das amostras. As emulsões contendo CBD ou CBG apresentaram perfis instrumentais semelhantes ao da emulsão sem extrato e claramente diferentes da cafeína, utilizada como referência de substância amarga.
Esse resultado constitui uma evidência preliminar de que a emulsão pode ser uma estratégia promissora para mascarar características relacionadas ao amargor dos extratos canabinoides. Entretanto, é importante destacar que a língua eletrônica não substitui a percepção humana.
Um desafio para essas formulações é a estabilidade. Embora tenham apresentado resultados iniciais favoráveis, em estudo de estabilidade observamos perda de estrutura da formulação, além da redução do teor dos canabinoides.
O trabalho deve ser compreendido como uma prova de conceito. Ele mostra a viabilidade de utilizar emulsões como ponto de partida para o desenvolvimento de preparações orais de canabinoides com características sensoriais potencialmente mais adequadas, mas também evidencia que ainda são necessários estudos de estabilidade em tempo real, além de ensaios para avaliar a biodisponibilidade e, posteriormente, testes sensoriais controlados.
Assim como nos demais medicamentos, qualidade não se resume à quantidade de ativo presente no frasco. Estabilidade, uniformidade, facilidade de administração e aceitabilidade também fazem parte do desenvolvimento farmacêutico. Uma formulação somente pode cumprir adequadamente sua função quando, além de segura e eficaz, consegue ser utilizada pelo paciente.
Referências
- 1.BRASIL, J. F. et al. Oil-in-water emulsion as a strategy for taste masking of cannabinoid extract. AAPS PharmSciTech, v. 27, art. 232, 2026. DOI: 10.1208/s12249-026-03472-w. [acessar]

Priscila Gava Mazzola*, é professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual de Campinas (FCF/Unicamp). Formada pela USP/SP, com doutorado em tecnologia-bioquímica farmacêutica e habilidades aprimoradas no MIT. Dra. Priscila também é especialista em medicamentos tópicos e transdérmicos, utilizando em seus trabalhos ativos naturais (inclusive resíduos) e sintéticos. Atualmente explora os poderes terapêuticos da cannabis medicinal, desenvolvendo novos medicamentos para ampliar o arsenal terapêutico nacional.