Alergia à cannabis existe? Médico explica os sinais
Dr. Tiago Camapnholi explica que alergia à cannabis é possível sim e pode causar sintomas respiratórios e, em casos raros, reações como anafilaxia. Veja!
Alergia à cannabis - Embora não seja considerada uma condição comum, a reação alérgica à planta é possível. Ela pode acontecer depois do contato direto com a cannabis, da exposição ao pólen ou à fumaça e também após o uso de produtos derivados por via tópica ou oral.
Mas como saber quando uma reação é realmente uma alergia e quando pode ser apenas um efeito dos canabinoides? E por que algumas pessoas podem apresentar também reações a determinados alimentos?
Para entender essas diferenças, o Sechat conversou com o Dr. Tiago Campanholi, médico reumatologista e clínico geral.
Alergia à cannabis pode aparecer de diferentes formas
Nem toda reação do organismo acontece da mesma maneira. Dependendo da forma de exposição, os sinais podem aparecer na pele, nos olhos ou no sistema respiratório.
“Sim, é possível ter alergia à cannabis. Embora não seja uma condição muito comum, pode ocorrer após contato com a planta, inalação da fumaça ou do pólen, ou uso de produtos derivados da cannabis por vias tópicas ou ingestão por via oral”, explica Campanholi.
Os primeiros sinais podem ser bastante parecidos com os de outras alergias conhecidas: coriza, espirros, congestão nasal, coceira e lacrimejamento dos olhos.
Na pele, podem surgir vermelhidão, erupções, urticária e inchaço. O médico chama atenção ainda para as manifestações respiratórias, principalmente entre pessoas que já convivem com asma.
“Podem aparecer tosse, chiado no peito e falta de ar, especialmente em pessoas com asma brônquica”, afirma.
É justamente essa variedade de sintomas que pode tornar a identificação mais difícil. Uma pessoa pode imaginar que está diante de uma irritação passageira, sem perceber que existe uma relação entre o contato com a planta e a manifestação.
Quando uma reação deixa de ser apenas um incômodo?

Existe uma diferença importante entre perceber um sintoma e reconhecer um sinal de alerta.
Se a mesma reação acontece repetidamente sempre que a pessoa entra em contato com cannabis ou permanece em um ambiente onde ela está presente, a recorrência merece investigação.
“A pessoa deve procurar avaliação médica se apresentar sintomas recorrentes sempre que entra em contato com cannabis ou ambientes onde ela está presente”, orienta Campanholi.
O cuidado precisa ser ainda maior quando aparecem inchaço no rosto, nos lábios, na língua ou na garganta, além de tosse persistente, chiado e dificuldade para respirar.
Em situações mais graves, a reação pode evoluir para anafilaxia, uma resposta alérgica intensa que pode colocar a vida em risco.
“Deve procurar atendimento de urgência imediatamente se ocorrer dificuldade para respirar, sensação de fechamento da garganta, tontura intensa, desmaio ou queda da pressão arterial”, alerta o médico.
O inchaço rápido da língua ou da garganta também é um sinal de emergência.
Nessas situações, não é hora de esperar para descobrir se o sintoma vai passar. É necessário procurar atendimento médico imediatamente.
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Como diferenciar alergia de uma reação aos canabinoides?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes quando falamos sobre o assunto.
Isso porque nem todo desconforto depois do uso de um produto de cannabis significa que existe uma alergia. O organismo também pode reagir à ação farmacológica dos canabinoides.
“A principal diferença é que a alergia à cannabis é uma resposta do sistema imunológico, enquanto muitos dos outros efeitos adversos da cannabis decorrem da ação farmacológica dos canabinoides, como THC e CBD, no organismo”, explica Campanholi.
Tontura, sonolência, boca seca, ansiedade, alterações na percepção, aumento da frequência cardíaca e queda da pressão arterial, por exemplo, podem estar relacionados aos efeitos farmacológicos.
O médico também cita sensações de euforia e paranoia entre possíveis efeitos adversos.
Por isso, o contexto importa. O que a pessoa sentiu, quanto tempo depois da exposição os sintomas começaram, qual foi a forma de contato e se aquela reação já aconteceu anteriormente são informações importantes durante uma consulta.
Não existe, portanto, uma única manifestação capaz de confirmar uma alergia à cannabis.
O diagnóstico ainda não é simples
Outra dificuldade está justamente na investigação.
Segundo Campanholi, ainda não existe um teste padronizado e amplamente disponível para diagnosticar a condição.
“Atualmente, não existe um teste padronizado amplamente disponível para alergia à cannabis. Segundo a American Academy of Allergy, Asthma & Immunology, o diagnóstico costuma se apoiar fortemente no histórico clínico”, explica.
Em algumas situações, o alergista pode utilizar testes cutâneos com extratos preparados a partir da própria planta. Esses exames, porém, não possuem padronização ampla.
Isso faz com que a conversa entre médico e paciente tenha um papel especialmente importante. Antes de qualquer exame, é preciso entender a história por trás do sintoma.
Quando aconteceu? O que a pessoa havia usado ou tocado? Quanto tempo depois os sinais apareceram? Eles desapareceram sozinhos? Voltaram em uma nova exposição?
São detalhes que podem ajudar a construir o diagnóstico.
O que a alergia à cannabis tem a ver com frutas e vegetais?
A história fica ainda mais interessante quando chegamos às chamadas ns-LTPs, proteínas encontradas em diversas plantas.
Um estudo publicado no International Archives of Allergy and Immunology investigou a relação entre a sensibilização à Cannabis sativa e alergias alimentares. A pesquisa observou a presença dessas proteínas em pacientes que apresentavam reações à cannabis e a determinados alimentos.
As ns-LTPs — sigla para non-specific lipid transfer proteins — são proteínas de defesa das plantas. Elas também são bastante resistentes ao calor e à digestão.
“Algumas dessas proteínas presentes na Cannabis sativa são estruturalmente semelhantes às encontradas em frutas, vegetais e outros alimentos”, explica Campanholi.
É aí que entra um fenômeno conhecido como reatividade cruzada.
Quando o sistema imunológico desenvolve anticorpos IgE contra determinada proteína, ele pode, em algumas pessoas, reconhecer proteínas semelhantes presentes em outras plantas.
“Em alguns indivíduos, a sensibilização ocorre contra uma ns-LTP da cannabis. Como proteínas semelhantes existem em outros vegetais, os anticorpos podem ‘confundir’ essas proteínas e reagir a elas também”, afirma.
Em outras palavras, o sistema de defesa pode reconhecer uma proteína parecida como se fosse aquela que originalmente desencadeou a resposta.
É uma espécie de “confusão” do sistema imunológico — e ela ajuda a explicar por que alguns pacientes sensibilizados à cannabis também podem apresentar reações ao consumir determinados alimentos.
Pêssego, tomate e avelã podem estar envolvidos?
A resposta não é tão simples quanto dizer que uma alergia leva automaticamente à outra.
O que existe é uma possibilidade de reatividade cruzada entre proteínas semelhantes. Entre os alimentos que podem estar envolvidos estão pêssego, tomate e avelã.
“Isso explica por que algumas pessoas com alergia à cannabis desenvolvem sintomas ao consumir certos frutos ou vegetais, como pêssego, tomate e avelã, devido à reação cruzada entre proteínas semelhantes presentes”, explica o médico.
O estudo citado avaliou um grupo pequeno de pacientes, portanto seus resultados não permitem afirmar que todas as pessoas com alergia à cannabis terão também alergias alimentares.
A descoberta, no entanto, abriu uma janela importante para compreender como diferentes alergias podem estar conectadas.
Pesquisas posteriores identificaram a proteína Can s 3, uma proteína de transferência lipídica da cannabis, como um possível alérgeno envolvido em algumas reações. Os trabalhos reforçam a importância de investigar os diferentes componentes da planta e seus mecanismos de sensibilização.
Alergia à cannabis ainda tem perguntas sem resposta
A ciência já sabe que uma reação alérgica à cannabis pode acontecer. O que ainda está sendo investigado é o tamanho desse fenômeno, quais componentes da planta estão mais frequentemente envolvidos e como tornar o diagnóstico mais preciso.
Por enquanto, o histórico do paciente continua sendo uma das principais ferramentas.
E existe uma diferença importante que não deve ser esquecida: ter uma reação após o contato com cannabis não significa automaticamente ter alergia.
Os efeitos farmacológicos dos canabinoides podem produzir sensações bastante diferentes das manifestações de uma resposta imunológica. É justamente por isso que o diagnóstico precisa ser individualizado.
Para quem percebe que algo sempre acontece depois do contato com a planta, vale prestar atenção.
Uma coceira que volta. Uma urticária que aparece novamente. Um inchaço que não parece casual. Um chiado no peito que surge depois da exposição.
São pistas que merecem ser contadas a um profissional de saúde.
E, quando o corpo dá um sinal mais forte — principalmente falta de ar, fechamento da garganta, desmaio ou inchaço rápido da língua e da garganta — a orientação é ainda mais direta: procurar atendimento de urgência.
Porque, quando falamos de alergias, entender o que parece pequeno pode ser justamente o que ajuda a evitar algo maior.