Cânhamo vira tijolo e compensado em experimentos voltados à construção civil e à fabricação de móveis
Tijolo de cânhamo armazena carbono e pode ganhar nova utilidade após o uso. Conheça os experimentos do ICT no Portal Sechat.

O ICT Cannabis Brasil está desenvolvendo experimentos com fibras vegetais para demonstrar como matérias-primas renováveis, como cânhamo e milho, podem ser utilizadas na produção de tijolos, compensados, móveis e componentes destinados à construção civil.
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Os testes buscam desenvolver materiais alinhados às metas internacionais de redução das emissões de carbono defendidas pela Organização das Nações Unidas (ONU). A proposta é substituir processos industriais de maior impacto por um bioprocesso baseado em fontes renováveis e com menor consumo de energia.
Segundo Fabrício Zardo, diretor do ICT Cannabis Brasil, o tijolo de cânhamo passa por um processo de secagem a frio e dispensa a queima em fornos — etapa comum na fabricação de tijolos cerâmicos convencionais e associada ao consumo de combustíveis e à emissão de gases de efeito estufa.
Durante o cultivo, plantas como o cânhamo e o milho retiram dióxido de carbono da atmosfera. Parte desse carbono permanece armazenada no material após sua fabricação. Quando a quantidade capturada supera as emissões geradas em todo o processo produtivo, o produto pode apresentar um balanço negativo de carbono.
“Com fontes renováveis, como cânhamo e milho, podemos alcançar o carbono negativo. Isso acontece quando o processo de fabricação é tão eficiente que a matéria-prima captura mais carbono da atmosfera do que se emite para produzir o tijolo”, explicou Zardo.
A classificação como material de carbono negativo, no entanto, depende de uma análise completa do ciclo de vida, considerando cultivo, transporte, fabricação, uso e destinação final.
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Teste com jato de calor a 200 °C
Em um dos experimentos, uma peça produzida com o material foi submetida a um jato de calor de 200 °C. De acordo com o ICT Cannabis Brasil, a amostra não entrou em combustão, não formou brasa nem liberou fumaça durante o teste.
A resistência foi considerada satisfatória pelos responsáveis pelo experimento. Ainda segundo o instituto, a temperatura da peça aumentou apenas 10 °C durante a exposição.
O resultado indica resistência térmica nas condições específicas do ensaio. Para classificar formalmente o produto quanto à reação e à resistência ao fogo, ainda são necessários testes padronizados e certificações técnicas aplicáveis aos materiais de construção.
Um material com segundo ciclo de vida
Outro diferencial estudado é a possibilidade de reaproveitamento do tijolo depois de sua utilização na construção.
“O tijolo não termina na construção. Ele tem um segundo ciclo de vida”, afirmou Zardo.
Segundo o diretor, o material pode ser reutilizado como cama para animais ou retornar ao solo, contribuindo para um modelo de produção circular. A ideia é oferecer uma nova utilidade ao produto após seu primeiro uso, reduzindo a geração de resíduos e a dependência de processos convencionais de reciclagem, que podem apresentar custos elevados.
O projeto também avalia características antibacterianas do material e o potencial ambiental associado ao cultivo do cânhamo, incluindo a fitorremediação — processo pelo qual determinadas plantas podem retirar, imobilizar ou reduzir a presença de contaminantes no solo.
Além dos tijolos, os experimentos com compensados mostram que as fibras vegetais também podem ser aproveitadas na fabricação de móveis e outros componentes. A iniciativa amplia o debate sobre o uso do cânhamo para além das áreas medicinal e farmacêutica, apresentando a planta como possível matéria-prima para uma indústria mais circular, renovável e de menor impacto ambiental.
