Saúde

Cannabis e Alzheimer: o que já se sabe

Estudo clínico avaliou THC e CBD para reduzir agitação em pessoas com demência avançada; entenda o que isso significa para pacientes e cuidadores

Cannabis e Alzheimer: o que já se sabe
Estudo clínico avaliou uma combinação específica de THC e CBD para sintomas de agitação em pessoas com demência avançada.

Cannabis e Alzheimer: o que já se sabe

  • Um estudo clínico com 120 pessoas com Alzheimer ou outras demências avaliou uma formulação específica de THC e CBD para agitação em estágio avançado. Os resultados apontaram redução dos sintomas, mas não comprovam tratamento ou reversão do Alzheimer.

Quem cuida de uma pessoa com Alzheimer pode enfrentar mudanças de comportamento que vão além da perda de memória. Agitação, irritabilidade, agressividade, inquietação e sofrimento emocional estão entre os sintomas que podem afetar a rotina do paciente e também de quem acompanha o tratamento. Um estudo clínico apresentado em julho de 2026 avaliou se uma combinação específica de THC e CBD poderia ajudar a reduzir esse tipo de manifestação em pessoas com demência avançada.

O ensaio, chamado LiBBY (Life’s end Benefits of cannaBidiol and tetrahYdrocannabinol), acompanhou 120 participantes com Alzheimer ou outros tipos de demência, todos elegíveis para cuidados paliativos e com sintomas relevantes de agitação. A idade média dos participantes era de 80 anos.

Os resultados chamaram atenção porque, após duas semanas, os participantes que receberam a formulação de THC e CBD apresentaram uma redução média de 6,27 pontos na escala utilizada para medir a agitação em comparação ao grupo placebo. Após 12 semanas, a redução permaneceu significativa.

Mas isso significa que cannabis pode tratar o Alzheimer? Não. O estudo não avaliou a capacidade da cannabis de interromper ou reverter a doença. O objetivo foi investigar uma formulação específica de THC e CBD para um dos sintomas associados à demência avançada: a agitação.

O que o estudo realmente avaliou?

A pesquisa utilizou uma combinação de THC e CBD purificados administrada por via oral em uma suspensão oleosa de ação rápida. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente entre o tratamento e o placebo, em um desenho duplo-cego, no qual pacientes, cuidadores e pesquisadores não sabiam inicialmente quem recebia cada intervenção.

Além da redução na escala de agitação, os pesquisadores observaram diferenças na avaliação clínica global da mudança comportamental. Depois de duas semanas, 83,9% dos participantes que receberam THC e CBD apresentaram melhora nessa avaliação, contra 30,5% no grupo placebo. Em 12 semanas, os números foram de 87,2% e 23,6%, respectivamente.

Os eventos adversos também foram acompanhados. Infecções e distúrbios gastrointestinais, entre outros eventos, ocorreram em proporções semelhantes entre os grupos: 46,7% entre os participantes que receberam a formulação e 42,4% no grupo placebo.

A pesquisa teve apoio do National Institutes of Health e da Alzheimer’s Association e foi registrada no ClinicalTrials.gov sob o número NCT05644262.

CBD e THC são a mesma coisa?

Não.

O CBD (canabidiol) e o THC (tetrahidrocanabinol) são diferentes compostos da cannabis e possuem características farmacológicas distintas.

O THC é o principal componente associado aos efeitos psicoativos da cannabis. Já o CBD não apresenta os mesmos efeitos psicoativos do THC. Isso não significa, porém, que os dois compostos tenham necessariamente a mesma finalidade terapêutica ou que possam ser utilizados indistintamente.

Essa diferença é especialmente importante para pacientes e familiares que estão começando a pesquisar cannabis medicinal. O fato de um produto conter CBD não significa que ele tenha sido estudado para qualquer doença ou sintoma.

Uma revisão científica publicada na Frontiers in Pharmacology destaca que existem resultados pré-clínicos e alguns estudos clínicos sobre canabinoides e doença de Alzheimer, mas ressalta que ainda são necessários estudos mais aprofundados para determinar segurança, farmacocinética, farmacodinâmica e eficácia.

E para quem tem Alzheimer?

Para uma família que recebeu um diagnóstico de Alzheimer, a pergunta geralmente não é apenas se existe uma pesquisa sobre cannabis. A dúvida costuma ser mais direta: isso pode ajudar meu familiar?

A resposta depende do sintoma, do estágio da doença, dos medicamentos utilizados, das condições de saúde do paciente e da avaliação do profissional responsável pelo tratamento.

O estudo LiBBY não permite concluir que THC e CBD sejam capazes de tratar a causa do Alzheimer. O resultado observado está relacionado principalmente à agitação em pessoas com demência avançada.

Também é importante lembrar que a formulação utilizada na pesquisa foi desenvolvida, padronizada e administrada sob supervisão médica. Os próprios pesquisadores alertaram que produtos comerciais de THC e CBD podem apresentar diferenças de composição, qualidade e concentração e, portanto, não devem ser considerados equivalentes à formulação estudada.

Uma história real ajuda a entender a dúvida

A busca por alternativas terapêuticas não acontece apenas nos laboratórios. Famílias que convivem diariamente com doenças neurodegenerativas também procuram informações sobre cannabis medicinal.

Em uma história publicada anteriormente pelo Sechat, a médica Gabriela Mânica contou a experiência da mãe, Bernadete, diagnosticada com Alzheimer. Segundo o relato da médica, a família passou a utilizar cannabis no acompanhamento da mãe e percebeu mudanças no comportamento e na qualidade de vida.

Gabriela relatou que, antes do tratamento, a mãe apresentava episódios de irritação, agressividade e confusão. Em determinado momento, durante uma viagem em família, ela percebeu uma mudança que considerou significativa na interação da mãe com os filhos.

Segundo a reportagem, Bernadete também continuou utilizando outros medicamentos e realizando terapias, como pintura, música e fisioterapia. A própria família descreveu o tratamento como um acompanhamento conjunto, e não como substituição automática das demais intervenções.

A experiência de Bernadete é um relato individual. Ela não pode ser utilizada, sozinha, para demonstrar que a cannabis controla ou trata o Alzheimer. O valor desse tipo de história está em mostrar uma das razões pelas quais pacientes e cuidadores procuram informação sobre o tema.

O que a ciência já sabe sobre cannabis e Alzheimer?

A relação entre canabinoides e doenças neurodegenerativas vem sendo investigada há anos.

Uma revisão científica sobre o potencial e os limites dos canabinoides no tratamento da doença de Alzheimer descreveu resultados de estudos laboratoriais, modelos animais e pesquisas clínicas envolvendo THC, CBD e outros compostos. Os autores apontaram mecanismos que justificam novas investigações, mas também destacaram que a evidência clínica ainda é insuficiente para estabelecer os canabinoides como tratamento da doença de Alzheimer.

Alguns estudos anteriores avaliaram o uso de THC ou derivados sintéticos em sintomas comportamentais de pessoas com demência. Os resultados sugeriram possíveis efeitos sobre agitação e outros sintomas neuropsiquiátricos, mas a própria literatura aponta que os resultados clínicos permanecem inconclusivos.

Isso ajuda a explicar por que um novo ensaio clínico como o LiBBY desperta interesse: ele acrescenta dados clínicos a uma área em que ainda existem muitas perguntas sem resposta.

Cannabis medicinal é permitida para Alzheimer?

A possibilidade de utilizar um produto de cannabis medicinal não significa que qualquer produto possa ser utilizado para qualquer doença ou que o paciente deva iniciar o tratamento por conta própria.

No Brasil, o acesso a produtos derivados de cannabis segue regras sanitárias e diferentes formas de obtenção. Para o paciente, também é importante diferenciar ter uma indicação médica individualizada de encontrar na internet um produto que prometa tratar determinada doença.

A própria equipe do estudo LiBBY fez um alerta semelhante ao explicar que a formulação utilizada na pesquisa não deve ser comparada automaticamente a produtos encontrados no mercado.

Para quem está pesquisando pela primeira vez, a recomendação mais segura é conversar com o profissional que acompanha o paciente antes de alterar medicamentos ou iniciar qualquer produto à base de cannabis.

O que o paciente ou cuidador deve perguntar ao médico?

Quem pesquisa cannabis para Alzheimer pode levar algumas perguntas objetivas para a consulta:

  • Qual sintoma está sendo tratado?
  • Existe evidência científica para esse objetivo?
  • Qual canabinoide foi estudado para esse sintoma?
  • Qual formulação e dose foram utilizadas nas pesquisas?
  • O produto considerado para o paciente é equivalente ao utilizado nos estudos?
  • Há interação com os medicamentos que o paciente já utiliza?
  • Quais efeitos adversos devem ser observados?
  • Como será feito o acompanhamento dos resultados?

Essas perguntas ajudam a separar uma informação científica de uma promessa comercial.

Para pacientes e cuidadores, essa diferença é importante. O fato de uma pesquisa apresentar resultados positivos não significa que qualquer óleo de CBD ou produto com THC terá o mesmo efeito.

O que o novo estudo muda?

O estudo LiBBY acrescenta evidências clínicas sobre o potencial de uma combinação específica de THC e CBD para a agitação associada à demência avançada. Mas seus resultados não permitem dizer que a cannabis interrompa a progressão do Alzheimer ou substitua os tratamentos atualmente utilizados.

A principal contribuição está em mostrar que o tema pode ser investigado em ensaios clínicos controlados e que determinados sintomas da demência podem ser alvos específicos de pesquisas com canabinoides. 

Para quem convive com Alzheimer, portanto, a pergunta mais adequada não é simplesmente se “cannabis funciona”. É para qual sintoma, em qual paciente, com qual formulação, dose, acompanhamento e nível de evidência.

A ciência ainda busca essas respostas.

Leia também: THC e CBD reduzem agitação em pacientes com demência avançada, aponta estudo clínico

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Matéria revisada por

  • Pedro Pierro

    Pedro Pierro

    Pedro Pierro é neurocirurgião especialista em dor e epilepsia, além de Diretor Científico da Sechat e curador do CBCM. · CRM-SP 102.283

Revisão técnica em 07/10/2026

Referências

  1. 1.GEORGETOWN UNIVERSITY MEDICAL CENTER. Combination of THC and CBD significantly reduced agitation in people with late-stage dementia. Washington, DC: Georgetown University Medical Center, 14 jul. 2026. Disponível em: https://medicine.georgetown.edu/news-releases/combination-of-thc-and-cbd-significantly-reduced-agitation-in-people-with-late-stage-dementia/. Acesso em: 07 out. 2026. [acessar]
  2. 2.ABATE, Giulia; UBERTI, Daniela; TAMBARO, Simone. Potential and Limits of Cannabinoids in Alzheimer’s Disease Therapy. Biology, v. 10, n. 6, p. 542, 2021. DOI: 10.3390/biology10060542. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8234911/ [acessar]
  3. 3.O artigo de revisao aborda o potencial terapeutico dos canabinoides e do sistema endocanabinoide no tratamento da doença de Alzheimer. Os autores detalham como os canabinoides atuam nos diferentes subtipos de receptores endocanabinoides para regular processos associados a doença de Alzheimer, alem de discutirem os mecanismos de acao subjacentes. O trabalho resume as oportunidades da farmacologia dos canabinoides e avalia a utilidade clinica dessas substancias para o manejo de doencas neurodegenerativas. [acessar]

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