Cannabis medicinal: 4 especialidades lideram prescrições
Neurologistas e psiquiatras apresentam maior intensidade de prescrição de cannabis medicinal, outras especialidades têm maior número de médicos. Entenda

O mercado de cannabis medicinal nas farmácias brasileiras está concentrado em quatro especialidades: clínica geral, psiquiatria, pediatria e neurologia. Juntas, elas respondem por 69,4% da importância das prescrições registradas no período de 12 meses encerrado em abril de 2026.
Os dados foram apresentados pela Close-Up International durante o Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal (CBCM 2026). O levantamento considera as prescrições de produtos de cannabis comercializados em farmácias e drogarias — portanto, não inclui integralmente outros canais, como importação individual e associações de pacientes.
A análise também mostra que o número de médicos prescritores de cannabis no canal farmacêutico saltou de 54.258 para 69.794, crescimento de 28,6% em relação ao período anterior.
No mesmo intervalo, o volume de prescrições físicas ou digitais passou de 354.302 para 476.448, alta de 34,5%. A média avançou de 6,5 para 6,8 prescrições por médico.
Quais especialidades mais prescrevem cannabis?
As quatro especialidades destacadas no levantamento são identificadas pelas siglas CLG, PSQ, PED e NEU:

Somadas, as quatro áreas concentram 34.491 médicos, o equivalente a aproximadamente 49,4% dos 69.794 prescritores identificados.
Os números, entretanto, revelam duas lideranças diferentes. A clínica geral possui a maior base de profissionais prescritores, enquanto a neurologia registra a maior intensidade de prescrição, com média de 23 receitas por médico.
Neurologia lidera em intensidade de prescrição
A neurologia responde por 27,4% das prescrições, apesar de reunir 5.686 médicos — o menor contingente entre as quatro especialidades analisadas. Cada neurologista apresentou, em média, 23 prescrições no período.
Essa intensidade pode estar relacionada à presença da cannabis medicinal em discussões sobre condições neurológicas, especialmente quadros de difícil controle. Entre as doenças acompanhadas pela especialidade estão a epilepsia, a esclerose múltipla e a enxaqueca.
Na epilepsia, particularmente em síndromes raras e resistentes aos tratamentos convencionais, o canabidiol reúne evidências clínicas mais consolidadas. A seção Doenças do Sechat apresenta estudos sobre o uso de canabinoides em pacientes com crises convulsivas, incluindo pesquisas com crianças diagnosticadas com epilepsia grave.
Isso não significa, contudo, que todas as prescrições feitas por neurologistas tenham a epilepsia como indicação. A base apresentada informa a especialidade médica, mas não detalha o diagnóstico relacionado a cada receita.
Psiquiatria representa 25,4% das prescrições
A psiquiatria aparece em segundo lugar em participação, com 25,4% das prescrições. Foram identificados 9.402 psiquiatras prescritores, com média de 12,9 receitas por profissional.
O avanço da cannabis nessa área acompanha o interesse científico sobre a ação dos canabinoides em condições relacionadas ao humor, ao sono e ao comportamento. A seção Doenças do Sechat reúne pesquisas sobre cannabis e ansiedade, depressão, insônia e transtorno do estresse pós-traumático.
As evidências, porém, não possuem a mesma força para todas as condições. Estudos sobre CBD e ansiedade apresentam resultados iniciais relevantes, mas ainda são necessários ensaios clínicos maiores e mais bem controlados. Produtos com THC também exigem avaliação cuidadosa, sobretudo em pacientes vulneráveis a efeitos psiquiátricos.
Clínica geral tem o maior número de prescritores
A clínica geral ocupa a primeira posição quando o critério é o número de médicos: são 13.135 prescritores. Esse grupo responde por 9,1% das receitas, com média de 3,3 prescrições por profissional.
O resultado sugere uma base numerosa, mas com uso menos recorrente quando comparado a neurologistas e psiquiatras. Como o clínico geral atende pacientes com diferentes condições, a cannabis pode aparecer em discussões terapêuticas envolvendo dor, sono, sintomas relacionados ao câncer e cuidados paliativos.
A dor crônica é uma das condições com maior volume de pesquisas sobre canabinoides. A página temática do Sechat reúne revisões e estudos relacionados ao uso de CBD, THC e outros componentes da planta em diferentes tipos de dor.
Ainda assim, a resposta ao tratamento pode variar conforme a origem da dor, a composição do produto, a dose e as condições clínicas do paciente.
Pediatria reúne mais de 6 mil prescritores
A pediatria reúne 6.268 médicos prescritores e representa 7,4% das receitas de cannabis no canal farmacêutico. A média é de 5,6 prescrições por pediatra.
Entre os temas que aproximam a cannabis medicinal da especialidade estão a epilepsia refratária e o Transtorno do Espectro Autista (TEA). No caso do autismo, as pesquisas investigam possíveis efeitos sobre sintomas associados, como irritabilidade, alterações do sono e comportamentos disruptivos, mas as evidências ainda estão em desenvolvimento.
Na epilepsia infantil, o cenário científico é diferente: formulações específicas de CBD possuem estudos clínicos mais robustos para algumas síndromes raras. Mesmo nesses casos, o tratamento demanda acompanhamento médico, ajuste individual de dose e observação de possíveis interações com outros medicamentos.
Novos médicos impulsionam o mercado de cannabis
Dos 69.794 médicos identificados no período, 43.230, ou 62%, começaram a prescrever cannabis no último ano. Os outros 26.564 já estavam presentes na base anterior e ampliaram em 27,7% o volume de prescrições, passando de 11,1 para 14,2 receitas por médico.
O levantamento também aponta 27.694 profissionais classificados como “perdidos”, ou seja, que prescreveram no período anterior, mas não foram identificados como prescritores no período atual. Esse grupo apresentava baixa recorrência, com média de 1,4 prescrição por médico.
Os dados indicam que a expansão do mercado farmacêutico de cannabis é impulsionada principalmente pela entrada de novos profissionais. Ao mesmo tempo, a diferença entre a quantidade de médicos e a intensidade das prescrições mostra que neurologistas e psiquiatras mantêm uma atuação mais recorrente dentro desse canal.
É importante destacar que os números não medem todo o mercado brasileiro de cannabis medicinal. O recorte apresentado considera as vendas e prescrições captadas em farmácias e drogarias. Importações autorizadas pela Anvisa, produtos fornecidos por associações, clínicas especializadas, decisões judiciais e compras públicas possuem dinâmicas próprias e podem alterar o panorama geral.
