Cannabis medicinal: Embrapa alerta para desafio da competitividade
Beatriz Emygdio questiona se as regras para o cultivo permitirão uma produção nacional de cannabis medicinal competitiva. Veja o debate ocorreu na 81ª Soea.

Cannabis medicinal ganha espaço em evento nacional da engenharia
- Anvisa, Embrapa e especialistas discutiram cultivo, pesquisa e produção de cannabis medicinal durante a 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia.
Não basta regular o cultivo, é preciso regular para competir.
A regulamentação da cannabis medicinal no Brasil precisa considerar não apenas as condições para o cultivo, mas também a competitividade da produção nacional. O alerta foi feito pela pesquisadora Beatriz Marti Emygdio, presidente do Comitê de Assessoramento Estratégico em Cannabis da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), durante a 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (Soea), realizada em Aracaju (SE).
Ao encerrar sua apresentação, em 14 de outubro de 2026, Beatriz chamou a atenção para o risco de as exigências regulatórias e a complexidade das regras dificultarem a formação de uma cadeia produtiva capaz de competir com fornecedores internacionais. Para a pesquisadora, o objetivo de ampliar o acesso dos pacientes e reduzir os custos dos medicamentos pode não ser alcançado se a regulamentação não considerar as condições econômicas necessárias à produção brasileira.
“Não basta regular o cultivo, é preciso regular para competir”, afirmou Beatriz, ao sintetizar a reflexão apresentada no evento.
A pesquisadora argumentou que a regulamentação brasileira tem caráter reativo, pois, segundo sua análise, o processo decorre de uma decisão judicial, e não de uma estratégia originalmente concebida para desenvolver o setor. Na avaliação dela, esse contexto pode contribuir para que aspectos de competitividade recebam menos atenção na elaboração das regras.
Beatriz também questionou se o grau de complexidade das exigências permitirá alcançar, no curto e no médio prazo, os objetivos de facilitar o acesso dos pacientes e reduzir os custos dos medicamentos.
Competitividade e custos da produção nacional
Durante sua apresentação, Beatriz destacou que o canabidiol (CBD) já é comercializado a custos muito baixos no mercado internacional. Nesse cenário, regras que elevem a complexidade e os custos da produção nacional podem reduzir a viabilidade econômica de fabricar esses produtos no Brasil.
“Se nós não articularmos essa regulamentação de modo que ela permita o setor ser competitivo, com custos de produção que possam ter produtos competitivos, certamente nós acabaremos importando material que vai ser mais viável do que produzir aqui no Brasil”, afirmou a pesquisadora.
A declaração coloca a competitividade como uma questão central para o desenvolvimento da cadeia produtiva nacional. Além de definir quem pode cultivar e sob quais condições, o modelo regulatório influencia a estrutura de custos, os investimentos necessários e a possibilidade de estabelecer uma produção local economicamente viável.
A avaliação apresentada por Beatriz representa uma análise sobre os possíveis efeitos das regras para o setor. O impacto efetivo sobre os custos de produção e a participação de produtos nacionais e importados dependerá da implementação da regulamentação e das condições de mercado.
Beatriz Marti Emygdio e Bruno Agnello Pegoraro estão confirmados no Cannabis Connection 2026. O evento reunirá especialistas e representantes do setor para discutir os desafios regulatórios, as oportunidades de mercado e o desenvolvimento da cadeia produtiva da cannabis no Brasil.
Acompanhe os debates e participe desse encontro do setor. Acesse www.cannabisconnection.com.br e saiba mais.
Anvisa apresenta regras para cultivo e pesquisa
O tema foi discutido no painel “Cannabis Medicinal: da Genética ao Medicamento – a construção de uma nova cadeia produtiva no Brasil”, que reuniu representantes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), da Embrapa e especialistas para discutir os desafios científicos, regulatórios e produtivos do setor.
A gerente da área de Produtos Controlados da Anvisa, a farmacêutica Renata de Morais Souza, apresentou as diferenças entre as Resoluções da Diretoria Colegiada (RDCs) nº 1.012/2026 e nº 1.013/2026.
De acordo com a publicação do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), a RDC nº 1.012/2026 regulamenta o cultivo destinado exclusivamente à pesquisa científica. Já a RDC nº 1.013/2026 estabelece condições para o cultivo de variedades com teor de tetrahidrocanabinol (THC) igual ou inferior a 0,3%, para fins medicinais, farmacêuticos ou de pesquisa.
As normas estabelecem requisitos para autorização das atividades, controle sanitário e rastreabilidade da produção.
Renata também esclareceu que a autorização para cultivo destinado à pesquisa não abrange automaticamente todas as etapas de processamento e fabricação. A preparação de produtos acabados, como óleos, extratos, cápsulas e soluções orais, exige autorização compatível com a atividade realizada. O mesmo princípio se aplica às operações de extração e processamento para obtenção de insumos farmacêuticos ou medicamentos.
As exigências regulatórias foram discutidas no contexto da construção de uma cadeia produtiva que conecte pesquisa, cultivo, processamento e fabricação farmacêutica.
Produção nacional enfrenta desafios científicos e agrícolas
Além da competitividade econômica, Beatriz Emygdio apresentou obstáculos técnicos ao desenvolvimento da produção brasileira. Entre eles estão a dependência de genética importada, a falta de cultivares adaptadas às condições nacionais, os desafios fitossanitários, a variabilidade da matéria-prima e a oferta limitada de sementes e mudas certificadas.
A pesquisadora também alertou para os riscos da introdução de materiais genéticos sem caracterização adequada e sem procedimentos de quarentena, que podem favorecer a disseminação de vírus.
Outro desafio é a variação na composição química da planta. Fatores genéticos e ambientais, nutrição, manejo e procedimentos após a colheita podem influenciar a produção de biomassa e a concentração dos canabinoides.
Essa variabilidade dificulta a padronização dos compostos e a obtenção de resultados clínicos reproduzíveis, aspectos relevantes para o desenvolvimento de produtos medicinais com qualidade controlada.
A consolidação da cadeia nacional depende da integração entre pesquisa científica, produção agrícola, registro de cultivares, controle de qualidade e fabricação farmacêutica.
Processamento industrial e potencial agrícola
O consultor da Anvisa e engenheiro agrônomo Sérgio Barbosa Ferreira Rocha abordou o processamento industrial e os requisitos de qualidade da cadeia agroindustrial da cannabis.
Segundo a publicação do Confea, a apresentação destacou as possibilidades de aproveitamento da planta em diferentes segmentos, incluindo alimentação, saúde, construção civil e indústria têxtil.
Sérgio também discutiu o potencial de cultivo em diferentes regiões brasileiras, considerando as condições agroclimáticas. O zoneamento pode contribuir para identificar áreas com potencial produtivo no Nordeste e no Centro-Sul, levando em conta as diferenças ambientais e seus efeitos sobre o desenvolvimento da planta e as características da matéria-prima.
O planejamento agrícola é uma das etapas necessárias para avaliar a adaptação das variedades, a produtividade e a consistência da matéria-prima destinada ao processamento.
Cânhamo amplia o debate sobre usos industriais
A programação também incluiu uma apresentação sobre o cânhamo industrial, conduzida pelo gestor ambiental e cientista político Bruno Agnello Pegoraro.
Com o tema “Cânhamo no Brasil: panorama e oportunidades para a engenharia e a agronomia”, a exposição abordou o cenário internacional, com destaque para China, França e Estados Unidos, e as possibilidades de aplicação industrial da planta.
Entre os segmentos mencionados estão a indústria têxtil e outros setores que utilizam fibras vegetais. O desenvolvimento dessas aplicações pode abrir oportunidades para pesquisas em técnicas de cultivo, beneficiamento e transformação da matéria-prima.
A moderação do painel ficou a cargo do engenheiro agrônomo Almir Antonio Gnoatto, superintendente de Agricultura e Pecuária no Paraná do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Cannabis medicinal ganha espaço em evento nacional
A discussão realizada na 81ª Soea mostra como a cannabis medicinal vem conquistando espaço em ambientes institucionais ligados à ciência, à engenharia, à agronomia e ao desenvolvimento industrial.
A participação de representantes da Anvisa e da Embrapa ampliou o debate para além das questões terapêuticas e sanitárias, colocando em pauta a estrutura necessária para desenvolver uma cadeia produtiva nacional.
A reflexão de Beatriz Emygdio acrescenta uma dimensão econômica à discussão: a regulamentação precisa estabelecer condições para o cultivo e o processamento, mas também considerar se a produção brasileira conseguirá competir com produtos disponíveis no mercado internacional.
O desafio envolve conciliar exigências sanitárias, qualidade da matéria-prima, segurança dos produtos e viabilidade econômica. Para a pesquisadora, ignorar a competitividade pode comprometer a capacidade de produção nacional e fazer com que a importação continue sendo uma alternativa mais viável.
O painel realizado em Aracaju reuniu essas questões em um mesmo espaço de discussão, evidenciando a conexão entre regulamentação, pesquisa, agricultura e indústria no desenvolvimento do mercado brasileiro de cannabis medicinal.
Fonte de referência: Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), reportagem “Especialistas debatem desafios da cadeia produtiva da cannabis medicinal”, publicada em 14 de outubro de 2026.
Fonte original: https://www.confea.org.br/especialistas-debatem-desafios-da-cadeia-produtiva-da-cannabis-medicinal
