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Cannabis muda saúde de velejador após anos de crises

Advogado e comentarista conta ao Sechat News como chegou ao tratamento com cannabis após enfrentar crises de ansiedade e depressão; médica explica potencial terapêutico

Cannabis muda saúde de velejador após anos de crises
Jaime Fusco relata ao Sechat News sua experiência com cannabis, enquanto médica explica potencial terapêutico, segurança e acompanhamento. Foto: Arquivo Pessoal.

O advogado criminalista e comentarista Jaime Fusco começou a utilizar cannabis por volta dos 45 ou 46 anos, depois de enfrentar um período marcado por depressão, crises de ansiedade e uso de diferentes medicamentos. Em entrevista ao Sechat News, ele contou como a experiência com a cannabis passou a fazer parte de sua rotina e afirmou ter percebido mudanças no comportamento, no bem-estar e na qualidade de vida.

Antes de se tornar paciente, Fusco diz que tinha uma relação de desconfiança com a cannabis. Pela atuação profissional como advogado criminalista e comentarista de segurança pública, evitava contato com a planta e acompanhava o tema principalmente sob a perspectiva jurídica.

A mudança aconteceu depois de um período pessoal difícil. Segundo seu relato, ele utilizava Rivotril e outros medicamentos, passou por tratamento clínico e chegou a procurar uma clínica durante um quadro de depressão. Também relatou ter passado por crises de ansiedade que o levaram cinco vezes a serviços de emergência por acreditar que estava sofrendo um infarto.

Do preconceito ao tratamento com cannabis

Fusco contou que começou a conhecer pessoas que utilizavam cannabis e, posteriormente, teve contato com a planta como alternativa dentro de sua própria trajetória.

“E a cannabis de alguma forma foi me relaxando, né? Sou muito ansioso, eh, tenho hiperfoco, sou também muito ativo. Então, e eu consegui com a cannabis relaxar”, relatou o advogado que compartilhou ter sido nomeado como membro na Comissão de estudos de Plantas Medicinais da OAB/RJ

O advogado afirmou que, a partir da experiência, passou a observar mudanças que ultrapassavam a percepção inicial sobre ansiedade. Segundo ele, houve uma alteração na maneira como reagia às situações do cotidiano e também em sua relação com outras pessoas.

“Ela também começa a melhorar o meu pensamento como ser humano, né? As pessoas que se relacionam comigo, as pessoas que convivem no meu métier e das pessoas que eram antes, que não eram usuárias, então eu senti uma diferença considerável de bem-estar social e de qualidade de vida”, afirmou.

Fusco resume a experiência dizendo que a cannabis se tornou uma importante ferramenta dentro de sua trajetória pessoal.

“Então, assim, eu tô muito melhor, né? Eu sou um ser humano muito melhor.”

Quando questionado sobre as mudanças que percebeu especificamente em relação à saúde e à qualidade de vida, ele destacou a redução da agressividade e uma maior capacidade de relaxamento.

“Fiquei menos agressivo, fiquei menos agressivo. A agressividade foi o que, hoje vendo quem eu era e olhando para mim atualmente, eu sou uma pessoa extremamente calma perto do que eu era”, contou.

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Jaime Fusco relata sua experiência com cannabis medicinal durante entrevista ao Sechat News.

Experiência pessoal e potencial terapêutico

O relato de Fusco foi observado pela médica pesquisadora em Pesquisas Biomédicas com Cannabis, Marianna Laíze, que explicou durante a entrevista como os canabinoides podem atuar em diferentes circuitos do organismo e ser considerados dentro de determinadas estratégias terapêuticas.

Ao comentar a experiência apresentada pelo advogado, a médica afirmou que o THC pode atuar sobre circuitos relacionados a impulsos e que, em determinadas doses, apresenta potencial ansiolítico.

“Em doses baixas, a gente sabe que o THC ele é um potente ansiolítico”, afirmou Marianna. Segundo ela, os canabinoides também podem interferir na liberação de neurotransmissores relacionados a impulsividade e agressividade.

A médica citou ainda situações clínicas nas quais os canabinoides podem integrar o arsenal terapêutico, mencionando, entre outros exemplos, alguns pacientes com transtorno do espectro autista e síndrome de Tourette. Ela também abordou o potencial dos canabinoides na redução do craving, termo utilizado para descrever o desejo intenso por determinada substância.

A explicação, no entanto, não significa que a experiência de um paciente possa ser generalizada para todos os tratamentos. A própria médica ressaltou que a resposta depende de fatores individuais e que o tratamento precisa considerar dose, medicamentos utilizados simultaneamente e características de cada paciente.

Cannabis como alternativa dentro do tratamento

Para Marianna, o potencial terapêutico dos canabinoides está justamente na possibilidade de sua utilização dentro de estratégias individualizadas de tratamento.

“A cannabis é um medicamento bastante seguro, sim, mas que tem seus riscos, né? Que tem interações medicamentosas”, explicou.

Segundo a médica, a procedência do produto, a dose e os medicamentos utilizados pelo paciente são aspectos importantes para determinar a segurança do tratamento. Ela defende que a terapia seja acompanhada por um profissional capacitado para realizar os ajustes necessários ao longo do tempo.

“Como todos os tratamentos médicos, eu também preciso te falar que o tratamento com canabinoides deve ser um tratamento muito acompanhado, é muito artesanal”, afirmou.

Marianna também explicou que a resposta ao tratamento não é necessariamente igual para todos os pacientes. Uma experiência sem resultado com determinado produto, segundo ela, não significa que outras formulações de canabinoides terão o mesmo resultado.

“Então não ter dado certo com um tipo significa só que a gente pode tentar outro — 119 no mínimo, né?”, disse a médica, referindo-se ao número de canabinoides que mencionou durante a entrevista.

Ao mesmo tempo, ela reforçou que a cannabis não deve ser apresentada como uma solução para todas as condições de saúde.

“Cannabis não é uma panaceia”, afirmou. Para a especialista, o tratamento deve ser integrado a outras estratégias de cuidado e considerar também aspectos relacionados ao estilo de vida.

 

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A história foi compartilhada em entrevista ao Sechat News

 

O uso vaporizado e a redução de danos

Outro aspecto da história de Fusco é o uso de flores de cannabis por meio de vaporizador de ervas secas. Durante a entrevista, Marianna explicou a diferença entre vaporização e combustão e destacou o potencial da temperatura controlada para reduzir danos relacionados à forma de administração.

Segundo a médica, o uso vaporizado pode ser considerado em situações específicas, especialmente como uma via de resgate para determinados sintomas de início rápido. Ela ressaltou, porém, que essa não é uma via indicada de maneira ampla para todos os pacientes.

“Eu tenho pouquíssimos pacientes hoje que são indicados a essa terapia com o uso inalado, né, o uso vaporizado da flor”, afirmou.

Na avaliação da especialista, a via oral continua sendo a mais estudada e pode ser utilizada para manter maior estabilidade clínica por períodos mais longos. O uso inalado, por sua vez, pode ter aplicação excepcional em situações específicas, conforme avaliação profissional.

Acompanhamento médico faz parte da experiência

A história de Fusco também levou à discussão sobre a importância do acompanhamento médico durante o tratamento. Ele próprio afirmou que percebe diferenças na resposta conforme a dose utilizada e defendeu que o paciente tenha orientação de um profissional qualificado.

“Quando você tem um médico — por isso que eu sou defensor de que todo acompanhamento se dê com o médico —, quando você tem um profissional que é qualificado, formado para isso, você se sente seguro, porque hoje uma dose pequena consegue me manter estável”, afirmou.

Marianna destacou que o tratamento com canabinoides pode exigir ajustes ao longo do tempo, tanto para controlar efeitos adversos quanto para buscar os efeitos terapêuticos desejados.

“Então o colega que se propõe a fazer tem que ter essa paciência, né, de ir trabalhando, fazendo os ajustes com o paciente”, disse.

A médica comparou esse processo a uma espécie de ajuste individual, em que paciente e profissional observam a resposta ao tratamento e definem os próximos passos.

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Imagem: Arquivo Pessoal

Cannabis e mudança de estilo de vida

No fim da entrevista, Fusco e Marianna também falaram sobre a importância de mudanças no estilo de vida para acompanhar qualquer estratégia terapêutica.

A médica afirmou que a cannabis não deve ser vista como substituta de todas as outras formas de cuidado e relacionou o tratamento a medidas como atividade física, respiração, meditação, bem-estar e outras práticas que podem contribuir para a qualidade de vida.

“Então, novamente, você super ressaltou bem isso: o que o Jaime está fazendo é uma manutenção do tratamento”, afirmou Marianna.

Para Fusco, a experiência com a cannabis também mudou sua forma de enxergar a própria relação com a saúde e com a planta. Ele afirmou que passou a se reconhecer como paciente e não apenas pela associação cultural que historicamente acompanhou o termo “maconheiro”.

“Eu sou paciente, entendeu? Sou paciente, como outras pessoas são pacientes. E acho que até o fato de eu estar abrindo assim, trazendo publicamente para vocês isso, é porque o efeito realmente foi mais positivo do que negativo na minha vida”, afirmou.

A história de Fusco, portanto, é apresentada no Sechat News como um relato individual sobre a experiência com cannabis, enquanto a participação da neuropsiquiatra Marianna Laíze acrescenta a perspectiva médica sobre o potencial terapêutico dos canabinoides, suas possibilidades de utilização e os cuidados necessários para que o tratamento seja conduzido de forma individualizada.