A Nova Arquitetura da Cannabis Medicinal no Brasil: como as RDCs da Anvisa estão redesenhando o setor
Da abertura regulatória à seleção técnica: o setor canábico brasileiro inicia um novo ciclo marcado por verticalização, rastreabilidade e maior maturidade em Life Sciences
Publicada em 20/02/2026

Imagem ilustrativa do processo técnico de separação da cannabis destinado à produção de medicamentos em conformidade com padrões regulatórios e boas práticas de fabricação.
O mercado brasileiro de cannabis medicinal atravessa, em 2026, uma inflexão estrutural que altera profundamente sua lógica de funcionamento. A consolidação das novas resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não apenas amplia exigências técnicas, mas redefine o perfil das empresas aptas a competir. Se nos primeiros anos a pauta central era o acesso — judicial, administrativo ou excepcional —, agora o eixo é outro: execução regulatória com viabilidade econômica.
A análise de Camila Nocetti, CEO da ConectaCann, indica que o setor ingressou na fase mais sofisticada de sua história recente. “O principal gargalo do setor é a viabilização prática de negócios em ambientes regulatórios complexos”, observou. A avaliação sintetiza o momento atual: não basta compreender a norma; é preciso convertê-la em operação estruturada, auditável e sustentável.
Ela reforça que o mercado atravessa uma mudança de mentalidade. “Estamos saindo da fase de oportunidade regulatória para a fase de engenharia regulatória”, pontuou, ao caracterizar um ambiente que exige planejamento técnico de longo prazo.
Conectar oportunidade e conformidade

Camila descreve sua atuação como arquitetura estratégica de negócios em mercados regulados. “Nosso diferencial está em integrar conexão comercial, inteligência estratégica e execução técnico-regulatória. Não apenas abrimos oportunidades, garantimos que elas possam ser implementadas com segurança e sustentabilidade”, destacou.
Segundo ela, qualquer movimento estratégico precisa nascer alinhado à conformidade sanitária. “Hoje, crescimento e compliance caminham juntos”, ressaltou.
A executiva ampliou o escopo ao mencionar que a atuação não se limita à cannabis medicinal. Inclui suplementos inovadores, medicamentos para doenças raras e terapias emergentes como psicodélicos, ibogaína e cetamina. “São segmentos de alta complexidade regulatória que convivem com ausência de harmonização sanitária global”, explicou.
Ela argumenta que essa fragmentação internacional impõe desafios adicionais. “Quando não há padronização, a estratégia precisa antecipar riscos regulatórios”, alertou.
Para reduzir incertezas, a inteligência de dados tornou-se eixo estruturante. “Nossa base proprietária é alimentada por interações contínuas com o mercado nacional e internacional, empresas especializadas em dados e hubs globais de inovação”, detalhou.
Transformar norma em modelo de negócio
Camila enfatiza que a consolidação das novas RDCs inaugura uma travessia decisiva. “Atuamos como ponte entre a complexidade regulatória e a viabilidade econômica”, explicou.
Ela esclarece que os Estudos de Viabilidade Técnico-Estratégicos são instrumentos centrais nesse processo. “Definimos com precisão o que cada player pode fazer, quais caminhos regulatórios são possíveis, os custos, prazos e riscos envolvidos”, descreveu.
Mas faz questão de diferenciar diagnóstico de implementação. “Não entregamos apenas parecer regulatório. Estruturamos a implementação end-to-end, conectando parceiros qualificados e garantindo conformidade operacional”, frisou.
Na avaliação da executiva, subestimar a fase de execução é erro recorrente. “Planejamento sem estrutura técnica adequada gera risco jurídico e sanitário”, advertiu.
Verticalização e inovação: além da antiga 327
A nova regulamentação acelera a transição das empresas que operavam sob a antiga 327. “Estamos apoiando essa migração para o novo modelo de autorização sanitária”, relatou.
Ela explicou que a mudança envolve redesenho de portfólio, atualização de dossiês e incorporação de novas vias de administração — como inalatória, dermatológica e sublingual. “A inovação deixou de ser diferencial; tornou-se requisito competitivo”, avaliou.
Camila mencionou ainda a articulação internacional como peça-chave. “Buscamos fabricantes GMP por meio de nossa rede global para estruturar cadeias compatíveis com padrões internacionais”, acrescentou.
Há também perspectiva de expansão externa. “Existe potencial de reaproveitamento de estudos e dossiês para entrada em novos mercados, desde que a arquitetura regulatória esteja adequada”, observou.
Soberania produtiva e cultivo nacional
Sobre a regulamentação do cultivo nacional, Camila destacou que o movimento exige rigor técnico. “Apoiamos projetos desde o estudo de viabilidade até a obtenção de licença especial”, afirmou.
Ela esclareceu que o processo inclui gap analysis, auditorias e planejamento de rastreabilidade. “Não se trata apenas de plantar; trata-se de estruturar operação industrial com compliance global”, reforçou.
Segundo sua leitura, o cultivo só faz sentido quando integrado à estratégia industrial. “Sem planejamento de downstream, o projeto perde sustentabilidade econômica”, ponderou.
O desafio do “oceano vermelho”
Ao analisar a dinâmica da RDC 660, Camila foi categórica. “Trata-se de um oceano vermelho”, classificou.
Ela reconhece que essas empresas possuem demanda médica consolidada, mas enfrentam margens comprimidas. “O desafio é transformar essa base em estratégia de maior valor agregado”, argumentou.
Entre as alternativas, ela mencionou diversificação de portfólio e entrada em suplementos inovadores. “É possível estruturar modelos híbridos com menor exposição regulatória”, sugeriu.
Para a executiva, a sobrevivência dependerá de adaptação estratégica com rigor técnico. “O sucesso estará na capacidade de transitar entre normas sem comprometer a conformidade”, avaliou.
Associações, pesquisa e varejo sob novo rigor
A reorganização normativa impacta toda a cadeia. “Estamos guiando associações na profissionalização para o Sandbox Regulatório e no cumprimento rigoroso de compliance de segurança para pesquisa científica”, relatou.
Ela também citou farmácias de manipulação que buscam Autorização Especial, importadores que revisam processos de fracionamento e clínicas que adequam seus alvarás sanitários.
“O momento regulatório que para muitos representa incerteza pode ser transformado em oportunidade estruturada”, observou.
Em sua análise, a profissionalização deixou de ser opcional. “O setor não comporta mais improvisação”, enfatizou.
Life Sciences e ambição global
Camila sustenta que a cannabis brasileira atingiu novo estágio. “A cannabis no Brasil já opera sob lógica de Life Sciences”, afirmou.
Ela esclareceu que isso implica previsibilidade financeira, rastreabilidade integral e aderência rigorosa às Boas Práticas de Fabricação. “A barra de entrada e permanência foi significativamente elevada”, destacou.
Ao projetar o futuro, demonstrou ambição. “O Brasil tem potencial para se tornar referência global em IFA e produtos de cannabis de grau farmacêutico”, avaliou.
Mas fez ressalva estratégica. “Os desafios são proporcionais à oportunidade”, ponderou.
Na sua visão, o próximo gargalo não será legislativo, mas técnico. “A escassez de execução qualificada pode limitar o crescimento”, alertou.
E concluiu com uma síntese que resume a transição do setor: “Os próximos anos pertencerão aos players que tratarem a regulação não como entrave, mas como vantagem competitiva.”

O papel da Cannabis Fair na consolidação
Nesse contexto, a Cannabis Fair, que acontece de 21 a 23 de maio no Transamérica Expo Center em São Paulo, assume papel estratégico. “A feira funciona como catalisador de maturidade”, avaliou Camila.
Ela apontou três dimensões centrais do evento: integração entre técnico, comercial e regulatório; consolidação de redes de confiança; e elevação do debate B2B sob novo rigor normativo.
“É o ambiente ideal para validar stakeholders e formar alianças sustentáveis”, concluiu.
Para a executiva, o Brasil entrou definitivamente na era da engenharia de execução. A promessa regulatória ficou para trás. O diferencial competitivo, agora, é a capacidade de transformar norma em estrutura, estratégia em operação e visão em sustentabilidade.