Óleo de cannabis para cães ajuda a controlar coceira e permite reduzir dose de oclacitinib, aponta estudo brasileiro
Estudo brasileiro avalia cannabis para cães com dermatite atópica e observa controle da coceira mesmo após reduzir em 50% a dose de oclacitinib. Leia mais:

Cannabis para cães: estudo brasileiro avalia uso de CBD
- Pesquisa brasileira avalia cannabis para cães com dermatite atópica e observa redução da coceira durante o uso de óleo rico em CBD, mesmo após reduzir a dose de oclacitinib. Os autores destacam a necessidade de novos estudos.
Um estudo clínico conduzido por pesquisadores brasileiros investigou o uso de cannabis para cães com dermatite atópica e identificou redução do prurido (coceira) durante o tratamento adjuvante com óleo de Cannabis sativa de espectro completo, rico em canabidiol (CBD). A pesquisa também observou a manutenção do controle da coceira após a redução de 50% da dose de oclacitinib (Apoquel), medicamento utilizado no tratamento da doença. O trabalho foi publicado em 14 de outubro de 2026 na revista Frontiers in Allergy.
A dermatite atópica canina é uma doença inflamatória crônica, multifatorial e com componente genético, que causa coceira intensa, lesões de pele e prejudica a qualidade de vida dos animais. O tratamento é multimodal e pode exigir acompanhamento contínuo. O oclacitinib, um inibidor de Janus quinase (JAK), é amplamente utilizado, mas alguns cães não apresentam controle satisfatório dos sintomas. Nesse cenário, a modulação do sistema endocanabinoide da pele surge como uma estratégia que vem sendo investigada.
Como o estudo foi feito (cannabis para cães)
A pesquisa, liderada por Carollina Mariga e equipe da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com participação de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), acompanhou 16 cães diagnosticados com dermatite atópica que apresentavam coceira persistente apesar do uso de oclacitinib. Quatorze animais completaram todas as etapas do protocolo.

O estudo adotou um desenho prospectivo de medidas repetidas, no qual cada cão serviu como seu próprio controle. Os animais passaram por quatro etapas:
- T0: tratamento apenas com oclacitinib, em dose individualizada;
- T30: oclacitinib associado a placebo, composto por óleo mineral;
- T60: oclacitinib em dose plena associado a óleo de cannabis, com administração de 2 mg/kg de CBD duas vezes ao dia;
- T90: manutenção do óleo de cannabis com redução de 50% da dose de oclacitinib.
O óleo utilizado era de espectro completo, rico em CBD, com concentração informada de 500 mg em 30 mL. O produto foi doado pela Hippie Hounds Treats e utilizado sob autorizações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para pesquisa.
Tanto o dermatologista veterinário responsável pelas avaliações quanto os tutores desconheciam se o frasco administrado continha placebo ou óleo de cannabis, procedimento utilizado para reduzir possíveis vieses nas avaliações.
Principais resultados
Não houve diferença estatisticamente significativa nos escores de lesões cutâneas, avaliados pelo índice CADESI-4, entre as etapas do estudo. Já o prurido, avaliado pelos tutores em uma escala de 0 a 5, apresentou redução estatisticamente significativa entre o início do estudo (T0) e as fases de tratamento com cannabis (T60 e T90).
A comparação principal planejada entre a fase de placebo (T30) e a introdução do óleo de cannabis (T60), entretanto, não alcançou significância estatística. Também não foi observada piora estatisticamente significativa da coceira entre T60 e T90, mesmo após a redução de 50% da dose de oclacitinib.
Os efeitos adversos relatados incluíram sonolência, fezes amolecidas, vômito e, em um caso, agitação. Segundo os pesquisadores, os episódios foram leves, transitórios e autolimitados. Sinais clínicos também foram registrados durante a fase de placebo, o que reforça a necessidade de cautela na atribuição dos efeitos exclusivamente ao canabinoide.
Após a interrupção do óleo de cannabis, mantendo-se a dose reduzida de oclacitinib, nove dos 14 cães que concluíram o protocolo voltaram a apresentar coceira em até sete dias. Os outros cinco permaneceram sem prurido nesse período. Além disso, nove tutores, equivalentes a 56,25% do total de 16 participantes inicialmente incluídos, optaram por continuar o tratamento com cannabis após o término da pesquisa.
O que isso significa na prática
Os autores concluem que o uso adjuvante do óleo de cannabis foi associado à redução do prurido em comparação com o início do estudo e que o controle da coceira foi mantido durante o período em que a dose de oclacitinib foi reduzida pela metade. Os resultados apoiam a investigação dos canabinoides como parte de uma estratégia multimodal para o manejo da dermatite atópica canina, especialmente em animais que não apresentam controle satisfatório com o tratamento convencional.
Ainda assim, o estudo apresenta limitações importantes: amostra pequena, sequência fixa de tratamentos e ausência de diferença estatisticamente significativa entre placebo e cannabis na comparação principal do prurido. Como todos os cães passaram pelas mesmas etapas na mesma ordem, não é possível separar com segurança os efeitos do tratamento de possíveis variações naturais da doença ao longo do tempo.
Os pesquisadores destacam a necessidade de novos ensaios clínicos controlados sobre cannabis para cães, com maior número de animais e desenhos metodológicos mais robustos, para confirmar os resultados e esclarecer o possível efeito poupador de oclacitinib, além de estabelecer doses, formulações e protocolos mais adequados.
Para a medicina veterinária brasileira, o trabalho acrescenta dados clínicos à pesquisa sobre cannabis para cães. Embora os resultados sejam promissores, eles não estabelecem, por si só, um protocolo de tratamento nem justificam a redução da medicação sem supervisão veterinária.
Referências
- 1.MARIGA, C.; SILVA, F. C.; SCHIEFLER, O. H. M.; AMAZONAS, E.; MATEUS, A. L. S. S.; SCHMIDT, C.; PINTO FILHO, S. T. L. Clinical observations during adjunctive Cannabis treatment and subsequent oclacitinib dose reduction in dogs with atopic dermatitis. Frontiers in Allergy, v. 7, 2026. DOI: 10.3389/falgy.2026.1852631. [acessar]
