CBD e CBDA ampliam repouso de cães em abrigo, diz estudo
Veja ensaio piloto (CBD e CBDA ) que identificou mudanças objetivas de atividade após quatro semanas, mas amostra pequena.

No Dia do Médico-Veterinário, celebrado nesta quarta-feira (9), uma pesquisa chama atenção para o papel desses profissionais na avaliação científica e segura de novas possibilidades terapêuticas. Um ensaio piloto realizado na França sugere que um extrato de cânhamo rico em canabidiol (CBD) e ácido canabidiólico (CBDA) - (CBD e CBDA) - pode modificar os padrões de repouso e atividade de cães que vivem em abrigos.
O estudo, intitulado Effects of CBD and CBDA rich hemp extract supplementation on stress-related behaviours and activity levels in shelter-housed dogs: a double-blind, placebo-controlled pilot study, está disponível na plataforma SSRN.
O trabalho é um preprint e ainda não passou por revisão por pares. Portanto, seus resultados devem ser interpretados como evidência preliminar, sem equivaler a uma recomendação terapêutica ou a um protocolo de prescrição.
Ensaio avaliou cães com histórico de ansiedade
Conduzida por Audrey Besegher e colaboradores, a pesquisa reuniu cientistas da Université Paris Nanterre, da associação Agir pour la Vie Animale, da Université Sorbonne Paris Nord, da UniLaSalle e da Cornell University.
Foram avaliados 17 cães mantidos em um abrigo na Normandia, na França, com histórico de comportamentos reativos ou relacionados à ansiedade. Os animais foram distribuídos aleatoriamente entre dois grupos:
- sete cães receberam extrato de cânhamo rico em CBD e CBDA;
- dez cães receberam placebo.
A intervenção durou quatro semanas. A dose final administrada no grupo experimental foi de 6 ± 1,4 mg/kg de peso corporal por dia.
Esse valor descreve exclusivamente o regime investigado no ensaio. Não deve ser interpretado como dose clínica estabelecida, especialmente porque a farmacocinética dos canabinoides varia conforme formulação, proporção entre os compostos, veículo, alimentação, condição clínica e características individuais do animal.
Comportamento e atividade foram medidos separadamente
Os pesquisadores utilizaram dois métodos de avaliação. Os comportamentos relacionados ao estresse foram registrados em vídeo antes do início da intervenção e após quatro semanas.
Além disso, nove cães — quatro do grupo CBD/CBDA e cinco do placebo — utilizaram coleiras com acelerômetros. Os dispositivos monitoraram continuamente, durante 48 horas em cada etapa, quatro níveis de atividade: repouso, atividade baixa, moderada e alta.
A separação entre medidas comportamentais e dados de acelerometria é relevante. Enquanto a avaliação em vídeo depende da frequência e da classificação de comportamentos observáveis, o acelerômetro produz uma medida quantitativa do movimento corporal ao longo do dia.
Vídeos não mostraram efeito estatisticamente significativo
A análise das gravações não identificou efeito estatisticamente significativo do produto sobre os comportamentos avaliados.
Foram observadas tendências descritivas no grupo que recebeu CBD e CBDA, incluindo aumento do repouso, redução da locomoção e menor número de transições posturais. Entre três cães tratados que apresentavam locomoção repetitiva no início do estudo, dois deixaram de manifestar esse comportamento após a intervenção. No grupo placebo, nenhum dos cinco animais com locomoção repetitiva apresentou mudança semelhante.
Essas observações, contudo, não alcançaram significância estatística. Por isso, não permitem afirmar que o extrato reduziu estereotipias ou outros sinais comportamentais de estresse.
Acelerômetros identificaram mudanças de atividade
Os resultados mais consistentes foram obtidos pelos acelerômetros. Segundo os pesquisadores, houve interação significativa entre grupo e período nos quatro níveis de atividade monitorados.
No grupo CBD/CBDA, a mediana do tempo de repouso passou de 46,2 para 52,8 minutos por hora. No mesmo período:
- a atividade baixa caiu de 5,53 para 3,30 minutos por hora;
- a atividade moderada diminuiu de 6,14 para 3,71 minutos;
- a atividade alta passou de 0,30 para 0,12 minuto por hora.
O grupo placebo permaneceu relativamente estável. As diferenças foram mais evidentes entre aproximadamente 17h e 6h, intervalo em que havia menos estímulos ambientais no abrigo.
Os autores levantam a hipótese de que os cães tratados teriam apresentado menor vigilância e reatividade durante a noite, conseguindo repousar por mais tempo. Essa interpretação ainda precisa ser confirmada.
Acelerômetros medem movimento, mas não determinam isoladamente se a redução da atividade representa menor ansiedade, melhora do sono, tranquilização ou sedação. Para diferenciar esses fenômenos, futuros ensaios deverão combinar dados de atividade com escalas comportamentais validadas, avaliações clínicas, parâmetros fisiológicos e dosagens plasmáticas dos canabinoides.
Dose inicial foi reduzida após possíveis efeitos adversos
A administração começou com uma dose próxima de 10 mg/kg por dia. Segundo as informações divulgadas sobre o estudo, o valor foi reduzido após o aparecimento de possíveis efeitos adversos.
Um cão apresentou hipersalivação, redução incomum da atividade e possível edema genital, sendo retirado do estudo. Os demais animais aparentemente toleraram a dose reduzida.
Esse episódio reforça que a redução de atividade não pode ser automaticamente classificada como efeito ansiolítico. Na prática clínica, sonolência, hipersalivação, alterações gastrointestinais, mudanças neurológicas e variações de enzimas hepáticas estão entre os parâmetros que podem exigir acompanhamento, conforme a formulação e a exposição.
Também não é adequado extrapolar a dose estudada para outros produtos. Extratos com CBD e CBDA não são farmacologicamente equivalentes a CBD isolado ou a formulações com diferentes concentrações de THC, THCA e outros componentes.
O que o estudo acrescenta à prática veterinária?
O principal mérito metodológico do trabalho está na utilização de placebo, cegamento e monitoramento objetivo da atividade em uma população submetida a estressores ambientais contínuos.
Os resultados oferecem um sinal preliminar de que o extrato pode interferir nos padrões de repouso e atividade. Entretanto, ainda não demonstram eficácia clínica para ansiedade canina.
Entre as principais limitações estão:
- amostra de apenas 17 cães;
- acelerometria realizada em somente nove animais;
- elevada variabilidade individual;
- ausência de confirmação farmacocinética;
- falta de efeito significativo nas avaliações por vídeo;
- dificuldade de diferenciar tranquilização de sedação;
- período de acompanhamento de apenas quatro semanas;
- condição específica de cães mantidos em abrigo;
- ausência de revisão por pares até o momento.
Portanto, os dados não justificam o uso indiscriminado do produto nem estabelecem uma dose para cães com ansiedade. A decisão terapêutica continua dependendo de diagnóstico comportamental, avaliação clínica, histórico farmacológico, composição comprovada do produto e acompanhamento do médico-veterinário.
No Brasil, a Anvisa reconhece a possibilidade de prescrição veterinária de medicamentos e produtos de cannabis dentro das regras aplicáveis aos produtos controlados. A Agência ressalta que o uso deve ser estritamente terapêutico e realizado por médicos-veterinários habilitados.
A pesquisa também não substitui medidas como enriquecimento ambiental, redução de ruídos, adequação das instalações e terapia comportamental. Caso a hipótese seja confirmada por estudos maiores, CBD e CBDA poderão ser investigados como parte de uma abordagem multimodal voltada ao bem-estar de cães submetidos ao estresse crônico.
O tema já vem sendo acompanhado pelo Portal Sechat em conteúdos sobre CBD e ansiedade animal, estresse durante viagens e uso clínico veterinário do sistema endocanabinoide. #CBD e CBDA
