Saúde

Incontinência urinária: o que a cannabis pode mudar?

Nova revisão sobre incontinência urinária reúne 12 estudos e aponta possíveis benefícios dos canabinoides, sobretudo em pessoas com esclerose múltipla. Veja!

Incontinência urinária: o que a cannabis pode mudar?
Estudo revisa pesquisas sobre cannabis e possíveis efeitos sobre a incontinência urinária, especialmente em pessoas com esclerose múltipla | CanvaPro

Há sintomas que chegam de mansinho, mas podem ocupar um espaço enorme na rotina. A incontinência urinária é um deles. Uma nova revisão científica analisou o potencial de tratamentos à base de cannabis para sintomas do trato urinário inferior e encontrou sinais de benefício, principalmente entre pessoas com esclerose múltipla.

Publicado em agosto de 2026 no Canadian Urological Association Journal, o trabalho sobre incontinência urinária reuniu evidências de 12 estudos selecionados entre 998 registros inicialmente identificados pelos pesquisadores. A análise, porém, também reforça que ainda faltam ensaios clínicos maiores e mais robustos antes de qualquer conclusão sobre o uso da cannabis na prática clínica.

Cannabis e incontinência urinária: o que diz a revisão

A pesquisa foi conduzida como uma revisão de escopo, seguindo referências metodológicas como Cochrane e PRISMA. Os pesquisadores buscaram estudos envolvendo adultos com sintomas de bexiga hiperativa e outros sintomas do trato urinário inferior relacionados a condições como esclerose múltipla, hiperplasia prostática benigna e cistite.

Dos 998 registros inicialmente avaliados, 31 artigos chegaram à etapa de análise em texto completo. Ao final, 12 estudos preencheram os critérios estabelecidos.

Um dado chama atenção: nove dos 12 trabalhos foram realizados com pessoas com esclerose múltipla, enquanto apenas três eram ensaios clínicos randomizados e controlados. Isso significa que os resultados são promissores, mas ainda apresentam limitações importantes.

Os estudos avaliaram diferentes formulações contendo canabinoides, incluindo THC, CBD e combinações entre compostos.

Entre os resultados observados estavam possíveis melhorias em:

  • episódios de perda urinária;
  • frequência urinária;
  • sintomas do trato urinário inferior;
  • qualidade de vida.

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O que a esclerose múltipla tem a ver com a bexiga?

A conexão entre esclerose múltipla e sintomas urinários ajuda a explicar por que essa população aparece com tanta frequência nas pesquisas.

A doença pode afetar o sistema nervoso responsável pela comunicação entre cérebro, medula espinhal e bexiga. Como consequência, algumas pessoas podem apresentar urgência para urinar, aumento da frequência urinária ou episódios de perda involuntária de urina.

É nesse cenário que os pesquisadores investigam os canabinoides.

A revisão aponta que os resultados positivos encontrados estão concentrados principalmente nos sintomas urinários associados a condições neurológicas, especialmente a esclerose múltipla. Portanto, os dados não permitem concluir que a cannabis seja um tratamento para todos os casos de incontinência urinária.

Cannabis medicinal para idosos e outros pacientes: há evidências?

Embora pesquisas sobre cannabis medicinal para idosos e sintomas urinários possam despertar interesse, a revisão não sustenta uma indicação ampla para essa população.

O foco dos estudos analisados foi principalmente o contexto de sintomas do trato urinário inferior, com forte presença de pacientes com esclerose múltipla.

Um dos ensaios mais expressivos incluídos na revisão acompanhou 630 pessoas com esclerose múltipla. Publicado em 2006, o estudo registrou redução nos episódios de perda urinária de 38% entre participantes que receberam extrato de cannabis e de 33% entre os que receberam THC, contra 18% no grupo placebo.

Outro ensaio, publicado em 2010 e com 135 participantes, trouxe resultados mais discretos. O tratamento com nabiximols não produziu diferença estatisticamente significativa no principal desfecho, que era o número diário de episódios de perda urinária. Houve, porém, resultados favoráveis em alguns desfechos secundários, como frequência urinária.

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CBD para demência e sintomas urinários são a mesma coisa?

Não. É importante separar os diferentes campos de pesquisa envolvendo canabinoides.

A expressão CBD para demência, por exemplo, aparece em discussões e estudos relacionados a outras condições e não deve ser confundida com as evidências analisadas nesta revisão.

Neste trabalho, os pesquisadores avaliaram cannabis e seus derivados no contexto dos sintomas do trato urinário inferior. Entre os compostos investigados estavam CBD, THC e formulações combinadas.

Essa distinção é especialmente importante quando se fala em saúde. Um resultado observado em determinado grupo de pacientes não pode automaticamente ser transferido para outras doenças, faixas etárias ou sintomas.

Efeitos adversos também foram observados

A revisão não analisou apenas possíveis benefícios.

Os pesquisadores relataram efeitos adversos leves, principalmente tontura e boca seca. Esses eventos apareceram em uma faixa de 2% a 18% dos participantes dos estudos avaliados e, em alguns casos, levaram à interrupção do tratamento.

Esse ponto reforça a necessidade de acompanhamento profissional quando tratamentos à base de canabinoides são considerados.

Além disso, diferentes estudos utilizaram produtos, doses, formulações e métodos distintos. Essa variedade dificulta a comparação direta entre os resultados.