Política Internacional

Legalização da cannabis nos EUA movimenta empregos no campo

Estudo revela como a legalização da cannabis pode impulsionar empregos na agricultura e transformar o mercado de trabalho nos Estados Unidos.

Legalização da cannabis nos EUA movimenta empregos no campo
Legalização da cannabis está associada ao aumento do emprego agrícola em estados norte-americanos que adotaram mercados recreativos, segundo estudo | CanvaPro

A legalização da cannabis está deixando marcas que vão além das discussões sobre saúde, regulação e consumo. Um estudo publicado no Journal of Population Economics encontrou associação entre a adoção de leis que permitem o uso recreativo e o aumento do emprego agrícola nos Estados Unidos.

O resultado ajuda a iluminar uma transformação que acontece, muitas vezes, longe dos holofotes: quando uma atividade antes proibida passa a integrar uma cadeia produtiva regulamentada, novas portas podem se abrir, do cultivo ao comércio, passando por transporte, processamento e serviços.

Neste artigo você vai ver:

  • O que o novo estudo descobriu sobre empregos;
  • Como a legalização influencia o setor agrícola;
  • O que aconteceu nos estados norte-americanos analisados;
  • Por que os resultados não significam apenas empregos diretamente ligados à cannabis;
  • O que pesquisas anteriores já haviam encontrado sobre mercado de trabalho;
  • Quais são os limites e os próximos caminhos para esse tipo de pesquisa.

O que o estudo descobriu sobre a legalização da cannabis?

O trabalho analisou os efeitos das leis de legalização do uso recreativo sobre emprego e salários nos Estados Unidos. O artigo foi publicado em 2025, no volume 38 do Journal of Population Economics.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores utilizaram dados nacionais e diferentes estratégias econométricas. A análise principal considerou informações da Current Population Survey entre 2002 e 2020, além de outras bases relacionadas a consumo, saúde e mercado de trabalho.

A conclusão mais interessante para o setor agrícola apareceu justamente no emprego.

Segundo os autores, a adoção das leis de uso recreativo esteve associada a um aumento do emprego agrícola, resultado compatível com a abertura de um novo mercado legal.

O estudo também encontrou pouca evidência de que a legalização tenha provocado efeitos negativos relevantes sobre os resultados do mercado de trabalho para a maioria dos adultos em idade ativa.

É uma descoberta que merece atenção porque muda o foco da conversa. Em vez de olhar somente para o consumo, a pesquisa observa também o que acontece quando uma nova cadeia econômica começa a existir formalmente.

Um novo mercado também cria demanda por trabalhadores

A lógica é relativamente simples.

Com a abertura de mercados regulamentados, surgem empresas, propriedades produtivas e atividades econômicas que precisam de mão de obra. No caso da agricultura, isso pode envolver diferentes etapas:

  • preparação e manejo das plantações;
  • cultivo e colheita;
  • processamento;
  • armazenamento;
  • transporte;
  • gestão das propriedades;
  • atividades administrativas e comerciais.

A legalização da cannabis, portanto, pode produzir efeitos que ultrapassam o número de trabalhadores diretamente empregados por empresas do setor.

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O próprio estudo destaca que a criação de um mercado legal pode aumentar a demanda por trabalhadores agrícolas. Os pesquisadores interpretam o crescimento observado como compatível com a abertura de um novo mercado lícito.

Legalização da cannabis e empregos na agricultura

Um dos diferenciais da pesquisa está justamente em não limitar a análise aos empregos diretamente relacionados à indústria.

Os autores investigaram resultados do mercado de trabalho entre diferentes grupos e setores, buscando entender se a mudança regulatória poderia provocar alterações mais amplas na economia.

No caso da agricultura, os resultados chamaram atenção porque indicaram crescimento do emprego após a adoção das leis de uso recreativo.

Esse achado conversa com pesquisas anteriores, embora os estudos não sejam unânimes em relação à intensidade ou à natureza desse impacto.

Um outro trabalho, publicado em 2022 no Journal of Cannabis Research, por exemplo, analisou Colorado e Washington, dois dos primeiros estados norte-americanos a legalizar o uso recreativo, e encontrou aumento no número de estabelecimentos e trabalhadores em categorias agrícolas relacionadas à produção de cannabis.

Em Washington, os pesquisadores observaram um crescimento de aproximadamente 500 estabelecimentos na categoria de produção de estufas, viveiros e floricultura entre a legalização e o pico registrado em 2015. A categoria utilizada na análise incluía empresas produtoras de cannabis.

O estudo, porém, trouxe uma ressalva importante: o aumento do número de trabalhadores não veio acompanhado de evidências robustas de crescimento dos salários semanais por trabalhador.

Ou seja, mais empregos não significam necessariamente salários maiores.

Essa diferença é fundamental para compreender o cenário com cuidado.

O mercado de trabalho muda com a regulamentação?

A resposta parece ser mais complexa do que um simples “sim” ou “não”.

Quando uma nova atividade econômica passa a operar legalmente, ela pode atrair investimentos, trabalhadores e empresas. Ao mesmo tempo, pode disputar mão de obra com setores que já existiam.

Foi justamente essa preocupação que motivou parte das pesquisas anteriores.

Jiang e Miller, autores do estudo publicado no Journal of Cannabis Research, investigaram se a abertura de mercados recreativos poderia pressionar os salários de trabalhadores agrícolas e do varejo. A análise concentrou-se em Colorado e Washington entre 2000 e 2019.

Os pesquisadores encontraram pouca evidência de mudanças significativas nos salários semanais por trabalhador. A conclusão foi que a abertura dos mercados de cannabis não parecia prejudicar os setores agrícolas e varejistas já estabelecidos por meio do mercado de trabalho.

Já a pesquisa de Dave, Liang, Muratori e Sabia amplia essa discussão ao utilizar dados nacionais e avaliar diferentes grupos da população.

A principal mensagem, portanto, não é que a legalização da cannabis automaticamente crie empregos em qualquer lugar ou em qualquer circunstância. O que os dados sugerem é que a abertura de um mercado legal pode estar associada a novas oportunidades de trabalho, especialmente em atividades agrícolas relacionadas à expansão dessa cadeia produtiva.

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Nem todo emprego está diretamente ligado à cannabis

Existe ainda um ponto importante para quem acompanha a transformação econômica provocada pela regulamentação.

Uma cadeia produtiva não termina na propriedade rural.

O crescimento de um setor pode gerar demanda indireta em áreas como logística, tecnologia, serviços administrativos, equipamentos, construção, comércio e transporte.

Um estudo publicado na Applied Economics em 2025 estimou que aproximadamente 68 mil empregos relacionados à cannabis haviam surgido na Califórnia, Colorado, Oregon e Washington até 2020. Os pesquisadores também estimaram uma folha anual de pagamentos próxima de US$ 6 bilhões nesses quatro estados.

Esses números ajudam a dimensionar o tamanho que uma indústria emergente pode alcançar quando passa a funcionar dentro de uma estrutura regulatória.

Ainda assim, é importante diferenciar empregos diretamente relacionados à produção e venda de cannabis daqueles que surgem como consequência indireta da atividade econômica.

Legalização da cannabis não significa os mesmos resultados em todos os estados

Outro cuidado necessário é evitar generalizações.

Os Estados Unidos possuem modelos regulatórios diferentes. As regras sobre cultivo, comercialização, licenciamento, tributação e participação de pequenos produtores variam de estado para estado.

Na Califórnia, por exemplo, pesquisas apontam que custos de conformidade e barreiras administrativas podem dificultar a entrada de pequenos agricultores no mercado regulado. Um estudo publicado no Journal of Rural Studies identificou justamente os custos de conformidade e os encargos administrativos como obstáculos relevantes para produtores.

Isso significa que a legalização da cannabis pode criar oportunidades econômicas, mas a maneira como essas oportunidades são distribuídas depende das regras estabelecidas.

Uma regulamentação muito complexa pode favorecer empresas maiores. Já políticas desenhadas para reduzir barreiras podem ampliar a participação de pequenos produtores.

O desenho da política pública, portanto, importa tanto quanto a decisão de legalizar.

O que o estudo significa para o futuro?

Os resultados não encerram a discussão. Pelo contrário: abrem novas perguntas.

Entre elas está a necessidade de compreender como diferentes modelos regulatórios influenciam a criação de empregos, os salários e a distribuição dos benefícios econômicos.

Também será importante acompanhar períodos mais longos. As pesquisas disponíveis analisam principalmente os primeiros anos de formação dos mercados legais, quando empresas, trabalhadores e consumidores ainda estão se adaptando às novas regras.

O cenário também pode mudar conforme os mercados amadurecem.

A experiência norte-americana mostra que a legalização da cannabis não é apenas uma mudança jurídica. Ela pode reorganizar cadeias produtivas, alterar a demanda por mão de obra e transformar regiões que passam a receber novas atividades econômicas.

Ao mesmo tempo, os resultados científicos recomendam cautela: crescimento do emprego não significa automaticamente melhoria salarial, desenvolvimento regional equilibrado ou distribuição igualitária dos ganhos.

No campo, onde cada safra carrega o trabalho de muitas mãos, essa transformação ganha um significado especial. A planta que durante décadas esteve associada à clandestinidade passa, em determinados lugares, a ocupar uma linha formal da economia — com regras, trabalhadores, empresas e novas perguntas sobre o futuro.

E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais interessante da história: observar como uma mudança na lei pode, aos poucos, mudar também aquilo que acontece no chão da agricultura.