Morfina e cannabis: estudo aponta redução de quase 50%
Uma formulação com THC, CBD e terpenos reduziu o uso de morfina em 24 horas, sem aumentar a dor. Entenda o que a pesquisa revelou

Morfina: cannabis reduz consumo em quase metade em estudo
- Morfina e cannabis medicinal: estudo clínico em Israel encontrou redução no consumo de opioides com uma formulação de THC, CBD e terpenos. Saiba mais.
A dor nem sempre aparece apenas no corpo: ela também atravessa a rotina, o sono e a qualidade de vida. Um ensaio clínico realizado em Israel trouxe novos dados para a investigação sobre cannabis medicinal e analgesia. Em pacientes com dor radicular aguda, uma formulação com tetraidrocanabinol (THC), canabidiol (CBD) e terpenos foi associada a uma redução de quase metade no consumo de morfina durante 24 horas.
O estudo foi publicado na revista científica Journal of Cannabis Research e investigou se uma combinação específica de compostos da cannabis poderia diminuir a necessidade de opioides sem comprometer o controle da dor.
Perguntas frequentes
1. A cannabis medicinal pode substituir a morfina?
Não há evidências suficientes para afirmar que a cannabis medicinal substitui a morfina. Estudos investigam se determinadas formulações podem ajudar a reduzir o consumo de opioides em situações específicas, sempre com acompanhamento médico.
2. A cannabis medicinal ajuda a aliviar a dor?
Pesquisas investigam o potencial dos canabinoides no controle de diferentes tipos de dor. Os resultados variam conforme a condição clínica, a formulação utilizada e o paciente, e ainda são necessárias mais evidências para algumas aplicações.
3. A cannabis medicinal pode reduzir o uso de morfina?
Um estudo clínico realizado em Israel observou uma redução de quase 50% no consumo de morfina em 24 horas entre pacientes que receberam uma formulação específica com THC, CBD e terpenos, em comparação com o placebo. Os resultados são preliminares e não devem ser generalizados para todos os produtos à base de cannabis.
Morfina: o que o estudo clínico revelou?
De acordo com a publicação do portal Cañamo, a pesquisa incluiu 69 pacientes atendidos no Hadassah Hebrew University Medical Center, em Jerusalém, com dor radicular aguda, causada pela irritação ou compressão de uma raiz nervosa.
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente entre três grupos: dose alta da formulação de cannabis, dose baixa ou placebo. Todos tinham acesso à morfina intravenosa por meio de uma bomba controlada pelo próprio paciente.
Os resultados mostraram diferenças importantes no consumo do opioide:
- Dose alta: média de 17,4 miligramas de morfina em 24 horas.
- Placebo: média de 33,2 miligramas no mesmo período.
- Dose baixa: não apresentou a mesma redução observada com a dose alta.
A diferença entre o grupo de dose alta e o placebo foi estatisticamente significativa. Na prática, os participantes que receberam a formulação com maior concentração utilizaram menos morfina durante o período analisado.
Cannabis medicinal, THC e CBD: como a formulação foi testada?
A formulação foi administrada por via sublingual e combinou três componentes: THC, CBD e terpenos.
O grupo de dose alta recebeu 19,8 miligramas de THC, 19,8 miligramas de CBD e 3 miligramas de terpenos. Já a dose baixa continha 9,9 miligramas de THC e a mesma quantidade de CBD, segundo os dados divulgados sobre o ensaio.
O objetivo era investigar um possível efeito poupador de opioides, isto é, a possibilidade de reduzir o consumo de morfina sem aumentar a intensidade da dor.
E foi justamente esse ponto que chamou a atenção: apesar da diferença no uso do medicamento, as pontuações médias de dor permaneceram semelhantes entre os grupos. Na escala utilizada, os valores foram de 5,1 no placebo, 5,5 na dose baixa e 5,4 na dose alta.
Menos morfina significa menos dor?
Não necessariamente. O estudo observou uma redução no consumo de morfina, mas não identificou uma melhora significativa da intensidade da dor entre os grupos.
Esse resultado sugere que a formulação pode ter ajudado os participantes a utilizar menos opioide sem piora perceptível da dor durante as 24 horas de acompanhamento. No entanto, os dados não demonstram que a cannabis possa substituir a morfina em todos os contextos clínicos.
Também é importante considerar os efeitos adversos. Três participantes apresentaram episódios transitórios de alucinações: um no grupo de dose alta e dois no grupo de dose baixa.
Outro aspecto relevante é o possível conflito de interesses: a empresa Bazelet Group forneceu os medicamentos utilizados na pesquisa, e três autores trabalhavam para a companhia, que comercializa essas formulações. Segundo o relato do estudo, a análise estatística foi realizada por um pesquisador externo que desconhecia a identidade dos tratamentos.
O que falta descobrir sobre cannabis medicinal e opioides?
Apesar dos resultados promissores, a pesquisa apresenta limitações importantes. A amostra foi pequena, o acompanhamento durou apenas 24 horas e o estudo avaliou uma formulação específica em pessoas com dor radicular aguda.
Ainda é necessário investigar se o efeito se mantém por períodos mais longos, em populações maiores e em outros tipos de dor. Também não é possível extrapolar os resultados para todos os produtos à base de cannabis, cujas composições e concentrações podem variar.
A pesquisa amplia o debate científico sobre estratégias para reduzir o uso de opioides, medicamentos importantes no tratamento da dor, mas associados a riscos como dependência e depressão respiratória.
Por enquanto, a principal contribuição do ensaio é mostrar que uma combinação específica de canabinoides merece investigação adicional como possível estratégia complementar de controle da dor e redução do consumo de morfina.
A decisão de iniciar, modificar ou interromper qualquer tratamento deve ser tomada com acompanhamento médico. A morfina não deve ser suspensa ou ter sua dose alterada por conta própria.
Links
- link.springer.com/journal/42238
Journal of Cannabis Research. Revista científica que publica pesquisas sobre cannabis, canabinoides e aplicações clínicas
