Muito além do espelho: o que sustenta uma vida saudável
Alimentação, atividade física, sono, saúde mental e equilíbrio hormonal influenciam o bem-estar e a vida saudável. Entenda como cuidar da saúde

O que é necessário para manter uma vida saudável?
- Uma vida saudável depende da integração entre alimentação equilibrada, atividade física, qualidade do sono, saúde mental e equilíbrio hormonal. O cuidado também deve considerar as necessidades individuais e as mudanças do organismo ao longo da vida.
A busca por uma vida saudável costuma começar pela aparência, pelo desejo de emagrecer ou pela vontade de melhorar o condicionamento físico. Mas o cuidado com a saúde envolve muito mais do que o que aparece no espelho. Alimentação, atividade física, qualidade do sono, saúde mental, autoestima e equilíbrio hormonal fazem parte de um conjunto de fatores que influenciam o bem-estar ao longo da vida.
Esse olhar mais amplo ganha importância especialmente entre mulheres que conciliam trabalho, família, responsabilidades pessoais e a tentativa de manter uma rotina de cuidados. Para quem já pratica exercícios, o desafio pode ser encontrar equilíbrio e constância. Para quem deseja começar, a dificuldade muitas vezes está em transformar a intenção em hábitos possíveis de manter.

A médica nutróloga Dra. Marília Zaneti, que atua com saúde hormonal, menopausa e longevidade feminina, especialmente a partir dos 35 anos, destaca que o conhecimento sobre alimentação e estilo de vida ampliou as possibilidades de cuidado. Segundo ela, a combinação entre informação e mudanças aplicáveis à rotina pode contribuir para uma vida mais saudável.
“Todo esse conhecimento que a gente tem hoje sobre alimentação, estilo de vida e o que a gente consegue aplicar no dia a dia — além da cannabis medicinal e dos peptídeos que estão chegando, como a tirzepatida — vem agregando demais e trazendo mais longevidade para todo mundo que se dispõe a aplicar”, afirma.
A médica observa que a praticidade da vida moderna também modificou a relação das pessoas com a alimentação. “Se formamos o pensamento no século passado, houve um boom dos ultraprocessados que facilitaram a vida moderna com congelados e praticidade, mas por outro lado desaprendemos a comer de forma natural e orgânica. Aos poucos, fomos reaprendendo a colocar isso em prática para ter uma vida mais saudável.”
Saúde não se resume à balança
A prática de atividade física e uma alimentação adequada são pilares importantes da saúde, mas nem sempre são simples de incorporar ao cotidiano. A rotina, o cansaço e as condições emocionais podem dificultar a adoção e a manutenção desses hábitos.
Marília ressalta que o estado emocional interfere diretamente na disposição para cuidar do corpo. “Eu preciso que o paciente esteja bem mental e fisicamente para ele conseguir fazer o básico, e a gente sabe que o básico — atividade física e alimentação adequada — não é tão simples de colocar na rotina do dia a dia para funcionar de verdade. Quando o paciente está muito ansioso ou deprimido, isso prejudica o sono e ele já não tem energia para treinar.”
A psiquiatra Dra. Marina Zaneti também chama a atenção para a relação entre emoções e alimentação. Na prática clínica, ela observa que o comer emocional é uma questão frequente e não deve ser confundido automaticamente com o transtorno de compulsão alimentar.
“O que a gente mais vê na prática clínica não é tanto a compulsão alimentar, mas sim o comer emocional. O comer emocional é você descontar as emoções na comida. Em geral, são afetos negativos — uma frustração, um cansaço —, e isso leva a pessoa a procurar um alimento de alto cunho afetivo e altamente palatável, algo que traga um conforto emocional e remeta à infância, como o brigadeiro que a mãe fazia. Acontecer de vez em quando faz parte do ser humano, mas a fome física precisa ser muito mais prevalente no dia a dia”, explica Marina.
Já a compulsão alimentar envolve episódios recorrentes de ingestão de grandes quantidades de comida em um curto período, acompanhados de sensação de perda de controle e sofrimento. A psiquiatra explica que, para o diagnóstico do transtorno de compulsão alimentar, os episódios precisam ocorrer pelo menos uma vez por semana durante três meses.
A distinção é importante porque comportamentos alimentares diferentes podem exigir avaliações e abordagens distintas. Em vez de tratar toda dificuldade com a alimentação como falta de disciplina, é necessário considerar os fatores emocionais e clínicos envolvidos.
O sono também faz parte do cuidado
Dormir bem é outro componente fundamental da saúde. Mais do que contabilizar horas na cama, é preciso considerar a qualidade do descanso e a regularidade dos horários.
Marília explica que o sono está relacionado ao ritmo circadiano, mecanismo biológico que organiza funções do organismo ao longo do dia e da noite. “O ideal é realmente ter um mínimo de horas de sono; mais ou menos seis horas é o mínimo. Porém, as horas de sono por si só muitas vezes não são suficientes para garantir qualidade.”
A médica também destaca a influência da luminosidade e do ciclo do cortisol, hormônio que apresenta variações ao longo do dia. “O ciclo circadiano precisa seguir a onda que o cortisol faz, que tem um pico pela manhã e vai reduzindo ao longo do dia junto com a luminosidade. O horário correto para dormir é durante a noite.”
Ela alerta ainda que medicamentos sedativos e bebidas alcoólicas podem interferir na arquitetura do sono. “O sono induzido por remédios (como benzodiazepínicos — clonazepam ou alprazolam) traz um sono muito superficial que não é reparador, já que a medicação interfere na arquitetura e nas ondas cerebrais do sono. O álcool faz exatamente a mesma coisa: atrapalha muito a arquitetura do sono, comprometendo a qualidade do descanso.”
A orientação sobre medicamentos deve ser individualizada. Tratamentos prescritos não devem ser interrompidos ou modificados sem acompanhamento do profissional responsável.
Emagrecimento: preservar a saúde também importa
A procura por resultados rápidos ganhou força com a popularização das chamadas canetas emagrecedoras. Mas a redução do peso na balança não representa, por si só, uma melhora proporcional da saúde.
Marina observa que a expectativa por transformações imediatas pode levar a frustrações e a uma relação pouco sustentável com o próprio corpo. “A gente vive em uma sociedade extremamente acelerada onde tudo é muito rápido, e as pessoas imaginam que o corpo vai responder no mesmo ritmo, achando que vão emagrecer dez quilos por mês com uma caneta emagrecedora. Não é bem assim: o nosso corpo requer um cuidado mais profundo e uma mudança real de rotina para que ocorra uma transformação consistente a longo prazo. É um passinho de cada vez, como correr uma maratona.”
Um dos pontos de atenção durante o tratamento é a preservação da massa muscular. Marília explica que a redução importante do apetite pode dificultar a ingestão adequada de alimentos e comprometer a disposição para a prática de exercícios.
“O maior cuidado que os pacientes precisam ter com as canetas emagrecedoras é a massa muscular. Como o efeito principal é uma redução importante no apetite, a tendência é a pessoa ficar praticamente sem se alimentar e com baixa energia para treinar. É fundamental uma alimentação adequada em proteínas e o mínimo de atividade física para a manutenção dessa massa magra”, afirma.
A médica também alerta para os riscos de priorizar apenas a quantidade de quilos perdidos. “A ilusão de perder dez quilos de qualquer maneira é prejudicial, porque a probabilidade de estar perdendo músculo além de gordura é muito alta.”
Marina acrescenta que a perda de massa muscular durante o emagrecimento pode ter consequências depois da interrupção do medicamento. “Se o paciente faz um uso incorreto e perde muita massa muscular sem acompanhamento, ao parar a medicação o reganho de peso vem majoritariamente em forma de gordura, já que ganhar músculo é extremamente complexo.”
Por isso, o acompanhamento profissional deve considerar não apenas a redução do peso, mas também a composição corporal, a alimentação, a atividade física e as condições de saúde de cada pessoa.
Saúde hormonal e mudanças no corpo da mulher
A partir dos 35 anos, muitas mulheres passam a observar mudanças na disposição, no sono, na composição corporal e na resposta do organismo aos hábitos que antes pareciam suficientes. Essas transformações podem ter diferentes causas e não devem ser atribuídas automaticamente à idade ou aos hormônios.
A saúde hormonal ganha ainda mais relevância durante o climatério e a menopausa, fases que podem envolver alterações no desejo sexual, no sono, no humor e em outras funções do organismo.
Marília destaca que a avaliação hormonal pode ser importante quando a mulher mantém cuidados com alimentação e atividade física, mas continua apresentando sintomas que afetam sua qualidade de vida.
“Nas mulheres após os 40 anos, se o emagrecimento e a atividade física estão em dia, mas a libido não melhora, a questão hormonal do climatério e da menopausa precisa ser considerada. Quando não há contraindicação, a reposição com estradiol traz resultados expressivos no desejo e nos sintomas cognitivos e ansiosos, ajudando muito mais do que apenas entrar com antidepressivos”, afirma.
A reposição hormonal, no entanto, não é indicada indistintamente para todas as mulheres. A decisão depende da avaliação individual, dos sintomas, do histórico clínico, dos riscos e das possíveis contraindicações. A orientação médica é indispensável para definir se há indicação e qual abordagem é adequada.
A médica também observa que a autoestima e a saúde sexual podem estar relacionadas à forma como a mulher se sente em relação ao próprio corpo. “O que mais afeta a libido no tratamento psiquiátrico são alguns antidepressivos mais antigos. Por outro lado, cuidar do corpo e passar por um processo de emagrecimento melhora a autoimagem e a autoestima de forma muito positiva, o que costuma refletir no aumento da libido.”
Cannabis medicinal como tema do cuidado integrado

A conversa sobre saúde integral também envolve a cannabis medicinal. No contexto apresentado por Marília, o canabidiol (CBD) pode ser considerado como um recurso coadjuvante em situações específicas, especialmente quando persistem sintomas relacionados à ansiedade ou ao sono durante o tratamento de pacientes.
“Hoje a gente usa a cannabis medicinal como coadjuvante. Geralmente, quando um paciente tem indicação de alguma medicação para ansiedade ou depressão e acabam sobrando alguns sintomas relacionados ao sono ou à própria ansiedade — e a gente não tem indicação de ficar aumentando a dose daquele remédio —, a gente associa o canabidiol para aumentar o efeito da medicação e corrigir esses sintomas que sobraram”, explica.
A médica relaciona esse tema também à resposta do organismo ao estresse. Ela descreve o sistema simpático como parte da resposta de luta, fuga e sobrevivência, enquanto o parassimpático participa de funções relacionadas ao repouso e à digestão.
“A gente tem hoje a questão do estresse crônico com predomínio do sistema simpático (que é a nossa resposta de luta, fuga e sobrevivência). Estamos em um mundo hiperconectado com milhões de coisas acontecendo ao mesmo tempo. Para o intestino funcionar bem e produzir enzimas digestivas, precisamos do parassimpático”, afirma.
Na avaliação da médica, o canabidiol pode ter um papel nesse contexto. Ela ressalta, porém, a importância de considerar o quadro clínico e o tratamento de cada paciente. O uso de produtos à base de cannabis deve ser discutido com profissionais habilitados, levando em conta indicação, formulação, dose, possíveis interações e acompanhamento.
Marina também menciona o tetrahidrocanabivarina (THCV), outro fitocanabinoide, ao abordar pesquisas e possibilidades relacionadas ao metabolismo. Ela cita possíveis efeitos sobre parâmetros como apetite, glicemia e insulina. Essas aplicações, entretanto, não devem ser interpretadas como indicação estabelecida para emagrecimento ou como substituição de tratamentos convencionais. A avaliação das evidências e da segurança ainda é essencial antes de qualquer uso clínico.
Mudanças possíveis, sem comparação
Entre tantas informações sobre alimentação, exercícios, medicamentos e novas possibilidades terapêuticas, um dos principais desafios é transformar o conhecimento em escolhas sustentáveis. Para Marília, o cuidado não precisa começar com uma lista extensa de intervenções ou mudanças radicais.
“Tanto eu quanto a Marina não temos o hábito de lotar o paciente com uma lista gigantesca de quinze potinhos de suplementos e medicações na primeira consulta. Gostamos de trabalhar de forma ponderada: definimos o objetivo principal, caminhamos juntos e ajustamos mês a mês para que o tratamento faça sentido real e seja sustentável na rotina”, afirma.
A construção de hábitos também não precisa seguir o ritmo ou o padrão de outras pessoas. Cada trajetória envolve condições, necessidades e possibilidades diferentes. O importante é identificar mudanças que possam ser mantidas ao longo do tempo, com orientação adequada quando necessário.
“Com todos os recursos e conhecimentos que temos hoje, eu sempre digo aos pacientes que nunca se deve desistir. Não importa se a pessoa tem 80 anos e quer mudar o estilo de vida: sempre é tempo. Qualquer mudança traz muitos benefícios. A gente jamais deve se comparar com os outros, pois não existe bem maior do que a nossa saúde”, conclui Marília.
