Saúde

Nando Reis fala sobre álcool e drogas; cannabis pode ajudar?

Veja o Relato do cantor sobre dependência e sobriedade abre debate sobre cannabis na redução de danos. O que a ciência diz?

Nando Reis fala sobre álcool e drogas; cannabis pode ajudar?
Nando Reis compartilhou sua trajetória com o álcool e outras drogas em um vídeo publicado para marcar nove anos de seu reingresso nos Alcoólicos Anônimos. Crédito: Reprodução/YouTube – Canal Nando Reis

Ao falar publicamente sobre sua relação com o álcool e outras drogas, o cantor e compositor Nando Reis transforma uma experiência pessoal em um alerta sobre dependência, recaídas e recuperação. Em um vídeo publicado em seu canal no YouTube, o artista revisita sua trajetória e a importância do retorno aos Alcoólicos Anônimos.

“Tenho falado muito sobre estar há 8 anos sóbrio, mas ainda não tinha contado toda a minha história e relação com o vício”, descreveu Nando Reis na apresentação do vídeo, publicado em abril de 2025 para marcar nove anos de seu reingresso no AA.

O depoimento não envolve o uso medicinal da cannabis. A experiência compartilhada pelo músico, entretanto, ajuda a ampliar uma discussão de saúde pública que alcança milhões de pessoas e suas famílias: existem diferentes caminhos para enfrentar o transtorno por uso de substâncias e qual poderia ser o papel dos canabinoides nesse cuidado?

A resposta exige cautela. Estudos clínicos encontraram sinais de que o canabidiol (CBD) pode atuar sobre sintomas relacionados à dependência, como fissura e ansiedade. Até o momento, porém, as evidências não permitem apresentar a cannabis medicinal como tratamento estabelecido para dependência de álcool, cocaína, crack ou opioides.

 

Dependência não é falta de força de vontade
 

O relato de Nando Reis ajuda a afastar uma percepção ainda comum: a de que interromper o consumo de álcool ou outras drogas dependeria apenas de determinação pessoal.

O transtorno por uso de substâncias é uma condição de saúde marcada, entre outros aspectos, pela dificuldade de controlar o consumo, pela continuidade do uso apesar das consequências e pelo risco de recaídas. Pode envolver alterações nos mecanismos cerebrais relacionados à recompensa, à memória, ao controle de impulsos e à resposta ao estresse.

 

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A psiquiatra Dra. Marina Zaneti explica como a fissura e os gatilhos influenciam as recaídas e avalia o possível papel complementar do CBD no tratamento.Crédito: Arquivo pessoal

 

“Porque ela envolve alterações mensuráveis no funcionamento do cérebro, principalmente nos circuitos de recompensa, memória e controle de impulsos. As taxas de recaída ficam entre 40% e 60%, muito parecidas com as de outras doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, em que ninguém diz que o paciente ‘não quis o suficiente’”, explica a médica psiquiatra Dra. Marina Zaneti.

O cuidado pode reunir acompanhamento médico e psicológico, intervenções sociais, medicamentos indicados para determinadas dependências e grupos de apoio, como os Alcoólicos Anônimos. No Sistema Único de Saúde, pessoas com necessidades relacionadas ao consumo de álcool e outras drogas também podem procurar os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas, os CAPS AD.

Em pessoas com dependência de álcool, a interrupção abrupta do consumo pode provocar uma síndrome de abstinência grave e exigir acompanhamento intensivo durante a desintoxicação. Por isso, a decisão de parar não deve ser tratada apenas como um compromisso pessoal, especialmente quando existe consumo frequente ou em grande quantidade.

 

Como funcionam a fissura e os gatilhos?
 

A fissura é um desejo intenso de consumir determinada substância e integra os critérios diagnósticos dos transtornos por uso de substâncias. Ela pode ser desencadeada por pessoas, lugares, situações, objetos, lembranças e estados emocionais anteriormente associados ao consumo.

“A fissura é o desejo intenso pela substância e hoje é critério diagnóstico oficial. Ela funciona por aprendizado: pessoas, lugares, objetos e até o estresse que acompanharam o uso viram gatilhos, e o cérebro responde a eles com ativação fisiológica e vontade de usar”, afirma Zaneti.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada no JAMA Psychiatry reuniu 237 estudos, 656 análises estatísticas e dados de 51.788 participantes. O trabalho avaliou se a exposição a estímulos relacionados às drogas e a intensidade da fissura estavam associadas ao consumo posterior ou à recaída.

No conjunto das análises, cada aumento nos indicadores de exposição a gatilhos e fissura foi associado a mais que o dobro da chance de consumo posterior ou recaída. Quando a fissura era provocada diretamente por estímulos relacionados à substância, a associação superava três vezes.

A relação foi observada no mesmo dia e também em avaliações realizadas meses ou anos depois. Por se tratar de uma associação prospectiva, o resultado não prova que a fissura, isoladamente, tenha causado cada episódio de recaída. Ainda assim, mostra que ela é um importante marcador de risco e deve ser acompanhada durante o tratamento.

“Por isso, ‘só querer parar’ não basta. O tratamento ensina a reconhecer a fissura como uma resposta aprendida, a evitar ou manejar gatilhos e a regulá-la, com terapia, estratégias de mindfulness e, quando indicado, medicação”, diz a psiquiatra.

 

Relatos públicos podem combater o estigma
 

A vergonha, o medo de julgamentos e a ideia de que a dependência representa uma falha moral podem retardar a procura por atendimento. Quando uma pessoa conhecida fala abertamente sobre o problema, o relato pode ajudar outras pessoas a reconhecer sinais semelhantes e buscar apoio.

“O estigma é uma das principais barreiras para procurar ajuda: a pessoa se envergonha, a família esconde, o diagnóstico chega tarde. Quando alguém com visibilidade fala da dependência como doença tratável e da sobriedade como processo, isso dá nome e permissão. Na minha prática, pacientes citam relatos assim como o empurrão que faltava para marcar a primeira consulta”, relata Zaneti.

A médica ressalta, entretanto, que a recuperação não segue o mesmo percurso para todos.

“Cada trajetória é única, e a recuperação raramente é linear. Recaídas fazem parte do caminho e não significam fracasso. O relato ajuda mais quando mostra isso do que quando parece uma história de superação sem tropeços”, acrescenta.

 

Cannabis é porta de entrada para outras drogas?
 

A relação entre cannabis e outras substâncias envolve um debate antigo: a ideia de que o consumo da planta funcionaria como “porta de entrada” para drogas consideradas mais perigosas.

Em uma coluna publicada no Portal Sechat, o médico Mario Grieco contestou essa interpretação e apresentou a hipótese oposta: a de que a cannabis poderia funcionar, em determinados contextos, como uma possível “porta de saída” dentro de estratégias de redução de danos.

A discussão exige uma distinção importante. O fato de uma pessoa ter consumido álcool, tabaco ou cannabis antes de experimentar outra droga não comprova que a primeira substância tenha causado essa progressão.

“Vir antes no tempo não é o mesmo que causar. A cannabis costuma ser a primeira substância ilícita simplesmente porque é a mais acessível, e a grande maioria de quem usa não progride para outras drogas”, explica Zaneti.

Uma pesquisa com 3.900 pessoas que já haviam utilizado cannabis no Japão também questionou a hipótese da “porta de entrada”. O levantamento mostrou que o contato com a planta geralmente ocorreu depois do consumo de álcool e tabaco. Quase metade daqueles que tiveram a cannabis como terceira substância não passou a utilizar outras drogas.

Os pesquisadores apontaram como explicação alternativa a chamada teoria da responsabilidade comum. Segundo essa interpretação, diferentes comportamentos de consumo podem resultar de fatores de vulnerabilidade compartilhados, e não necessariamente de uma progressão farmacológica causada por uma substância.

“O que a pesquisa aponta é uma vulnerabilidade compartilhada, que explica tanto o uso precoce de cannabis quanto o de outras substâncias, como genética e histórico familiar, traumas e adversidades na infância, condições de saúde mental não tratadas, como TDAH, ansiedade e depressão, início muito cedo, na adolescência, quando o cérebro ainda está em formação, ambiente social e contato com o mercado ilegal, que expõe a pessoa a outras substâncias”, afirma a psiquiatra.

O estudo japonês utilizou questionários retrospectivos, recrutou participantes pelas redes sociais e incluiu somente pessoas que já haviam consumido cannabis. Portanto, seus resultados não estabelecem causalidade nem podem ser automaticamente generalizados para toda a população ou para outros países.

Questionar a hipótese da “porta de entrada” também não significa afirmar que a cannabis seja isenta de riscos.

“Isso não torna a cannabis inofensiva: uso pesado e precoce é um marcador de risco real. Mas apontar uma única substância como culpada esconde os fatores que realmente merecem atenção”, pondera Zaneti.

 

O que significa redução de danos?
 

Redução de danos é um conjunto de políticas, práticas e estratégias destinadas a diminuir consequências físicas, psicológicas e sociais relacionadas ao consumo de substâncias, mesmo quando a abstinência imediata não é possível ou ainda não foi alcançada.

Isso não significa considerar uma substância segura em qualquer circunstância. A redução de danos também pode ser aplicada ao próprio consumo de cannabis, com orientações destinadas a evitar combinações perigosas, reduzir a exposição à fumaça, prevenir doses excessivas e conhecer a composição dos produtos. O Portal Sechat reuniu algumas dessas medidas em um conteúdo sobre consumo mais seguro de cannabis.

No contexto da dependência, pesquisadores investigam se determinados canabinoides poderiam reduzir sintomas específicos ou auxiliar pessoas que não responderam adequadamente a outras intervenções. Isso não significa simplesmente substituir uma droga por outra, nem autoriza o uso de cannabis sem acompanhamento profissional.

Também é necessário diferenciar as substâncias estudadas. O CBD não produz a intoxicação característica do tetraidrocanabinol (THC). Já o THC tem ação psicoativa e pode representar riscos adicionais para pessoas predispostas a transtornos psicóticos, ansiedade ou uso problemático de substâncias.

Resultados obtidos com CBD purificado, em doses controladas e dentro de estudos clínicos, não podem ser automaticamente transferidos para flores, extratos artesanais ou produtos com concentrações desconhecidas de CBD e THC.

 

O que os estudos encontraram sobre CBD e álcool?
 

Os primeiros ensaios clínicos apontam um possível efeito do CBD sobre a fissura, mas ainda não comprovam que o composto reduza de maneira sustentada o consumo de álcool ou evite recaídas.

Um ensaio clínico randomizado e duplo-cego, conhecido como ICONIC, avaliou uma dose única de 800 miligramas de CBD em pessoas com transtorno por uso de álcool. Os participantes que receberam CBD apresentaram menor ativação do núcleo accumbens — região cerebral relacionada à recompensa — diante de estímulos associados à bebida e relataram menor desejo de consumir álcool.

Embora o resultado ajude a compreender os mecanismos envolvidos na fissura, o estudo avaliou efeitos agudos e contou com uma amostra pequena. Ele não demonstrou que o CBD mantenha a abstinência ou previna recaídas ao longo de meses.

Outro ensaio clínico cruzado, randomizado e duplo-cego, com 22 participantes, comparou 800 miligramas de CBD com placebo durante três dias. O CBD foi associado à redução da ansiedade provocada pela exposição a estímulos relacionados ao álcool e à diminuição da fissura depois dessa exposição.

Os próprios pesquisadores destacaram que ensaios maiores e com períodos mais longos de tratamento são necessários. Esses estudos também utilizaram CBD em doses farmacológicas elevadas e sob controle científico. Os resultados não justificam automedicação nem podem ser reproduzidos pela simples utilização de qualquer óleo de cannabis.


 

CBD apresentou resultado inicial no transtorno por uso de cannabis
 

Um dos resultados clínicos mais relevantes foi observado justamente no tratamento de pessoas com transtorno por uso de cannabis.

O ensaio clínico de fase 2a publicado no The Lancet Psychiatry avaliou doses diárias de 200, 400 e 800 miligramas de CBD, comparadas com placebo, durante quatro semanas. Os participantes também receberam uma intervenção psicológica destinada a aumentar a motivação para interromper o consumo.

A dose de 200 miligramas foi retirada da etapa adaptativa por falta de eficácia. As doses de 400 e 800 miligramas apresentaram sinais de redução do uso de cannabis, medido tanto por dias de abstinência autorrelatados quanto pela concentração urinária de THC-COOH.

O resultado é promissor, mas corresponde a um ensaio de fase inicial, com período curto e quantidade limitada de participantes. Estudos maiores estão sendo realizados para verificar se o benefício se mantém e pode ser reproduzido em diferentes populações.

 

Resultados para cocaína e crack foram negativos
 

As pesquisas envolvendo cocaína e crack mostram por que resultados promissores em animais precisam ser confirmados em seres humanos.

Um ensaio clínico com 78 adultos com transtorno moderado ou grave por uso de cocaína comparou 800 miligramas diários de CBD com placebo. Os participantes passaram inicialmente por dez dias de desintoxicação hospitalar e foram acompanhados por mais 12 semanas.

Ao final, o CBD não reduziu a fissura nem o risco de recaída. Quase todos os participantes voltaram a consumir cocaína durante o acompanhamento, sem diferença significativa entre os grupos.

Outro estudo brasileiro randomizado e controlado por placebo, realizado com pessoas em tratamento por dependência de crack, também não encontrou benefício específico do CBD. A intensidade da fissura diminuiu ao longo do período de internação tanto no grupo que recebeu CBD quanto no grupo placebo, sem diferença significativa entre eles.

Os resultados indicam que o CBD não pode ser apresentado atualmente como tratamento comprovado para dependência de cocaína ou crack.

 

Cannabis pode reduzir o consumo de opioides?
 

O uso de cannabis como possível substituto de opioides aparece em pesquisas sobre dor crônica e em estudos com pessoas expostas a substâncias provenientes do mercado ilícito.

Uma notícia publicada pelo Portal Sechat apresentou um estudo com 205 pessoas que utilizavam cannabis e opioides sem prescrição. Entre os participantes, 58% afirmaram que controlar o desejo por opioides era uma das motivações para consumir cannabis.

O uso intencional da planta foi associado a reduções autorrelatadas no consumo de opioides durante os períodos em que os participantes utilizavam cannabis. Os pesquisadores sugeriram que o acesso terapêutico poderia representar uma estratégia complementar de redução de danos em um contexto marcado pelo risco de contaminação e overdose.

A palavra central, porém, é “associação”. Como o estudo foi observacional e baseado nos relatos dos participantes, ele não demonstrou que a cannabis tenha causado a redução do consumo. Também não avaliou se a estratégia produziu abstinência sustentada ou prevenção de recaídas.

Uma revisão sistemática sobre cannabis, THC e abstinência de opioides reuniu 11 estudos e 5.330 participantes. Quatro pesquisas observacionais encontraram associação com alívio da abstinência, quatro não identificaram associação e uma registrou piora dos sintomas.

Dois ensaios clínicos com dronabinol, uma forma sintética de THC, observaram redução de sintomas de abstinência. O possível benefício, entretanto, foi acompanhado por efeitos relacionados à dose, como taquicardia, disforia e indicadores de potencial de abuso. Os pesquisadores consideraram estreita a margem entre benefício e risco.

A cannabis também não deve substituir tratamentos estabelecidos para o transtorno por uso de opioides, como metadona e buprenorfina, quando clinicamente indicados.

 

Reduzir a fissura não significa impedir uma recaída
 

Uma revisão sistemática publicada em 2026 analisou 97 estudos, com 41.954 participantes, sobre exposição a canabinoides em transtornos relacionados a opioides, álcool, cocaína, tabaco e metanfetamina.

Dos resultados classificados como benéficos, a maioria estava relacionada a sintomas de curto prazo, como fissura, intensidade da abstinência e consumo momentâneo. Esses achados vieram predominantemente de desenhos de pesquisa com menor capacidade de demonstrar causalidade.

Nos desfechos mais importantes para a recuperação — abstinência sustentada, prevenção de recaídas e permanência no tratamento — os canabinoides não demonstraram eficácia consistente. As evidências foram mais numerosas para opioides; nos demais transtornos, os pesquisadores classificaram os resultados como preliminares.

“Reduzir a fissura por um período curto é um sinal promissor, não uma prova de que o tratamento previne recaída. Os gatilhos seguem predizendo recaída por mais de seis meses. O que importa é o efeito sustentado, na vida real, com acompanhamento”, explica Zaneti.

De acordo com a psiquiatra, o CBD deve ser considerado, quando houver indicação, como parte de uma estratégia mais ampla.

“Eu avaliaria o CBD como complemento do tratamento psicossocial e das medicações já estabelecidas. Faz mais sentido quando há ansiedade ou insônia associadas, que costumam alimentar a fissura”, afirma.

Essa avaliação precisa ser individualizada. A presença de ansiedade ou insônia não significa, por si só, que o CBD esteja indicado, e os tratamentos com eficácia já estabelecida não devem ser abandonados.

 

Cannabis medicinal não é uma solução isolada
 

O interesse científico pelos canabinoides pode abrir novas possibilidades, principalmente para sintomas específicos e para pessoas que não respondem adequadamente às abordagens disponíveis. Mas a cannabis medicinal ainda não é um tratamento de primeira linha para dependência de álcool, cocaína, crack ou opioides.

Pessoas com histórico de dependência precisam de avaliação especialmente cuidadosa antes de utilizar formulações com THC, devido ao risco de intoxicação, piora de sintomas psiquiátricos e desenvolvimento de transtorno por uso de cannabis.

A associação da cannabis com álcool, benzodiazepínicos ou outros depressores do sistema nervoso central também pode aumentar sonolência, prejuízo da coordenação e outros efeitos adversos. O uso não deve ser iniciado por conta própria nem utilizado como justificativa para abandonar tratamentos em andamento.

A história compartilhada por Nando Reis evidencia que a recuperação pode ser longa, marcada por recomeços e construída com apoio. A ciência dos canabinoides poderá ampliar esse repertório, mas os dados disponíveis ainda sustentam um papel experimental ou complementar — não o de cura ou solução isolada.

Assista ao vídeo: Nando Reis | Minha relação com o álcool e drogas — 9 anos de reingresso no AA

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