Pesquisas com cannabis avançam após norma da Anvisa
Pesquisas com cannabis se tornam prioridade na UFSM após a regulamentação da Anvisa que autoriza o cultivo para fins científicos no Brasil. Confira!

Pesquisas com cannabis - Há momentos em que a ciência deixa de caminhar em silêncio para abrir novas possibilidades de transformação. Em laboratórios, estufas e universidades, sementes cultivadas com método e responsabilidade podem representar o início de descobertas capazes de impactar a saúde, a inovação e o conhecimento.
É nesse contexto que a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começa a desenhar um novo capítulo das pesquisas com cannabis no Brasil, impulsionada pelo marco regulatório publicado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que passa a disciplinar o cultivo da planta para fins exclusivamente científicos e tecnológicos.
A iniciativa posiciona a universidade entre as instituições públicas que buscam ampliar a produção de conhecimento sobre a Cannabis sativa com rastreabilidade, controle e rigor científico.
Publicada no Diário Oficial da União em fevereiro de 2026, a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 1.012/2026 estabelece, pela primeira vez, regras específicas para o cultivo de Cannabis sativa destinado exclusivamente à pesquisa científica e tecnológica.
Segundo o site da UFSM, a regulamentação cria um ambiente jurídico mais seguro para que universidades e institutos de pesquisa desenvolvam estudos em diferentes áreas do conhecimento.
Na UFSM, os primeiros movimentos já estão em andamento. De acordo com informações divulgadas pela universidade, o objetivo é estruturar uma cadeia de pesquisa capaz de atender às exigências da Anvisa e fortalecer a atuação da instituição em um campo considerado estratégico para a ciência brasileira.
Pesquisas com cannabis avançam com nova regulamentação
Segundo explicou o professor Dilson Bisognin, do Departamento de Fitotecnia do Centro de Ciências Rurais (CCR), em entrevista ao site da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a obtenção da Autorização Especial (AE) da Anvisa será o primeiro passo para que o cultivo destinado à pesquisa possa ser iniciado.
Antes disso, a universidade deverá adequar sua infraestrutura às exigências previstas pela regulamentação, incluindo protocolos de segurança física, sistemas de monitoramento e controle de acesso às áreas de cultivo.
"A autorização para o cultivo é o ponto de partida para toda a cadeia de pesquisa. Sem acesso à matéria-prima produzida sob rigor científico e regulatório, não é possível desenvolver desde estudos agronômicos e farmacêuticos até pesquisas clínicas, inovação tecnológica e transferência de conhecimento para a sociedade", afirmou o professor Dilson Bisognin ao site da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Ainda segundo o docente, o novo marco regulatório oferece as condições necessárias para que instituições públicas desenvolvam pesquisas com rastreabilidade, qualidade e controle, ampliando as possibilidades de inovação científica.
UFSM prepara estrutura para fortalecer pesquisas com cannabis
De acordo com o site da universidade, uma das primeiras ações previstas será a readequação completa de uma casa de vegetação e de outras estruturas destinadas à pesquisa. Com a autorização da Anvisa e a infraestrutura adequada, a instituição pretende desenvolver uma cadeia integrada de inovação envolvendo diferentes etapas do processo científico.
Entre as linhas de atuação previstas estão o melhoramento genético da planta, a propagação clonal, a produção de biomassa padronizada, o desenvolvimento de tecnologias de extração e a validação de métodos analíticos capazes de caracterizar com precisão os compostos presentes na Cannabis sativa.
Embora as inflorescências femininas não fecundadas concentrem maior quantidade de canabinoides e terpenos de interesse farmacêutico, a universidade também pretende explorar outras partes da planta.
Segundo a UFSM, folhas, caules e raízes poderão futuramente ser utilizados no desenvolvimento de novas tecnologias, processos industriais e aplicações biotecnológicas.
Outro desafio destacado pela universidade diz respeito à padronização da matéria-prima utilizada nas pesquisas.
Conforme explicou o professor Dilson Bisognin ao site da UFSM, diferenças naturais na concentração de compostos como tetrahidrocanabinol (THC), canabidiol (CBD), canabigerol (CBG) e terpenos podem comprometer a reprodutibilidade dos estudos científicos.
Nesse cenário, a produção de clones geneticamente definidos deverá permitir a obtenção de plantas com composição química mais estável e previsível, reduzindo variações entre diferentes cultivos e aumentando a confiabilidade dos resultados obtidos em pesquisas pré-clínicas e clínicas.
Além da padronização genética, a iniciativa contempla estudos voltados à adaptação do cultivo às condições climáticas do Rio Grande do Sul.
Temperatura, fotoperíodo e fatores ambientais podem influenciar diretamente o perfil químico da planta, tornando necessário o desenvolvimento de práticas agronômicas específicas para garantir qualidade e estabilidade da biomassa produzida.
Seminário reunirá especialistas para discutir o futuro da cannabis científica
Como parte desse processo, o Centro de Ciências Rurais e o Departamento de Fitotecnia da UFSM promoverão, em 13 de agosto, o seminário "Desafios e oportunidades do cultivo de cannabis para pesquisa", coordenado pelo professor Dilson Bisognin.
Segundo o site da universidade, o encontro pretende aprofundar as discussões sobre as exigências da nova regulamentação e promover o debate institucional, científico e tecnológico em torno do cultivo e do uso medicinal da cannabis no Mercosul.
A programação prevê palestras sobre o novo marco regulatório, painéis sobre o potencial multidisciplinar da UFSM na pesquisa científica, debates sobre avanços desenvolvidos na Argentina, Uruguai e Paraguai, além de discussões sobre o ecossistema de negócios e o papel das associações de pacientes.
Paralelamente, será realizada a Mostra de Inovação e Tecnologia em Cannabis, reunindo empresas de tecnologia, prestadores de serviços, indústrias e associações de pacientes.
De acordo com a universidade, a iniciativa busca estimular o networking entre diferentes atores do setor e ampliar o diálogo sobre o desenvolvimento científico e tecnológico relacionado à Cannabis sativa.
Com a entrada em vigor da RDC nº 1.012/2026, universidades públicas passam a contar com um marco regulatório específico para ampliar as pesquisas com cannabis. Na UFSM, a expectativa é que a nova estrutura fortaleça a produção científica, incentive a inovação e contribua para o avanço do conhecimento sobre uma planta que, cada vez mais, ocupa espaço nas pesquisas desenvolvidas no Brasil.
