O reencontro com um saber ancestral: indígenas Pankará avançam na cannabis medicinal
Lideranças da Aldeia Pankará Serrote dos Campos visitam a Aliança Medicinal, em Olinda, enquanto avançam na criação da primeira associação indígena de cannabis medicinal e cânhamo industrial do Brasil
Publicado en 19/06/2026

Ciência, empreendedorismo social, conhecimento ancestral e saúde caminharam lado a lado na última quinta-feira (18), durante a visita de lideranças da Aldeia Pankará Serrote dos Campos à Aliança Medicinal, associação de pacientes localizada em Olinda (PE).
Recebido pelo diretor-executivo Ricardo Hazin Asfora e pela presidente Hélida Lacerda, o grupo veio de Itacuruba, no Sertão pernambucano, onde está sendo estruturada a Associação Indígena de Medicina Ancestral para Cannabis Medicinal e Cânhamo Industrial (Acarapuá), considerada a primeira iniciativa de povos originários do Brasil voltada à produção de medicamentos à base de Cannabis sativa.
A iniciativa nasceu a partir de um projeto desenvolvido pelo Centro de Prevenção às Dependências (CPD), organização que recebeu uma emenda parlamentar do deputado estadual João Paulo (PT-PE) para apoiar a estruturação da associação.
Segundo a coordenadora do CPD e do projeto da Acarapuá, Ana Glória Melcop, a proposta também representa um processo de resgate histórico. “A cannabis entrou no Brasil por africanos escravizados e logo os indígenas também começaram a usá-la para fins medicinais. Foram perseguidos, presos e mortos pelo plantio e pelo uso. Hoje trabalhar e ter essa associação é uma reparação, é um dever que a sociedade e o Estado brasileiro têm com os povos indígenas”, defende.
Associação indígena de cannabis medicinal já possui CNPJ

De acordo com Ana Glória Melcop, a associação já concluiu etapas importantes para sua formalização. O estatuto foi elaborado e o CNPJ obtido. O próximo passo é buscar autorização junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar o cultivo.
“Vai ser uma longa história e estamos em parceria com a Aliança Medicinal para que o povo Pankará reaprenda a plantar a cannabis e não despreze todo o conhecimento ancestral que detém, porque sempre plantaram. Mas será de forma a atender às exigências da Anvisa e ter qualidade do produto, o óleo medicinal”.
A parceria com a Aliança Medicinal busca combinar a experiência tradicional dos povos indígenas com protocolos técnicos voltados à produção de medicamentos dentro dos parâmetros regulatórios exigidos no país.
UFPE capacita lideranças indígenas sobre cannabis medicinal
Antes da visita à associação, as lideranças da aldeia participaram de uma capacitação promovida pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), uma das instituições parceiras do projeto.
Segundo a professora Larissa Rolim, do Departamento de Farmácia da UFPE, os participantes tiveram contato com conteúdos relacionados à química da planta, aos compostos presentes na cannabis e aos processos de obtenção de extratos para fins terapêuticos.
“Explicamos a química e os compostos da cannabis medicinal e todo seu potencial terapêutico. Mostramos como obter preparados, extratos, e outros produtos para fins medicinais que vão ajudar o povo Pankará”.
A pesquisadora destacou ainda a experiência dos participantes nos laboratórios da universidade.
“Foi muito gratificante para eles. Tiveram contato com as plantas, com vidrarias e equipamentos do laboratório e todas as boas práticas de fabricação e manipulação da cannabis para transformá-la em um medicamento que vai tratar a saúde da população do território indígena”.
Conhecimento ancestral e os desafios da proibição
Entre os integrantes da comitiva estava o pajé Geraldo Leal, que relatou como o uso tradicional da cannabis foi sendo abandonado ao longo dos anos em razão da proibição da planta.
Segundo ele, os Pankará deixaram de cultivar cannabis há décadas por receio das consequências legais. O mesmo temor também dificulta o acesso a partes da planta utilizadas tradicionalmente em preparações medicinais.
“Como a cannabis é proibida, ninguém mais quer nos dar raízes e ser descoberto. A gente só usa outra planta: a aliamba. Serve para dor de cabeça e outros sintomas que a pessoa necessitar”.
Após participar das atividades promovidas pela universidade, o pajé avaliou positivamente a experiência.
Foi muito bom aprender “de cada coisa um pouquinho, e a utilidade da maconha para o ser humano”.
Novas parcerias para ampliar o acesso à cannabis medicinal
Presidente da Comissão da Cannabis Medicinal da Assembleia Legislativa de Pernambuco, o deputado João Paulo afirmou que seu envolvimento com a pauta surgiu a partir das demandas de pacientes e familiares que buscam tratamentos para diferentes condições de saúde. “Quero parabenizar a Aliança Medicinal pelo trabalho sério, dentro da lei, que garante os medicamentos para quem precisa. Cannabis é vida”.
Durante o encontro, também foram discutidas futuras ações voltadas à formação de profissionais de saúde.
Segundo Ricardo Hazin Asfora, diretor-executivo da Aliança Medicinal, uma das próximas etapas da parceria poderá envolver a capacitação de médicos prescritores para atendimento à população indígena. “Estaremos juntos na proposta da Acarapuá, coordenada por Ana Glória, de preparar novos médicos prescritores de cannabis para que possam atender ao povo Pankará, no sertão pernambucano”.
Ao final da visita, a presidente da Aliança Medicinal, Hélida Lacerda, destacou a importância do protagonismo indígena na construção do projeto. “A sabedoria é de vocês, presente na Acarapuá, é um direito que vem sendo construído por todo este conjunto de pessoas que apoiam a cannabis medicinal”.
Fonte: com informações de assessoria.


