Afinal, a cannabis é porta de entrada para outras drogas?

Estudo japonês com 3.900 usuários questiona a ideia de que a cannabis, por si só, seja responsável pela progressão para outras drogas. Confira!

Cannabis é porta de entrada para outras drogas? Estudo japonês questiona relação causal entre a substância e o uso posterior de outras drogas | CanvaPro

Por décadas, a ideia de que a cannabis seria uma “porta de entrada” para outras drogas fez parte do imaginário social, de campanhas de prevenção e de conversas familiares. 

Mas um estudo realizado no Japão coloca essa afirmação em xeque: entre 3.900 pessoas que relataram uso de cannabis, os pesquisadores não encontraram evidências de uma progressão inevitável para outras drogas.

Publicado na revista Neuropsychopharmacology Reports, o estudo observou que álcool e tabaco apareciam frequentemente antes da cannabis. Além disso, entre os participantes que utilizaram cannabis como terceira substância, 54,7% não relataram progressão para outra substância.

O resultado não significa que a cannabis seja isenta de riscos. A principal contribuição da pesquisa está em questionar uma explicação linear: usar cannabis não significa, necessariamente, que uma pessoa passará a usar outras drogas.

O que o estudo descobriu sobre cannabis?

A pesquisa analisou dados por meio de um formulário online onde os participantes responderam sobre seu histórico de uso de cannabis e outras substâncias.

Um dos resultados que mais chama atenção é a sequência de consumo. Álcool e tabaco apareceram frequentemente antes da cannabis, enquanto a progressão posterior para outras drogas foi pouco comum.

Entre os participantes que usaram cannabis como terceira substância, mais da metade não relatou uso posterior de outra substância.

Para os autores, esses resultados não apresentam um padrão compatível com a chamada “hipótese da porta de entrada”, segundo a qual o consumo de cannabis levaria ao uso de drogas consideradas mais pesadas.

Mas existe uma ressalva importante: trata-se de uma análise baseada em dados autorrelatados, com participantes recrutados pela internet e uma amostra não randomizada. Portanto, os resultados são relevantes, mas não encerram o debate sobre o tema.

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Cannabis é mesmo uma “porta de entrada”?

Para o psicólogo Dr. Lauro Pontes, pós-doutorando em Traumas Emocionais pela UFRN/IEC e pesquisador da cannabis há 11 anos, a questão precisa ser observada também pelo comportamento social.

Segundo ele, mais do que estudos simplesmente “questionarem” a hipótese da porta de entrada, a literatura científica já apresenta evidências que, em sua avaliação, não sustentam essa ideia.

“De vista pragmático, lógico e científico, ela não é a porta de entrada. Ela é uma droga que está no caminho, que está na mesma prateleira das outras drogas em função da proibição. E daí o acesso.”

Na avaliação de Pontes, o álcool ocupa um papel central nessa discussão. Ele afirma que o consumo de álcool aparece como uma das principais portas de entrada para o universo das substâncias e que esse fenômeno também pode ser observado no comportamento social.

Como a sociedade enxerga a cannabis e as demais substâncias? 

Para o psicólogo, a permanência da ideia de que a cannabis seria uma “porta de entrada” está relacionada, em parte, à forma como a substância é apresentada socialmente.

“Isso ainda permanece nesse imaginário porque não é feito nenhum tipo de trabalho de conscientização para além desse que a gente faz. Há um reforço permanente.”

Pontes também chama atenção para o efeito das imagens e discursos associados à criminalização da cannabis.

“Cada vez que você vê uma imagem da polícia chegando em algum cultivo e criminalizando a planta, reforça esse imaginário de que faz mal. Reforça todos os estereótipos construídos.”

A fala ajuda a trazer para a discussão um elemento que números e estatísticas nem sempre conseguem mostrar: a maneira como uma sociedade constrói sua percepção sobre determinada substância também influencia a forma como ela é compreendida.

O comportamento vem antes da substância?

A pergunta sobre a “porta de entrada” também pode ser observada por outro ângulo: em vez de perguntar apenas o que uma substância provoca, é preciso entender por que uma pessoa busca determinada substância.

É justamente esse ponto que Pontes considera fundamental. “Essa perspectiva de achar que uma substância leva a outra é muito errada. Não tem que se olhar a trajetória da cannabis. Tem que se olhar a trajetória da pessoa.”

Na visão do psicólogo, reduzir uma trajetória de consumo à sequência entre substâncias pode fazer com que fatores psicológicos e sociais importantes sejam ignorados.

Ele cita, por exemplo, situações de sofrimento emocional, ansiedade, compulsões e comportamentos repetitivos.“Toda droga, toda substância, todo comportamento adicto é repetitivo. Ele serve para atenuar um sofrimento emocional. E aí não importa se é cannabis, álcool, café ou qualquer outro comportamento.”

A interpretação apresentada por Pontes não significa que todas as substâncias, como a cannabis, tenham os mesmos efeitos, riscos ou potencial de dependência. A comparação serve, segundo ele, para destacar que o comportamento humano não pode ser explicado apenas pela substância consumida.

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O estudo significa que cannabis não oferece riscos?

Não.

Essa talvez seja uma das principais ressalvas para interpretar corretamente a pesquisa.

Questionar a hipótese da “porta de entrada” não significa dizer que a cannabis seja inofensiva.

O National Institute on Drug Abuse (NIDA) destaca que a maioria das pessoas que utiliza cannabis não passa posteriormente para drogas consideradas mais pesadas. 

Ao mesmo tempo, existem associações entre cannabis e outros transtornos relacionados ao uso de substâncias, e fatores individuais precisam ser considerados.

Por isso, idade de início, frequência de consumo, contexto social, histórico pessoal e padrão de uso são elementos importantes quando se fala em riscos.

Também é necessário diferenciar uso de abuso. Como explica Pontes, comportamentos compulsivos podem estar relacionados a diferentes formas de tentar aliviar ou regular um sofrimento emocional.

Essa perspectiva não elimina os riscos específicos de cada substância, mas amplia a discussão para além da ideia de que uma droga simplesmente “empurra” uma pessoa para outra.

Afinal, cannabis é porta de entrada para outras drogas?

A ciência não sustenta a ideia de que a cannabis seja uma porta de entrada inevitável para outras drogas.

O estudo japonês contribui para essa discussão ao mostrar que, entre os 3.900 participantes analisados, álcool e tabaco apareciam frequentemente antes da cannabis e que a progressão posterior para outras substâncias era pouco comum.

Mas a pesquisa também precisa ser vista dentro de seus limites. Ela foi realizada com uma amostra específica, no Japão, por meio de dados autorrelatados. Portanto, não é possível transformar seus resultados em uma conclusão universal.

Para Pontes, entretanto, a principal mudança precisa acontecer na própria maneira de formular a pergunta.“Não devemos estudar a cannabis com o homem que usa. Devemos estudar o homem que usa cannabis.”