Cannabis não é “droga”: ciência e medicina desmontam o estigma

Entendimento biológico, aplicações clínicas e políticas públicas mostram por que a planta deve ser tratada como recurso terapêutico — e não apenas como substância recreativa ou prejudicial

Publicada em 10/02/2026

Cannabis não é “droga”: ciência e medicina desmontam o estigma

A cannabis é utilizada como recurso terapêutico pela humanidade há milhares de anos, com registros históricos de seu uso medicinal muito antes da medicina moderna. | Imagem: Canva Pro

Classificar a cannabis exclusivamente como “droga” é uma simplificação que não se sustenta diante das evidências científicas, médicas e institucionais acumuladas nos últimos anos. Diferentemente de substâncias nocivas ao organismo, a cannabis atua em um sistema biológico já existente no corpo humano e diretamente ligado ao equilíbrio de funções essenciais, como dor, inflamação, sono, humor e resposta imunológica. Clique aqui para saber mais: Esse entendimento vem transformando a forma como a planta é analisada pela medicina, pela ciência e pelas políticas públicas de saúde.

 

Um sistema que já existe no corpo humano

 

Um dos principais pontos que ajudam a desmontar o estigma em torno da cannabis está no próprio funcionamento do organismo. O corpo humano produz substâncias semelhantes aos canabinoides presentes na planta, o que torna biologicamente incoerente tratá-la como algo totalmente estranho ou tóxico ao corpo. Em live do portal Sechat, o neurocirurgião e diretor científico da Sechat -membro do Comitê Científico do Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal Dr. Pedro Pierro, explica: “Dizer que a pessoa tem alergia a cannabis é a mesma coisa que dizer que a pessoa tem alergia a corticoide... é muito difícil, porque a gente produz essas moléculas de forma endógena”.

Essa produção natural está relacionada ao sistema endocanabinoide, responsável por manter a homeostase do organismo. A cannabis, quando utilizada de forma medicinal, atua justamente nesse sistema, auxiliando na correção de desequilíbrios fisiológicos associados a diversas doenças. Como resume Pierro: “Você está cuidando do seu sistema endocanabinoide. Você está cuidando de uma parte importante da sua vida”. Para o médico, esse cuidado é comparável à manutenção de qualquer outro sistema do corpo que sofre desgaste natural ao longo do tempo.

 

Doenças tratadas com cannabis medicinal

 

Na prática clínica, a cannabis medicinal já é utilizada no tratamento de uma ampla variedade de condições. Entre elas estão epilepsias refratárias, transtorno do espectro autista (TEA), dor crônica, esclerose múltipla, Parkinson, Alzheimer, fibromialgia, ansiedade, insônia e como terapia adjuvante em pacientes oncológicos, especialmente no controle da dor, náuseas e outros sintomas associados ao tratamento do câncer.

Esse uso terapêutico não se limita ao âmbito privado. O canabidiol (CBD) já é distribuído pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em estados e municípios que implementaram políticas públicas específicas, principalmente para pacientes com epilepsias graves e refratárias. A presença do CBD no SUS reforça o reconhecimento institucional da cannabis como ferramenta terapêutica.

 

Dependência, risco e comparação com outros medicamentos

 

Outro ponto central do debate é a questão da dependência. Embora o THC isolado possa causar dependência em alguns casos, especialistas destacam que esse risco não é exclusivo da cannabis. Diversos medicamentos amplamente prescritos — como antidepressivos e ansiolíticos — apresentam potencial de dependência maior e, ainda assim, seguem sendo utilizados na medicina. Pierro reforça essa distinção ao afirmar que, mesmo nesse contexto, o THC mantém suas “propriedades farmacêuticas”.

O médico também chama atenção para a contradição social ao demonizar a cannabis enquanto se normaliza o consumo de outras substâncias psicoativas. “O café também é uma substância psicoativa”, lembra Pierro. Na mesma linha, ele critica o uso excessivo de benzodiazepínicos, ansiolíticos comuns na prática médica, que define como uma “camisa de força emocional”, sugerindo que, em determinados quadros clínicos, a cannabis pode ser uma alternativa terapêutica mais eficiente e menos agressiva.

 

Neuroproteção e uso precoce

 

Além do controle de sintomas, especialistas destacam um aspecto estratégico do uso medicinal da cannabis: o potencial neuroprotetor. Segundo Pierro, o uso precoce e bem indicado da planta pode ajudar a retardar a progressão de doenças neurodegenerativas, oferecendo benefícios que muitos medicamentos convencionais não conseguem alcançar. Ele afirma que esse uso pode ter efeitos “neuroprotetores”, atuando de forma diferente das chamadas “drogas” tradicionais.

 

Como ter acesso à cannabis medicinal no Brasil

 

No Brasil, o acesso à cannabis medicinal é legal, desde que siga critérios específicos. O primeiro passo é a consulta com um médico, que deve emitir receita médica e laudo clínico justificando o uso do tratamento.

Com essa documentação, o paciente pode obter o medicamento por diferentes caminhos: farmácias autorizadas, importação com autorização da Anvisa, associações de pacientes e, em casos específicos, por meio do autocultivo, autorizado via habeas corpus medicinal concedido por decisão judicial.

Mais recentemente, a Anvisa aprovou a possibilidade de atuação de farmácias de manipulação com produtos à base de cannabis, embora a operação plena ainda dependa de regras complementares. Algumas farmácias já funcionam com autorizações judiciais, enquanto aguardam a regulamentação definitiva.

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