Uso de cannabis não está associado a maior declínio cognitivo ao longo de 44 anos, aponta estudo dinamarquês

Publicada em 03/03/2026

Estudo dinamarquês com 5 mil homens aponta que uso de cannabis não acelera declínio cognitivo ao longo de 44 anos

Estudo longitudinal com 5.162 homens acompanhados por 44 anos não encontrou associação entre uso de cannabis e maior perda cognitiva relacionada à idade.

 

Um estudo longitudinal com 5.162 homens dinamarqueses acompanhados por, em média, 44 anos não encontrou associação entre o uso de cannabis e maior declínio cognitivo relacionado à idade. A pesquisa analisou a trajetória intelectual dos participantes desde o início da vida adulta até o final da meia-idade.

O trabalho foi publicado na revista científica Brain and Behavior, da Wiley Periodicals LLC, e utilizou dados de coortes nacionais da Dinamarca voltadas ao envelhecimento cognitivo.

Como a pesquisa foi conduzida

Os pesquisadores compararam os resultados do teste de inteligência Børge Prien's Prøve, aplicado no momento do recrutamento militar — quando os participantes tinham, em média, 20 anos — com a reaplicação do exame décadas depois, por volta dos 64 anos.

Além dos testes cognitivos, os dados incluíram informações detalhadas sobre estilo de vida, saúde e histórico de uso de cannabis. A análise estatística foi feita por meio de modelos de regressão linear, com o objetivo de identificar possíveis associações entre consumo da substância e variações no desempenho intelectual ao longo do tempo.

Principais achados

De acordo com os autores, homens com histórico de uso de cannabis apresentaram, em média, menor declínio cognitivo ao longo do período analisado quando comparados aos que nunca relataram uso.

Entre os usuários, nem a idade de início do consumo nem o uso frequente mostraram associação significativa com maior perda cognitiva relacionada ao envelhecimento.

Os pesquisadores ressaltam que, embora existam evidências consolidadas sobre efeitos agudos da cannabis na cognição — como alterações temporárias de memória e atenção — os dados de longo prazo observados neste acompanhamento não indicaram impacto negativo significativo na trajetória cognitiva.

O que os dados indicam — e o que não indicam

O estudo não conclui que a cannabis melhore a cognição, mas sugere que o uso autorreferido, dentro do perfil observado na amostra, não esteve associado a aceleração do declínio cognitivo ao longo de quatro décadas.

É importante destacar que a pesquisa foi realizada exclusivamente com homens, o que limita a generalização dos resultados para mulheres ou outras populações. Além disso, fatores como padrão de consumo, potência da substância e contexto sociocultural não foram detalhados de forma aprofundada no resumo publicado.

No cenário internacional, a cannabis permanece classificada como substância de alto potencial de abuso pela Drug Enforcement Administration (DEA) nos Estados Unidos, ainda que diversos países tenham revisado políticas públicas relacionadas ao uso medicinal e recreativo.

Relevância científica

Estudos longitudinais com acompanhamento superior a 40 anos são raros na literatura científica, especialmente quando utilizam medidas padronizadas aplicadas em dois momentos distintos da vida adulta.

Ao ampliar a base de evidências sobre os efeitos de longo prazo da cannabis, a pesquisa contribui para um debate que frequentemente é marcado por posições polarizadas. Os dados reforçam a necessidade de análises baseadas em coortes robustas e acompanhamento prolongado para compreender os reais impactos da substância no envelhecimento cognitivo.

Novas investigações, incluindo amostras mais diversas e diferentes padrões de uso, serão fundamentais para aprofundar a compreensão sobre a relação entre cannabis e função cerebral ao longo da vida.

Uso de cannabis não está associado a maior declínio cog...