Centro da UFMT estrutura polo de pesquisa em Cannabis e avança em genética, regulação e formação científica
Iniciativa em Mato Grosso integra universidade e setor produtivo para desenvolver cultivares, insumos farmacêuticos e ampliar a base científica no Brasil
Publicada em 14/05/2026

Local onde será construído o centro de pesquisa em cannabis da UFMT, em Cuiabá (MT), estrutura que deve impulsionar a produção científica, o desenvolvimento de cultivares e a inovação em cannabis medicinal no Brasil. Foto: divulgação
A consolidação de um polo científico voltado à Cannabis medicinal começa a ganhar contornos mais definidos no Brasil. Em Mato Grosso, o Centro de Estudos e Inovações em Farmacognosia (CEIFMT), vinculado à Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), avança na estruturação de um modelo que conecta pesquisa acadêmica, desenvolvimento tecnológico e перспективas de mercado.
A iniciativa nasce de um acordo formal de pesquisa, desenvolvimento e inovação firmado entre a universidade, sua fundação de apoio e uma empresa do setor, com publicação oficial em 2024. A proposta é criar uma infraestrutura capaz de atender às exigências regulatórias e científicas para o desenvolvimento de produtos de padrão farmacêutico.
O projeto é resultado de uma parceria entre a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a Fundação Uniselva e a empresa BYONGE, voltada ao desenvolvimento de pesquisa, inovação e avanço científico em cannabis no Brasil.
“O CEIFMT é um laboratório vinculado à UFMT, estruturado a partir de um acordo de PD&I que envolve a universidade, a fundação de apoio e a iniciativa privada”, explicou Carlos Eduardo Araújo, diretor executivo da BYONGE.
Segundo ele, a estrutura física está em fase de construção no campus de Cuiabá e foi projetada para operar com padrões rigorosos de controle. “O projeto contempla ambientes dedicados ao cultivo controlado, processamento, extração e controle de qualidade, seguindo requisitos exigidos para instalações de grau farmacêutico”, disse.
A operação regulatória ficará sob responsabilidade da UFMT, que será a titular da autorização junto à Anvisa — um ponto considerado estratégico para garantir segurança jurídica e alinhamento institucional.
Formação científica como eixo central
Além da infraestrutura, o projeto aposta na formação de pesquisadores como um dos principais vetores de desenvolvimento. As bolsas serão ofertadas por meio de editais públicos, vinculadas às linhas de pesquisa do centro.
“As vagas serão divulgadas por editais da universidade, garantindo transparência e ampla concorrência”, afirmou o professor Leonardo Vasconcelos.
Ele detalha que a proposta inclui diferentes níveis de formação. “Pretendemos oferecer bolsas de iniciação científica, mestrado e doutorado, alinhadas aos programas da UFMT e às agências de fomento”, explicou.
A estratégia busca atrair profissionais de diversas áreas, com foco em ampliar a capacidade técnica e científica em torno da Cannabis medicinal no país.

Plataforma aberta para colaboração
O CEIFMT também foi concebido como um ambiente de cooperação científica. A estrutura permitirá a realização de projetos em parceria com instituições públicas e privadas, nacionais e internacionais.
“A infraestrutura estará disponível para parcerias que desejem desenvolver projetos colaborativos, dentro das condições do acordo de PD&I”, disse Carlos Eduardo Araújo.
A proposta é ampliar a inserção do Brasil em redes globais de pesquisa em produtos naturais, especialmente em áreas como fitoquímica e desenvolvimento de biofármacos.
Genética e desenvolvimento de cultivares
Outro eixo estratégico do projeto é o avanço em genética vegetal. O centro já possui uma linha de pesquisa voltada ao desenvolvimento de novas cultivares, com foco na adaptação às condições brasileiras.
“Estamos trabalhando na identificação de variedades com bom desempenho em condições semelhantes às de Mato Grosso”, afirmou Carlos Eduardo Araújo.
Ele acrescenta que há um movimento em curso para ampliar parcerias internacionais. “Estamos iniciando a atração de empresas que possuam genéticas promissoras, visando o melhoramento e o registro dessas cultivares no Brasil”, explicou.
A expectativa é que esse trabalho contribua para estruturar uma base nacional de genética adaptada, um dos gargalos atuais do setor.
Regulação como pilar estruturante
No campo regulatório, o projeto está sendo desenvolvido em conformidade com a legislação brasileira de biodiversidade e com as exigências do SisGen. A governança inclui acompanhamento contínuo das obrigações legais e integração com áreas jurídicas e de inovação.
“A conformidade regulatória é contínua e faz parte da governança permanente do projeto”, disse Carlos Eduardo Araújo.
O tema é considerado central diante da complexidade que envolve o uso de material genético vegetal no país.
Potencial estratégico de Mato Grosso
Para o professor doutor e coordenador geral do CEIFMT/UFMT, Leonardo Vasconcelos, o ambiente natural de Mato Grosso representa uma oportunidade científica relevante para o avanço da Cannabis no Brasil.
“As condições do estado permitem avaliar o comportamento de diferentes quimiotipos sob estresse controlado, o que pode influenciar diretamente a biossíntese de canabinoides”, explicou.
Ele destaca que o projeto foi estruturado para integrar pesquisa e aplicação prática. “Estamos desenvolvendo estudos que envolvem estabilidade fitoquímica, rendimento de biomassa e protocolos de cultivo alinhados às boas práticas agrícolas”, disse.
Na visão do pesquisador, o modelo conecta ciência e mercado. “A proposta é avançar em cultivares protegidas, processos patenteáveis e parcerias para distribuição, acompanhando a demanda crescente por insumos farmacêuticos com qualidade e rastreabilidade”, concluiu.
Com múltiplas frentes em andamento — da formação científica à genética e regulação — o CEIFMT surge como uma das iniciativas mais estruturadas do país para consolidar a pesquisa em Cannabis medicinal em bases institucionais e tecnológicas.


