Afinal, THC produz efeito semelhante aos psicodélicos?
Estudo sugere que doses elevadas de THC podem provocar experiências semelhantes às dos psicodélicos, mas resultados ainda são preliminares. Confira!

E se a cannabis pudesse mudar a maneira como enxergamos o mundo? Em doses elevadas, o THC pode provocar alterações na percepção tão marcantes que, em alguns casos, a experiência se aproxima de efeitos descritos com psicodélicos.
Mas entre uma sensação diferente e uma experiência psicodélica existe um universo de ciência e é justamente nele que os pesquisadores começam a mergulhar.
Um estudo-piloto publicado na revista científica Psychopharmacology investigou se doses elevadas de Delta-9-tetrahidrocanabinol (Δ9-THC), principal composto psicoativo da cannabis, poderiam produzir experiências semelhantes às provocadas pela psilocibina, um psicodélico clássico.
O resultado chamou atenção, mas precisa ser interpretado com cautela: apenas quatro adultos saudáveis participaram da pesquisa. Por isso, os próprios autores consideram os achados preliminares.
THC psicodélico: o que isso significa?
O termo pode causar confusão. Embora o THC possa produzir alterações de percepção e consciência que lembram algumas experiências psicodélicas, isso não significa que ele seja um psicodélico clássico.
O THC atua principalmente no sistema endocanabinoide, especialmente nos receptores CB1. Já a psilocibina, depois de convertida em psilocina no organismo, atua principalmente sobre o sistema serotoninérgico, com destaque para os receptores 5-HT2A.
Ou seja, as substâncias possuem mecanismos de ação diferentes.
A semelhança está principalmente na experiência subjetiva que pode ocorrer em determinadas condições.
Segundo a médica especialista em cannabis medicinal Marianna Coimbra, a resposta ao THC pode variar bastante entre indivíduos.
“Os efeitos dependem de fatores como dose, sensibilidade individual, histórico de uso, estado emocional e ambiente. Algumas pessoas podem apresentar alterações importantes na percepção, enquanto outras terão efeitos muito diferentes", explica Dra. Marianna.
O que acontece com doses altas de THC?
A intensidade dos efeitos do THC não depende apenas da quantidade utilizada. Como bem disse a médica, o organismo de cada pessoa, a experiência prévia com cannabis e até o ambiente podem influenciar a resposta.
Em doses elevadas, podem ocorrer alterações na percepção do tempo, sensação corporal, atenção, memória e processamento de estímulos.
Para algumas pessoas, a experiência pode ser agradável. Para outras, o THC pode provocar desconforto.
Entre os possíveis efeitos estão:
- ansiedade;
- confusão;
- sonolência;
- prejuízo da coordenação;
- alterações perceptivas;
- aumento da frequência cardíaca.
Por isso, uma experiência mais intensa não significa necessariamente um efeito melhor ou mais terapêutico.
“Na medicina canabinoide, mais não significa necessariamente melhor. O aumento da dose pode ampliar tanto os efeitos desejados quanto os efeitos adversos”, pontua a médica.
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THC e psilocibina são a mesma coisa?
Não. A comparação feita pelos pesquisadores serve para investigar possíveis semelhanças nas experiências produzidas pelas duas substâncias, e não para classificá-las como equivalentes.
No estudo, os participantes receberam doses de THC e psilocibina em um ambiente controlado. Os pesquisadores observaram que doses elevadas de THC produziram, em alguns casos, efeitos subjetivos que se aproximaram daqueles relatados com a psilocibina.
O contexto também teve importância.
Os participantes permaneceram em um ambiente preparado para pesquisas com psicodélicos, com acompanhamento de profissionais treinados, máscaras para os olhos e música durante as sessões.
Esse cenário está relacionado ao conceito de set and setting, que considera tanto o estado psicológico da pessoa quanto o ambiente em que a experiência acontece.
Isso ajuda a explicar por que duas pessoas podem reagir de maneiras completamente diferentes à mesma substância.
Na cannabis medicinal, o objetivo é justamente encontrar uma estratégia individualizada, considerando a condição clínica, a dose, a formulação utilizada, outros medicamentos e a resposta de cada paciente.
“O acompanhamento profissional permite avaliar indicação, dose, formulação e resposta individual. O tratamento precisa ser individualizado", afirma dra. Marianna.
O que o estudo realmente revela?
Mais do que oferecer uma resposta definitiva, a pesquisa abre uma nova pergunta para a ciência.
Em determinadas condições, doses elevadas de THC podem produzir experiências subjetivas semelhantes, em alguns aspectos, às provocadas por psicodélicos clássicos. Mas isso não significa que cannabis e psilocibina sejam equivalentes ou que o THC deva ser classificado automaticamente como um psicodélico.
Para quem utiliza cannabis medicinal, a mensagem mais importante é a cautela.
Resultados experimentais não devem ser interpretados como incentivo à automedicação ou ao uso de doses elevadas de THC. A resposta ao composto é individual e pode envolver tanto efeitos desejados quanto reações adversas.
No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas se o THC produz uma experiência semelhante à dos psicodélicos, mas sim, entender como uma substância pode alterar nossa percepção da realidade e o que essas mudanças revelam sobre o funcionamento do cérebro.
