Cannabis fumada cai após venda em farmácias na Suíça
Cannabis fumada caiu entre participantes de estudo suíço após acesso regulado em farmácias. Entenda os resultados e o que eles mostram.

A cannabis fumada perdeu espaço entre participantes de um estudo suíço que passaram a comprar produtos de cannabis em farmácias, segundo os primeiros resultados do projeto SCRIPT. Após seis meses, a proporção de pessoas que consumiam exclusivamente cannabis fumada caiu de 78% para 58% no grupo que teve acesso às farmácias.
O resultado chama atenção porque a frequência de consumo permaneceu praticamente estável. Em vez de consumir mais, os participantes parecem ter diversificado as formas de uso, com maior presença de alternativas sem combustão.
O estudo foi realizado em Berna, Biel e Lucerna e acompanha 1.177 adultos que já consumiam cannabis regularmente. Os resultados preliminares foram divulgados em setembro de 2026 pelas cidades envolvidas no projeto e pelas instituições responsáveis pela pesquisa.
Cannabis fumada cai de 78% para 58%
O principal dado divulgado pelo SCRIPT está relacionado à forma de consumo.
Entre as pessoas que tiveram acesso à compra regulada em farmácias, a proporção de participantes que utilizavam exclusivamente cannabis fumada passou de 78% para 58% após seis meses.
No grupo de comparação, que inicialmente não tinha acesso às farmácias, essa proporção apresentou pouca mudança.
Ao mesmo tempo, a frequência geral de consumo permaneceu praticamente estável. Ou seja, os resultados não indicaram um aumento do número de vezes em que os participantes consumiam cannabis durante o período analisado.
SAIBA MAIS: Aposta na redução de danos: dicas para consumir cannabis de forma mais segura
A mudança observada parece estar relacionada principalmente à possibilidade de escolher entre diferentes formas de administração e receber orientação profissional sobre os produtos.
Cannabis medicinal e redução de danos
Embora o estudo trate de uso recreativo de cannabis, e não de cannabis medicinal, a lógica de redução de danos presente na pesquisa também ajuda a ampliar o debate sobre formas de administração.
As nove farmácias participantes disponibilizaram flores, resinas e líquidos para vaporizadores produzidos especificamente para o estudo. Os produtos tinham composição conhecida e eram acompanhados por informações sobre riscos, formas de utilização e alternativas à combustão.
Segundo os resultados divulgados, 71% dos participantes afirmaram ter compartilhado com outras pessoas as orientações de redução de danos recebidas nas farmácias.
O responsável pelo estudo, Reto Auer, da Universidade de Berna, afirmou que os dados indicam que a venda regulada pode favorecer a transição para formas de consumo potencialmente menos arriscadas.
É importante, porém, separar essa observação de uma conclusão sobre segurança. Vaporização e uso oral não são automaticamente isentos de riscos, e os efeitos dependem de fatores como produto, dose, frequência e características individuais.
O que mudou para quem comprava cannabis?
Além da redução da cannabis fumada, os participantes relataram aspectos positivos relacionados ao acesso regulado.
Entre os pontos mencionados nas entrevistas estavam:
- composição conhecida dos produtos;
- qualidade considerada mais constante;
- ambiente profissional das farmácias;
- orientação sobre redução de danos;
- possibilidade de conhecer alternativas à combustão.
Também apareceram dificuldades. Alguns participantes relataram problemas com determinados dispositivos de vaporização, dúvidas relacionadas à dosagem e percepção de pouca variedade de produtos.
Estudo suíço ainda terá resultados de longo prazo
Apesar dos números chamarem atenção, é preciso olhar para eles com cuidado.
Os dados divulgados correspondem apenas ao primeiro período do estudo e ainda não foram publicados em um artigo científico revisado por pares. Além disso, a pesquisa avalia conjuntamente a venda regulada e o aconselhamento oferecido nas farmácias. Por isso, não é possível determinar quanto da mudança observada veio especificamente da comercialização e quanto pode estar relacionado à orientação profissional.
O SCRIPT foi autorizado a continuar até o final de 2029. O acesso aos produtos está previsto até outubro de 2028, permitindo acompanhar os participantes por um período mais longo.
A Suíça também conduz outros projetos-piloto para avaliar diferentes modelos de acesso regulado à cannabis. A proposta é produzir evidências que ajudem a compreender os impactos desses modelos sobre consumo, saúde e comportamento.
Por enquanto, o que a pesquisa oferece é uma fotografia inicial: quando pessoas que já consumiam cannabis passaram a ter acesso a produtos regulados e orientação profissional, a cannabis fumada perdeu espaço sem que a frequência geral de consumo aumentasse.
Para a ciência, talvez esteja justamente aí a parte mais interessante. Nem sempre mudar o acesso significa simplesmente aumentar ou reduzir o consumo. Em alguns contextos, a mudança pode estar na forma como as pessoas consomem.
Fonte: conteúdo exclusivamente publicado no portal Canhamo.net
