Cannabis no Peru: o que impede o tratamento de chegar?
Cannabis no Peru é regulamentada, mas o acesso ainda trava: veja como 67,6% dos produtos autorizados não chegaram ao país e o que está por trás dos números.

Regulamentação do cannabis no Peru avança, mas acesso falha
- Estudo da DIGEMID revela gargalo no Peru entre a lei e o mercado: 67,6% dos produtos de cannabis medicinal autorizados entre 2019 e 2025 nunca foram importados. Apesar de avanços nas regras e cultivo associativo, burocracia e falhas de distribuição deixam pacientes sem os remédios nas farmácias.
Cannabis no Peru - No papel, a história parece de avanço. Na vida real, porém, existe uma distância entre aquilo que a lei promete e aquilo que chega às mãos de quem precisa. Na histórida da cannabis no Peru, um novo estudo mostra que a regulamentação cresceu, mas o acesso aos produtos medicinais continua enfrentando obstáculos.
Cannabis no Peru: o que mudou na regulamentação?
O Peru regulamentou o uso medicinal e terapêutico do cannabis em 2017. Desde então, o país ampliou as regras para pesquisa, produção, importação, comercialização e, posteriormente, para a produção artesanal associativa.
O regulamento atualmente vigente foi aprovado em 2023 pelo Decreto Supremo nº 004-2023-SA. A legislação também prevê o cultivo associativo para fins medicinais e terapêuticos.
Para o paciente de cannabis no Peru, entretanto, ter uma legislação não significa necessariamente encontrar o produto disponível.
É justamente essa diferença que chama atenção em um estudo publicado pela própria Direção Geral de Medicamentos, Insumos e Drogas (DIGEMID) na Revista Ciencia, Política y Regulación Farmacéutica.
Entre 2019 e 2025, foram concedidas 79 licenças relacionadas à importação, comercialização ou produção de cannabis medicinal. No mesmo período, 37 produtos receberam registro sanitário.
Mas existe um detalhe importante: apenas 12 desses 37 produtos registraram importação efetiva.
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Cannabis medicinal no Peru: onde está o gargalo?
O estudo aponta que 67,6% dos produtos com registro sanitário não apresentaram registro de entrada no país durante o período analisado.
Em outras palavras, o produto podia estar autorizado pelas autoridades sanitárias, mas isso não significava que estivesse efetivamente disponível para quem precisava dele.
A pesquisa descreve o cenário como uma expansão inicial do mercado formal seguida por uma retração operacional, criando uma brecha entre autorização regulatória e disponibilidade efetiva.
O dado ajuda a explicar por que a discussão sobre acesso não termina quando um produto recebe autorização.
Para chegar ao paciente, é necessário que diferentes etapas funcionem de forma integrada:
- registro sanitário;
- importação ou produção;
- distribuição;
- comercialização;
- disponibilidade em estabelecimentos autorizados;
- prescrição e acompanhamento médico.
Quando uma dessas etapas não funciona, a regulamentação pode existir no papel sem produzir o mesmo efeito na rotina dos pacientes.
O que os números revelam sobre o mercado?
O levantamento da DIGEMID identificou 172 operações efetivas de importação entre 2019 e 2025, totalizando 73.322,1 kg de produtos derivados de cannabis.
A maior parte das importações foi de produtos acabados, que representaram 96,6% do volume. Colômbia e Estados Unidos responderam por 99,8% da origem das importações.
Outro dado chama atenção: entre os 37 produtos registrados, 23 permaneciam vigentes ao final de 2025, enquanto os demais haviam sido cancelados ou estavam vencidos.
A forma farmacêutica predominante foi a solução oral, presente em 67,6% dos registros. Entre os produtos que efetivamente foram importados e possuíam registro sanitário, epilepsia ou convulsões apareceram como indicação ou uso recomendado em nove casos.
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Como o paciente acessa o cannabis medicinal no Peru?
Segundo o Ministério da Saúde peruano, os produtos legalmente autorizados incluem medicamentos ou produtos farmacêuticos com registro sanitário vigente, produtos com autorização excepcional de importação para tratamentos individuais e preparados farmacêuticos individualizados, elaborados mediante receita.
O paciente de cannabis no Peru também precisa estar inscrito no Registro Nacional de Pacientes Usuários de Cannabis e seus Derivados para Uso Medicinal e Terapêutico (RENPUC), além de possuir prescrição médica e procurar estabelecimentos autorizados.
A DIGEMID mantém uma relação de estabelecimentos licenciados para importar e comercializar produtos derivados de cannabis medicinal.
O próprio Ministério da Saúde recomenda que os produtos de cannabis no Peru sejam adquiridos somente em farmácias e boticas autorizadas e alerta contra a compra pela internet ou pelas redes sociais. Também reforça que o uso deve ocorrer sob supervisão médica.
Regulamentar é diferente de garantir acesso
Os dados do Peru colocam uma questão que ultrapassa as fronteiras do país: o que acontece depois que uma terapia é legalizada?
O estudo não permite determinar quantas pessoas precisam de cannabis no Peru, quantas conseguem efetivamente iniciar ou manter seus tratamentos ou quantas recorrem a canais informais.
Mas os números revelam uma dificuldade concreta: existe uma estrutura regulatória, mas parte importante dos produtos autorizados não chega ao mercado.
É nesse espaço entre a norma e a vida real que o acesso ainda precisa avançar.
