Psicodélicos

Enteógenos: por que o mundo voltou a olhar para eles?

Usados por povos tradicionais há séculos, os enteógenos voltam ao centro do debate científico, terapêutico e cultural sobre saúde mental. Veja!

Enteógenos: por que o mundo voltou a olhar para eles?
Drogas enteógenas fazem parte de tradições ancestrais e hoje também são investigadas pela ciência por seus possíveis efeitos terapêuticos | CanvaPro

Os enteógenos fazem parte de uma história muito mais antiga que a ciência moderna. Plantas, fungos e preparações psicoativas são utilizados há séculos por diferentes povos em cerimônias, práticas espirituais e sistemas tradicionais de cuidado. 

Hoje, esse conhecimento ancestral encontra universidades, pesquisas clínicas e um novo interesse da medicina.

Mais do que substâncias capazes de alterar a percepção, os enteógenos carregam histórias, territórios e formas próprias de compreender a relação entre corpo, mente, comunidade e natureza.

O que são drogas enteógenas?

O termo enteógeno é usado para descrever substâncias psicoativas, principalmente de origem vegetal ou fúngica, associadas a experiências espirituais, religiosas, ritualísticas ou de autoconhecimento.

Entre os exemplos mais conhecidos estão:

Embora os termos “enteógeno”, “psicodélico” e “alucinógeno” muitas vezes apareçam como sinônimos, eles possuem diferenças importantes. 

“Psicodélico” costuma estar relacionado ao efeito de determinadas substâncias sobre percepção e consciência. Já “enteógeno” destaca principalmente o contexto espiritual e cultural da experiência.

A origem ancestral dos enteógenos

Muito antes de existirem estudos clínicos, diferentes sociedades já conheciam plantas e fungos capazes de modificar estados de consciência.

Na Mesoamérica, há registros históricos e antropológicos relacionados ao uso ritual de cogumelos com psilocibina. 

O peiote também possui uma longa tradição cerimonial entre povos indígenas da América do Norte.

Na região amazônica, diferentes povos desenvolveram conhecimentos sobre plantas utilizadas na preparação da ayahuasca. A bebida passou a integrar tradições religiosas e espirituais diversas, especialmente no Brasil e em outros países da América do Sul.

Esses usos não podem ser separados dos contextos em que nasceram. Em muitas tradições, a preparação, o ritual, a comunidade e a figura de quem conduz a experiência fazem parte do próprio conhecimento.

Por isso, quando a ciência contemporânea investiga essas substâncias, também surge uma questão fundamental: como estudar seus possíveis benefícios sem apagar os povos que preservaram esses saberes?

Ayahuasca e conhecimento tradicional

A ayahuasca é um dos enteógenos mais conhecidos atualmente. Sua preparação tradicional combina o cipó Banisteriopsis caapi com plantas que contêm DMT, como Psychotria viridis ou, na ritualística, chamadas de mariri e chacrona.

A bebida produz alterações profundas na percepção e na consciência e está associada a diferentes tradições religiosas e indígenas.

No Brasil, o uso religioso da ayahuasca possui regulamentação específica. A Resolução CONAD nº 1/2010 estabeleceu normas e procedimentos para o uso religioso da bebida.

Isso não significa, porém, que a ayahuasca seja isenta de riscos ou que qualquer forma de consumo seja considerada tratamento médico. São contextos diferentes, com objetivos e regras próprios.

Psilocibina e o interesse da ciência

A psilocibina, presente em determinadas espécies de cogumelos, é outro enteógeno que ganhou destaque nas pesquisas contemporâneas.

Seu uso tradicional por povos da Mesoamérica atravessa séculos. Na ciência moderna, a substância voltou a ser estudada principalmente por seu potencial em saúde mental.

Pesquisas clínicas investigam seu uso em condições como depressão, ansiedade e transtornos relacionados ao uso de substâncias. Os resultados iniciais são considerados promissores em alguns contextos, mas ainda existem questões sobre eficácia, segurança, dose, seleção de pacientes e acompanhamento.

É importante fazer uma distinção: resultados positivos em estudos clínicos não significam que o uso da substância por conta própria seja um tratamento comprovado.

Nos estudos, a experiência costuma ocorrer dentro de protocolos que incluem avaliação, preparação, ambiente controlado, acompanhamento profissional e integração posterior.

Como os enteógenos são usados hoje?

Atualmente, os enteógenos aparecem em contextos muito diferentes. Podem estar presentes em cerimônias tradicionais, práticas religiosas, pesquisas científicas, estudos de saúde mental e também no uso recreativo.

Essa diversidade torna o contexto essencial para compreender seus efeitos.

Entre os fatores que podem influenciar uma experiência estão:

  • estado físico e psicológico;
  • ambiente;
  • dose e substância utilizada;
  • presença de outras substâncias ou medicamentos;
  • acompanhamento durante a experiência;
  • preparação e suporte posterior.

O chamado “renascimento psicodélico” também trouxe os enteógenos para o centro das discussões sobre novos caminhos para o cuidado em saúde mental.

Ancestralidade também precisa estar no debate

O interesse crescente da ciência e da indústria pelos psicodélicos levanta uma discussão que vai além da medicina.

Povos indígenas e comunidades tradicionais têm alertado para os riscos de apropriação cultural e exploração de conhecimentos construídos ao longo de gerações.

O debate contemporâneo, portanto, precisa considerar não apenas moléculas, patentes e resultados clínicos, mas também território, cultura, soberania e reconhecimento.

A ciência pode ajudar a compreender mecanismos de ação, benefícios e riscos. Os conhecimentos tradicionais lembram, por outro lado, que essas experiências não começaram nos laboratórios.

Entre a memória e a ciência

A história dos enteógenos atravessa gerações. Antes de se tornarem moléculas estudadas em universidades, eles já faziam parte de rituais, histórias e sistemas tradicionais de conhecimento.

Hoje, ciência e ancestralidade se encontram diante de uma oportunidade, mas também de uma responsabilidade.

Talvez o caminho não esteja em transformar os enteógenos em promessa de cura, nem em reduzi-los a substâncias proibidas ou perigosas. Está em compreender sua complexidade, investigar seus possíveis usos com rigor e respeitar os povos que mantiveram vivos esses conhecimentos.

Porque, antes de chegar aos laboratórios, essa história já existia. E continua sendo contada por quem aprendeu, há muitas gerações, a olhar para a natureza como parte do cuidado.