“O Brasil construiu um modelo mais humanizado”, diz Beto Brant sobre cannabis medicinal

Em entrevista ao Deusa Cast, Beto Brant analisa o papel das associações de pacientes e compara os modelos de cannabis medicinal do Brasil e do Uruguai

Publicada em 07/01/2026

“O Brasil construiu um modelo mais humanizado”, diz Beto Brant sobre cannabis medicinal

Para o cineasta, as associações fortalecem acesso à cannabis medicinal no Brasil | Foto: Sechat

Em entrevista ao Deusa Cast, podcast oficial do portal Sechat, o cineasta Beto Brant, diretor do documentário A Planta, comentou as diferenças entre o modelo brasileiro e o uruguaio de acesso à cannabis medicinal, com foco no papel desempenhado pelas associações de pacientes. 


Segundo ele, embora o Uruguai tenha um marco regulatório pioneiro, o Brasil construiu uma rede de acolhimento mais estruturada, impulsionada pela organização da sociedade civil e pelo atendimento direto às necessidades terapêuticas dos pacientes.

Acolhimento estruturado e atuação das associações


Durante a conversa com o neurocirurgião Dr. Pedro Pierro, Brant destacou que associações brasileiras, como a APEPI, desenvolveram setores específicos voltados ao acolhimento do paciente, algo que, segundo sua observação, não ocorre com a mesma intensidade no Uruguai.


Essas entidades atuam como um elo entre pacientes e profissionais de saúde, oferecendo desde a indicação de médicos prescritores até o acompanhamento contínuo da evolução clínica. No Brasil, a organização coletiva de pacientes e cuidadores contribui para maior segurança no fornecimento dos óleos e para a continuidade do tratamento, especialmente em casos de patologias graves.


A complexidade da cannabis e o uso do “full spectrum”


Outro ponto abordado foi a complexidade da cannabis enquanto fitoterápico. Brant explicou que, diferentemente de medicamentos de molécula isolada, a planta apresenta variações agronômicas que resultam em extratos com composições distintas.

Nesse contexto, o suporte técnico das associações e o conhecimento do médico sobre o tipo de óleo utilizado tornam-se fundamentais. 

O conceito de full spectrum, que envolve o uso integral dos compostos da planta, foi citado como relevante no manejo de sintomas, sobretudo em situações em que tratamentos convencionais não oferecem resposta satisfatória.


Qualidade de vida e impacto no núcleo familiar


O cineasta também trouxe uma reflexão sobre a diferença entre a busca pela cura e a busca por qualidade de vida. Ele relembrou o depoimento de uma paciente uruguaia que resumiu sua expectativa em relação ao tratamento: “Eu não quero cura, eu só quero viver melhor”.


Segundo Brant, essa mudança de perspectiva é perceptível em famílias de crianças com epilepsia refratária. A redução significativa das crises convulsivas não impacta apenas a saúde da criança, mas também a rotina, a dignidade e a qualidade de vida de todo o núcleo familiar envolvido no cuidado.


A conversa reforçou ainda que o modelo brasileiro, apesar de ainda enfrentar disputas jurídicas, se sustenta por instrumentos como o habeas corpus e pela atuação de cultivadores integrados às associações. A articulação entre conhecimento técnico, respaldo jurídico e demanda médica permitiu a formação de um ecossistema de cannabis medicinal marcado pela organização e pelo suporte direto ao paciente.


Assista ao corte do Deusa Cast e confira a análise de Beto Brant sobre os diferentes caminhos da cannabis medicinal no Brasil e no mundo: