Alemães publicam primeiro estudo nacional sobre efeitos de curto prazo da legalização da cannabis
Estudo publicado na The Lancet indica que legalização da cannabis na Alemanha não aumentou consumo nem direção sob efeito no curto prazo
Publicada em 13/02/2026

Legalização parcial reduz crimes e mantém consumo estável na Alemanha | CanvaPro
Oito meses após a legalização parcial da cannabis na Alemanha, os dados científicos mais abrangentes disponíveis indicam estabilidade tanto no consumo quanto na direção sob efeito da substância, sem evidências de aumento significativo nos indicadores de risco viário no curto prazo.
A avaliação é considerada a primeira análise nacional do impacto da medida em um país europeu. O estudo foi conduzido por pesquisadores do Centro Médico Universitário de Hamburgo-Eppendorf (UKE) e publicado na The Lancet Regional Health – Europe.
Metodologia: comparação com a Áustria
A pesquisa utilizou um modelo quase experimental de diferença-em-diferenças (DiD), comparando dados da Alemanha — onde a lei mudou — com a Áustria, onde a cannabis permanece ilegal. Foram analisados períodos antes da legalização (novembro–dezembro de 2023) e após a implementação (novembro de 2024 a janeiro de 2025).
Ao todo, 18.494 pessoas participaram dos levantamentos no período pós-lei. A metodologia permitiu isolar o efeito da mudança legislativa de tendências já existentes nos dois países.
Consumo: aumento sem diferença estatística
Na Alemanha, a prevalência de uso de cannabis nos últimos 12 meses entre adultos de 18 a 64 anos passou de 12,1% para 14,4% após a legalização. No entanto, essa elevação não foi estatisticamente diferente da observada na Áustria (OR=1,18; IC95% 0,95–1,48; p=0,141), indicando que a variação pode refletir tendências já em curso, e não um efeito direto da nova legislação.
Os resultados permaneceram consistentes após ajustes para fatores sociodemográficos e comportamentais.
Direção sob efeito da cannabis (DUIC)
Entre usuários com consumo mensal ou mais frequente — grupo analisado para avaliar direção sob efeito da substância (DUIC) — houve leve redução nos relatos, de 28,5% para 26,8%. Assim como no consumo geral, a variação não apresentou diferença estatisticamente significativa em comparação com o país controle (aOR=0,68; IC95% 0,27–1,68; p=0,408).
Cerca de 21,5% dos episódios recentes envolveram uso combinado com álcool ou outras drogas, associação reconhecida como fator de maior risco para acidentes de trânsito. Aproximadamente quatro em cada cinco episódios envolveram apenas cannabis.
Usuários diários concentraram maior proporção de episódios exclusivos com cannabis, enquanto consumidores semanais apresentaram mais casos de uso combinado — perfil que, segundo os pesquisadores, pode representar risco potencialmente mais elevado para a segurança viária.
Marco regulatório
A Lei CanG entrou em vigor em abril de 2024, autorizando posse limitada e cultivo doméstico para uso adulto. Em agosto do mesmo ano, a Alemanha estabeleceu o novo limite legal de 3,5 nanogramas de THC por mililitro de sangue para motoristas adultos, mantendo regras mais rígidas para condutores iniciantes e para casos de uso combinado com álcool.
O que dizem os pesquisadores
Em reportagem da Cannabis Health News, os autores do estudo afirmaram que, no período analisado, não houve impacto de curto prazo no consumo de cannabis ou na direção sob efeito da substância após a legalização na Alemanha.
Segundo os pesquisadores ouvidos pela publicação, os resultados devem ser interpretados com cautela, já que o tempo de acompanhamento ainda é limitado. Eles ressaltam que serão necessários estudos com períodos mais longos de observação e novas bases de dados — especialmente envolvendo acidentes com veículos motorizados, uso de substâncias e informações toxicológicas — para monitorar as implicações de longo prazo da lei.
Avaliação EKOCAN: primeiros achados
A mesma reportagem destaca resultados preliminares do projeto EKOCAN, financiado pelo Ministério Federal da Saúde da Alemanha, que conduz uma avaliação científica independente sobre os efeitos da CanG na proteção de crianças e jovens, na saúde pública e na criminalidade relacionada à cannabis.
Os dados iniciais, divulgados no fim de 2025, indicam que, no primeiro ano de legalização, o número de usuários adolescentes e adultos não mudou de forma significativa.
O coordenador do EKOCAN, Dr. Jakob Manthey, do Centro de Pesquisa Interdisciplinar em Dependência do Centro Médico Universitário de Hamburgo-Eppendorf, afirmou ao Cannabis Health News que os dados disponíveis indicam que, após a legalização parcial em 2024, o número de usuários de cannabis e a extensão dos problemas de saúde relacionados ao consumo mudaram muito pouco no curto prazo.
Segundo a publicação, o uso entre adolescentes vem diminuindo desde 2019, e essa tendência de queda parece ter continuado mesmo após a mudança na legislação. O professor Dr. Daniel Kotz, da Universidade Médica de Düsseldorf, também declarou ao periódico que os dados disponíveis até o momento mostram que a tendência de redução na proporção de adolescentes que consomem cannabis se manteve após a legalização parcial.
Queda nos registros criminais e dinâmica de mercado
De acordo com a reportagem, as infrações relacionadas à cannabis registradas pela polícia caíram entre 60% e 80%. As Estatísticas Policiais de Criminalidade da Alemanha de 2024 apontaram mais de 100 mil casos a menos em comparação ao ano anterior, reflexo do fim da persecução penal para consumidores de baixo nível.
O professor Dr. Jörg Kinzig, diretor do Instituto de Criminologia da Universidade de Tübingen, afirmou ao Cannabis Health News que a legalização parcial representa a mais significativa descriminalização quantitativa na história da República Federal da Alemanha. Ainda assim, ele destacou que são necessários mais dados e um período maior de observação para avaliar em detalhe os efeitos da lei sobre o crime organizado e as práticas policiais e judiciais.
O relatório intermediário do EKOCAN incorporou informações de 12 pesquisas e 20 bases de dados rotineiras. Entre os achados sobre dinâmica de mercado, o estudo indica que a cannabis medicinal representa cerca de 12% a 14% da demanda total, enquanto associações de cultivo produziram menos de 0,1% do volume necessário. Segundo o relatório citado pela publicação, essas associações ainda não deram contribuição relevante para a redução do mercado ilegal, como era pretendido.
O conjunto das evidências reforça que, no curto prazo, a legalização parcial não provocou aumentos significativos no consumo ou na direção sob efeito da cannabis, mas os próprios pesquisadores destacam que o acompanhamento contínuo será fundamental para avaliar impactos estruturais ao longo dos próximos anos.
Com informações de Cannabis Health News.



