Cannabis como ferramenta para se reconectar consigo mesmo
A médica clínica geral Marianna Coimbra Arzamendia explica como a cannabis medicinal pode atuar na regulação do estresse e da ansiedade, favorecendo a reconexão com o corpo e as emoções em contextos terapêuticos
Publicada em 16/04/2026

A cannabis medicinal tem sido utilizada como ferramenta terapêutica para promover reconexão com o corpo e auxiliar no tratamento da ansiedade e do estresse | CanvaPro
Em meio ao ruído constante da vida moderna, notificações, prazos, cobranças internas, há um corpo que pede pausa. Um corpo que, muitas vezes, já não é ouvido. É nesse território sensível, onde emoção e fisiologia se entrelaçam, que a cannabis medicinal começa a ocupar um espaço discreto, porém significativo: o de ponte entre o indivíduo e sua própria experiência interna.

No consultório, a médica clínica geral Dra. Marianna Coimbra Arzamendia acompanha pacientes que chegam exaustos, atravessados por estresse e ansiedade. Mais do que tratar sintomas, o cuidado passa por reconstruir vínculos, inclusive aquele mais essencial: o vínculo consigo mesmo.
“A cannabis pode atuar como uma ferramenta de reconexão com o próprio corpo e as emoções por meio da modulação do sistema endocanabinoide, que participa diretamente da regulação do estresse, da percepção corporal e do processamento emocional”, explica.
Segundo ela, quando inserida em um contexto terapêutico, a substância pode favorecer um estado de maior atenção às sensações internas e aos estados afetivos, reduzindo padrões automáticos de evitação.
Em doses e formulações adequadas, especialmente com predominância de CBD ou equilíbrio entre CBD e THC, observa-se uma espécie de desaceleração do excesso, ou seja, menos hiperatividade ansiosa, mais espaço para sentir. “Esse processo tende a facilitar um contato mais direto com a experiência interna, o que pode ser útil tanto em psicoterapia quanto em práticas estruturadas de autoconhecimento”, complementa.
O corpo que volta a falar
Entre os relatos mais comuns dos pacientes, há uma redescoberta do próprio corpo. Sensações antes ignoradas passam a ocupar um novo lugar de atenção.
“Entre as sensações mais frequentemente relatadas estão o aumento da percepção corporal, como maior consciência da respiração, da tensão muscular e dos batimentos cardíacos, além de uma sensação de desaceleração do fluxo de pensamentos”, afirma a médica.
Há também um movimento emocional que emerge com mais clareza. Emoções antes evitadas encontram espaço para existir. “É comum o relato de maior acesso a emoções previamente evitadas, ampliação da introspecção e da autorreflexão, bem como uma capacidade maior de observar pensamentos com certo distanciamento, sem se identificar completamente com eles.”
Mas o caminho exige cuidado. A mesma substância que abre portas internas pode, em contextos inadequados, intensificar desconfortos. “Especialmente em doses mais elevadas de THC, podem surgir efeitos indesejáveis como ansiedade, hipervigilância ou intensificação de pensamentos ruminativos”, alerta. Por isso, a individualização da dose e o contexto de uso são fundamentais.
Para quem esse caminho faz sentido?
Não há um perfil único. Não há fórmula pronta. Mas há caminhos que tendem a ser mais férteis. “Pacientes com dificuldade de acesso emocional, padrões de evitação, ansiedade com excesso de controle cognitivo ou quadros de dor crônica com componente central podem apresentar melhor resposta”, explica Dra. Marianna.
A integração com processos terapêuticos também faz diferença. “Indivíduos já engajados em psicoterapia, especialmente em abordagens que valorizam a atenção ao corpo e à experiência interna, tendem a integrar melhor os efeitos da cannabis".
Por outro lado, há limites claros que precisam ser respeitados. “É necessário cautela em casos de transtornos psicóticos, histórico de psicose, transtorno bipolar, sobretudo pelo risco de indução de mania, e em pacientes com ansiedade associada a despersonalização intensa", avalia.
Nesse cenário, o ambiente, a intenção e o acompanhamento clínico deixam de ser detalhes e passam a ser parte essencial da experiência.
Quando o cuidado encontra presença
Mais do que um recurso isolado, a cannabis pode atuar como facilitadora de práticas que já convidam ao encontro interno.
“O uso consciente da cannabis pode potencializar práticas que envolvem atenção interna e processamento emocional”, destaca Dra. Marianna. Entre elas, técnicas de mindfulness, meditação guiada e terapias somáticas ganham profundidade ao se beneficiarem de uma percepção corporal mais ampliada.
Há também espaço para o cotidiano terapêutico: “Pode favorecer processos em psicoterapia de caráter mais introspectivo, facilitar exercícios de respiração ao intensificar a percepção dos padrões respiratórios, ampliar a fluidez em escrita terapêutica e auxiliar em técnicas de regulação emocional, como identificação e nomeação de emoções", finaliza.
No fundo, o que se desenha não é uma solução imediata, mas um convite. Um retorno gradual, e por vezes delicado, ao próprio corpo, às próprias emoções, à própria história.


