Ciência & Tecnologia

Cannabis na adolescência pode deixar marcas no cérebro?

Cannabis na adolescência pode provocar alterações duradouras? Estudo em camundongos aponta um mecanismo celular. Entenda a descoberta.

Cannabis na adolescência pode deixar marcas no cérebro?
Cannabis na adolescência é investigada por cientistas em estudo que identificou alterações temporárias nas mitocôndrias cerebrais | CanvaPro

Cannabis na adolescência: estudo revela efeitos duradouros

  • O que acontece quando o THC encontra um cérebro ainda em desenvolvimento? Um novo estudo francês identificou um mecanismo celular que pode ajudar a explicar efeitos duradouros da cannabis na adolescência. Entenda a descoberta.

A adolescência é um tempo de descobertas, mas também de profundas transformações no cérebro. Um novo estudo sobre cannabis na adolescência identificou, em camundongos, um mecanismo celular que pode ajudar a explicar por que a exposição ao THC nessa fase está associada a alterações comportamentais que permanecem na vida adulta.

A descoberta coloca as mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia das células, no centro dessa história. E ajuda a responder uma pergunta que a ciência tenta entender há anos: como uma alteração passageira durante o desenvolvimento pode deixar efeitos que permanecem depois?

Neste artigo você vai ver:

  • O que o estudo descobriu sobre cannabis na adolescência
  • Como o THC interferiu nas mitocôndrias dos camundongos
  • O papel da proteína NDUFS4
  • Por que os resultados foram diferentes entre machos e fêmeas
  • O que a descoberta significa e o que ainda não significa para humanos

Cannabis na adolescência e o cérebro em desenvolvimento

O trabalho foi realizado por pesquisadores ligados ao Inserm e ao Neurocentre Magendie, em Bordeaux, na França, em colaboração com pesquisadores de outros países europeus.

Publicado na revista Neuropsychopharmacology, o estudo avaliou camundongos adolescentes expostos diariamente ao THC durante dez dias. Depois, quando chegaram ao início da idade adulta, os animais passaram por testes de atividade física, interação social e memória de trabalho.

Nos machos expostos ao THC, os pesquisadores observaram maior atividade física, menor sociabilidade e alterações no desempenho de um teste de memória de trabalho.

Nas fêmeas, essas alterações comportamentais não apareceram da mesma maneira.

A diferença chamou a atenção dos cientistas e levou a investigação para dentro das células cerebrais.

SAIBA MAIS: Córtex em construção: o que pais precisam saber sobre cannabis e adolescência
 

Como o THC afeta as mitocôndrias?

As mitocôndrias funcionam como pequenas centrais de energia das células. No cérebro, essa energia é fundamental para que diferentes tipos celulares consigam desempenhar suas funções.

Os pesquisadores observaram que o THC alterou temporariamente a atividade de uma proteína chamada NDUFS4, relacionada ao funcionamento do Complexo I das mitocôndrias.

A mudança foi identificada principalmente no hipocampo e no córtex pré-frontal dos camundongos machos adolescentes, regiões relacionadas à memória, comportamento e funções cognitivas.

O ponto mais curioso veio depois: quando os animais chegaram à idade adulta, a alteração molecular já não estava presente. Ainda assim, algumas mudanças comportamentais permaneciam.

Ou seja, a alteração celular parecia passageira, mas seus efeitos poderiam atravessar aquela janela de desenvolvimento.

Cannabis na adolescência: por que o efeito pode durar?

Para investigar se a alteração da NDUFS4 realmente participava dos efeitos observados, os cientistas bloquearam experimentalmente essa modificação em camundongos expostos ao THC.

O resultado foi significativo: os animais que tiveram a alteração da proteína impedida não apresentaram posteriormente as mesmas mudanças de sociabilidade e atividade física observadas nos demais animais expostos ao THC.

Segundo Giovanni Marsicano, pesquisador do Inserm e responsável pela equipe envolvida no trabalho, a pesquisa identificou pela primeira vez uma explicação causal para esse fenômeno, embora outros mecanismos também possam estar envolvidos.

É como se o cérebro estivesse atravessando uma obra enquanto ainda constrói seus caminhos. Uma interferência breve, justamente nesse período sensível, poderia influenciar a maneira como alguns circuitos se organizam.

O que muda entre meninos e meninas?

Outro aspecto importante da pesquisa foi a diferença observada entre os sexos.

Os efeitos comportamentais e a alteração da NDUFS4 foram identificados principalmente nos camundongos machos. As fêmeas apresentaram uma resposta diferente ao THC.

Os pesquisadores ainda não sabem exatamente por que isso acontece. Uma das hipóteses levantadas envolve mecanismos hormonais que poderiam oferecer algum grau de proteção, mas essa possibilidade ainda precisa ser investigada.

Portanto, não é possível transformar esse resultado em uma conclusão de que adolescentes de determinado sexo estariam protegidos dos efeitos da cannabis.

SAIBA MAIS: CBD e THC: diferenças, usos terapêuticos e panorama legal no Brasil

 

Veja também: 

O estudo prova efeitos da cannabis em adolescentes?

Não. E essa é uma diferença fundamental.

O experimento foi realizado em camundongos, não em seres humanos. Além disso, os animais receberam THC por meio de injeções em condições controladas de laboratório, que não reproduzem necessariamente as diferentes formas, doses e padrões de uso encontrados na vida real.

Por isso, os resultados não permitem afirmar que todo adolescente que utiliza cannabis desenvolverá alterações cognitivas ou psiquiátricas na vida adulta.

O que a pesquisa oferece é uma pista biológica importante para compreender como uma exposição ao THC durante uma fase de intenso desenvolvimento cerebral pode produzir consequências posteriores.

O estudo também abre uma possibilidade para futuras pesquisas sobre prevenção. Segundo Marsicano, compreender as alterações mitocondriais pode, no futuro, contribuir para estratégias capazes de reduzir consequências de longo prazo em adolescentes com dependência de cannabis.

Por enquanto, a principal mensagem é mais cuidadosa — e talvez justamente por isso mais importante: o cérebro adolescente ainda está em construção, e a ciência continua investigando como diferentes exposições podem interferir nesse processo.

Fonte: Newsweed. 

Matéria revisada por

  • Pedro Pierro

    Pedro Pierro

    Pedro Pierro é neurocirurgião especialista em dor e epilepsia, além de Diretor Científico da Sechat e curador do CBCM. · CRM-SP 102.283

Publicação original