Agronegócio

Cultivo de cannabis depende mesmo do clima? Saiba mais

Do Ártico aos trópicos, descubra como clima, latitude e genética influenciam o cultivo de cannabis e por que a Islândia está testando os limites da planta

Cultivo de cannabis depende mesmo do clima? Saiba mais
Cultivo de cannabis e cânhamo pode ser influenciado por latitude, temperatura, luminosidade e genética das variedades | CanvaPro

Cultivo de cannabis: o que a Islândia revela sobre a planta?

  • A Islândia está testando o cultivo de cannabis em condições extremas. Mas como o clima, a latitude e a genética influenciam a produção? Descubra o que a ciência revela e por que cada região exige um olhar diferente sobre a planta.

Cultivo de cannabis - Às vezes, cultivar uma planta é também aprender a escutar o lugar onde ela cresce. No extremo norte da Islândia, pesquisadores e produtores estão fazendo justamente isso: testando até onde o cânhamo consegue avançar quando o frio chega cedo e o verão parece não terminar.

O experimento coloca uma questão maior em cena: até que ponto o cultivo de cannabis depende do clima e da região?

A empresa islandesa High Latitude Hemp cultivou, durante o verão de 2026, 400 plantas a cerca de 66 graus de latitude norte. O objetivo foi identificar variedades capazes de completar seu ciclo antes das primeiras geadas. As plantas começaram o desenvolvimento em ambiente protegido, foram levadas para o campo em 1º de junho e colhidas no início de setembro.

Ainda não há resultados publicados que permitam afirmar qual foi o rendimento agronômico do experimento. Portanto, a iniciativa deve ser entendida como um teste de adaptação, e não como prova de que o cultivo comercial de cannabis ou cânhamo já seja viável em regiões subárticas.

Cultivo de cannabis enfrenta o desafio do fotoperíodo

Um dos principais obstáculos encontrados na Islândia não é apenas a temperatura.

Durante o verão, as regiões próximas ao Ártico recebem períodos extremamente longos de luminosidade. Para plantas sensíveis ao fotoperíodo, essa característica pode alterar o momento em que ocorre a floração.

Em outras palavras, não basta ter luz para crescer. A duração do dia também pode funcionar como um sinal biológico para determinar quando a planta muda de fase.

A pesquisa científica mostra que temperatura e duração do dia podem influenciar crescimento, floração e produção de canabinoides, e que diferentes variedades respondem de maneiras distintas às condições ambientais.

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Cannabis em diferentes latitudes

A história fica ainda mais interessante quando saímos da Islândia e olhamos para outras regiões.

Em áreas tropicais e subtropicais, por exemplo, o desafio pode ser praticamente o oposto. Temperaturas mais elevadas e determinadas condições de luminosidade também interferem no desenvolvimento da planta.

Um estudo publicado na revista Industrial Crops and Products avaliou variedades de Cannabis sativa sob diferentes temperaturas, períodos de luz e níveis de nitrogênio. Os pesquisadores observaram respostas distintas entre genótipos, inclusive no tempo de floração e na formação de biomassa.

Isso significa que uma variedade que apresenta bom desempenho em determinada latitude não necessariamente terá o mesmo comportamento quando transportada para outro ambiente.

Genética é peça-chave no cultivo de cannabis

É justamente aí que entra a adaptação genética.

Na Islândia, o projeto Hemp at 66°N, apoiado pelo Fundo Alimentar islandês com 2,4 milhões de coroas islandesas, busca desenvolver materiais vegetais adaptados às condições locais, incluindo possíveis aplicações em alimentos, cuidados pessoais e materiais de construção.

A lógica não é simplesmente levar uma planta de uma região para outra. É encontrar ou desenvolver características que façam sentido para aquele ambiente.

Entre os fatores que podem ser considerados estão:

  • duração do ciclo da planta;
  • resposta à luminosidade;
  • tolerância ao frio ou ao calor;
  • disponibilidade de água;
  • resistência a estresses ambientais;
  • capacidade de produzir biomassa;
  • características genéticas relacionadas aos canabinoides.

Pesquisas realizadas no Novo México também reforçam essa relação entre genética e ambiente. Ensaios de campo apontaram respostas precoces de floração em algumas variedades industriais cultivadas em latitudes mais baixas e desempenho inconsistente de variedades ricas em CBD em sistemas externos.

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Do Ártico aos trópicos: não existe um único cultivo

A experiência islandesa ajuda a desmontar a ideia de que existe uma fórmula universal para cultivar cannabis.

Em regiões frias, a janela agrícola curta pode ser um problema. Em ambientes tropicais, temperatura, umidade, luminosidade e resposta genética podem exigir outras estratégias.

No Mediterrâneo, por exemplo, pesquisas sobre cânhamo apontam a importância de escolher corretamente a época de semeadura por causa da relação entre desenvolvimento da planta e fotoperíodo.

Já em regiões tropicais e subtropicais, estudos indicam que temperatura e duração do dia podem influenciar tanto o crescimento quanto o perfil de canabinoides de determinadas variedades.

Por isso, falar em cultivo de cannabis também é falar em território.

Latitude, altitude, temperatura, água, solo, luminosidade e genética formam uma espécie de mapa invisível que pode determinar como a planta se desenvolve.

O que o experimento da Islândia realmente mostra?

Por enquanto, não que a cannabis possa ser cultivada comercialmente em qualquer lugar.

O que o projeto revela é algo mais interessante: a agricultura está tentando adaptar a planta ao território, em vez de simplesmente adaptar o território à planta.

Na Islândia, isso significa procurar variedades capazes de florescer antes da chegada do frio. Em outras regiões, pode significar selecionar genéticas que respondam melhor ao calor, à duração dos dias ou às condições de umidade.

No futuro, esse tipo de pesquisa pode ampliar o conhecimento sobre onde e como diferentes variedades de Cannabis sativa conseguem se desenvolver.

A planta, afinal, não cresce em um mundo igual. E talvez o futuro do cultivo esteja justamente em compreender essas diferenças.

Fontes e referências

  • Cáñamo. Islandia prueba cáñamo adaptado a los veranos del Ártico, 2026.
  • De Prato, L. et al. The cannabinoid profile and growth of hemp (Cannabis sativa L.) is influenced by tropical daylengths and temperatures, genotype and nitrogen nutrition. Industrial Crops and Products, 2022.
  • Rheay, H. T. et al. Field observations: Photoperiod response and yield of hemp at various latitudes throughout New Mexico. Agrosystems, Geosciences & Environment, 2025.
  • Sowing time and prediction of flowering of different hemp (Cannabis sativa L.) genotypes in southern Europe. Industrial Crops and Products.