Cotidiano

Por que a novela das 9 evitou falar sobre dor e cannabis?

Trama de Elisa, personagem de Isabela Garcia na novela das 9 - “Quem Ama Cuida”, poderia ampliar o debate sobre a cannabis para tratamento de fibromialgia.

Por que a novela das 9 evitou falar sobre dor e cannabis?
Isabela Garcia interpreta Elisa, personagem que enfrenta o diagnóstico de fibromialgia na Novela das 9 | Foto: Reprodução IG

Há histórias que a televisão conta. E há aquelas que, uma novela das 9, por exemplo, poderiam ir um pouco além: acolher quem está do outro lado da tela, gerar identificação e transformar um assunto ainda cercado de dúvidas em uma conversa possível.

A trajetória de Elisa, personagem de Isabela Garcia em Quem Ama Cuida, atual Novela das 9 da Globo, é um desses exemplos. Mãe de Adriana, protagonista interpretada por Letícia Colin, Elisa convive com dores, mal-estar e crises que chegam a levá-la ao hospital até descobrir que tem fibromialgia.

A condição é caracterizada principalmente pela presença de dor generalizada e crônica, podendo também estar associada a sintomas como fadiga, alterações do sono e dificuldades cognitivas. Para quem vive com a doença, a jornada pode ser marcada não apenas pela dor, mas também pela dificuldade de ser compreendido.

É justamente nesse ponto que a trama poderia ter aberto uma conversa ainda maior.

Uma oportunidade que passou despercebida

Não se trata de dizer que toda doença apresentada em uma novela das 9 precisa, obrigatoriamente, ser relacionada à cannabis medicinal. Tampouco de transformar a dramaturgia em consultório médico.

Mas uma Novela das 9 tem algo que poucos espaços conseguem oferecer: a possibilidade de colocar um assunto diante de milhões de brasileiros ao mesmo tempo.

No caso de Elisa, havia uma oportunidade especialmente interessante.

A personagem poderia ter conhecido a cannabis medicinal como uma possibilidade terapêutica complementar para tratar a fibromialgia, discutida dentro de uma consulta médica, com todas as ressalvas necessárias: indicação individualizada, acompanhamento profissional, ausência de promessa de cura e consideração das evidências científicas disponíveis.

Uma cena assim não precisaria transformar a cannabis em solução para a fibromialgia. Pelo contrário. Poderia mostrar justamente que o assunto é mais complexo do que os estigmas que ainda o cercam.

Cannabis ainda é um tabu

A resistência em colocar a cannabis medicinal em novelas e séries brasileiras também revela o quanto o tema ainda carrega preconceitos.

A planta continua sendo associada, no imaginário de parte da população, exclusivamente ao uso recreativo e à ideia de droga. Essa associação acaba deixando em segundo plano uma discussão que já acontece nos consultórios, na ciência e entre pacientes que buscam alternativas terapêuticas.

Nos recentes relatos publicados no Brasil, o psicólogo Anderson Matos, em entrevista publicada pelo Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG), falou justamente sobre os tabus relacionados ao uso terapêutico da cannabis.

Ao ser questionado se existe um tabu relacionado ao tema, o psicólogo respondeu: “Sim, existem vários tabus.”

Na entrevista, Matos explica que ainda existe uma associação muito forte entre cannabis e a ideia de droga e defende a importância de ampliar a compreensão sobre seu uso terapêutico, além de desconstruir preconceitos que dificultam o acesso à informação. 

É exatamente aí que a televisão poderia exercer um papel importante.

Não para prescrever. Não para convencer. Não para transformar uma possibilidade terapêutica em uma solução universal.

Mas para mostrar que existe uma conversa possível.

E se Elisa tivesse perguntado sobre cannabis?

Imagine uma cena simples.

Depois de mais uma crise de dor, Elisa conversa com um profissional de saúde. Entre as possibilidades de manejo dos sintomas, surge a cannabis medicinal.

Adriana pergunta o que isso significa.

O profissional explica que existem diferentes formulações, que os resultados podem variar de pessoa para pessoa, que existem indicações e contraindicações e que qualquer tratamento precisa ser individualizado.

Em poucos minutos, uma Novela das 9 poderia apresentar ao público conceitos que ainda parecem distantes: canabinoides, CBD, THC, sistema endocanabinoide, prescrição e acompanhamento médico.

E poderia ajudar a esclarecer uma diferença fundamental: cannabis medicinal não é sinônimo de uso recreativo.

Essa talvez fosse uma das maiores contribuições possíveis da dramaturgia para o tema.

Não seria necessário defender a cannabis.

Seria necessário explicar.

A dor que nem sempre aparece

A história de Elisa também permite falar sobre uma realidade conhecida por quem convive com fibromialgia: a dor pode ser intensa mesmo quando não existe um exame capaz de mostrá-la de maneira simples.

É uma condição que pode afetar rotina, sono, disposição, relações familiares e qualidade de vida. E justamente por não ser completamente compreendida por quem está de fora, muitas pessoas acabam enfrentando também o peso da incompreensão.

Quando uma personagem vive essa experiência diante de milhões de espectadores, a televisão cria uma oportunidade rara de dizer: essa dor existe.

E, a partir daí, abrir espaço para discutir as diferentes possibilidades de cuidado.

A cannabis medicinal poderia entrar nessa conversa como uma das alternativas que vêm sendo estudadas e utilizadas em determinados contextos clínicos, sem substituir automaticamente outros tratamentos e sem a promessa de funcionar para todos.

É uma abordagem mais responsável e, talvez, muito mais poderosa.

Uma conversa que ainda precisa acontecer

Talvez a questão não seja cobrar que toda Novela das 9 fale sobre cannabis.

Mas perguntar por que, diante de uma história tão próxima da realidade de tantas pessoas, essa possibilidade ainda aparece tão pouco na dramaturgia brasileira.

A personagem Elisa poderia ter sido uma dessas portas de entrada.

Uma mulher com dor. Uma família tentando compreender o que acontece. Um diagnóstico. Uma busca por qualidade de vida.

E, no meio dessa jornada, uma pergunta simples: existem outras possibilidades de cuidado?

A resposta poderia abrir uma conversa muito maior.

Porque a cannabis medicinal não precisa ocupar o papel de mocinha ou vilã.

Pode simplesmente aparecer como aquilo que já é para muitas famílias brasileiras: um tema de saúde que merece ser conhecido, pesquisado, discutido e compreendido sem preconceito.

E talvez seja justamente essa a oportunidade que a Novela das 9 deixou passar: não a de fazer propaganda da cannabis, mas a de ajudar milhões de brasileiros a falar sobre ela com mais informação e menos tabu.