O TDAH e o sistema endocanabinoide

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Lessa cita exemplos de relatos na literatura científica sobre o uso benéfico de derivados da Cannabis em pacientes com TDAH (Foto: Arquivo pessoal)

Coluna de Wilson Lessa*

O TDAH (Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade) é considerado um transtorno do neurodesenvolvimento que é muito frequente e que aparentemente vem aumentando o seu diagnóstico, por um lado por uma melhor investigação clínica e por outro devido a fatores ambientais.

Esse transtorno afeta a habilidade da pessoa regular sua capacidade de atenção, emoções, impulsividade e hiperatividade. Pode ser diagnosticado tanto na infância quanto na vida adulta (embora neste caso os sintomas já estavam presentes no início da vida).

Esse transtorno afeta a habilidade da pessoa regular sua capacidade de atenção, emoções, impulsividade e hiperatividade. Pode ser diagnosticado tanto na infância quanto na vida adulta (embora neste caso os sintomas já estavam presentes no início da vida).

É frequente a comorbidade (associação de patologias) com outros quadros tais como transtorno de ansiedade, depressão e abuso de substâncias.

O TDAH é subdividido didaticamente em três tipos: 

  1. Predominantemente desatento;
  2. Predominantemente hiperativo-impulsivo;
  3. Combinação de desatento-hiperativo-impulsivo;

Os neurotransmissores dopamina, norepinefrina e a serotonina são os que se acredita estarem desregulados nesse transtorno. Múltiplas variações genéticas envolvendo esses neurotransmissores foram já encontrados em pacientes com TDAH.

A dopamina envia mensagens entre partes do cérebro que controlam a recompensa e a motivação (núcleo accumbens); o planejamento, a resolução de problemas e a atenção (córtex pré-frontal) e a cognição e o aprendizado (estriado dorsal). Pessoas que apresentam o subtipo hiperativo-impulsivo parecem ter uma metabolização exacerbada da dopamina, o que interfere negativamente no efeito da mesma.

A norepinefrina é envolvida no estado de vigilância (alerta), atenção e memória e sua deficiência é relacionada com o déficit de atenção. A perda do controle dos impulsos e a agressividade é mais consequência da desregulação da serotonina.

Os estimulantes são as medicações mais prescritas para o controle dos sintomas do TDAH, por aumentarem a neurotransmissão de dopamina e norepinefrina. Embora sejam eficientes para muitas pessoas, costumam frequentemente apresentar efeitos colaterais como perda do apetite, insônia, aumento da pressão arterial, perda de peso, tiques, cefaleias  e dores no estômago.

Já existe evidência que pacientes com TDAH apresentam disfunções genéticas relacionadas ao sistema endocanabinoide e excesso de metabolização da anandamida, nosso principal endocanabinoide

Já existe evidência que pacientes com TDAH apresentam disfunções genéticas relacionadas ao sistema endocanabinoide e excesso de metabolização da anandamida, nosso principal endocanabinoide (Centonze et al., 2009). 

É importante lembrar que que o Sistema Endocanabinoide é envolvido na modulação da neurotransmissão e que anormalidades em  sua função podem contribuir para os sintomas do TDAH.

Já existem alguns relatos na literatura científica dos benefícios do uso terapêutico dos derivados da Cannabis nestes casos:

– Um paciente de 28 anos com TDAH esteve habilitado a funcionar normalmente com altas dosagens de THC, incluindo passando em um teste de habilitação para dirigir. Os pesquisadores deste caso escreveram que “Há evidência que o consumo de Cannabis teve um impacto positivo em sua performance, comportamento e estado mental” (Strohbeck-Kuehner et al.,2008);

– Em 2015, um relato de uma série de casos de 30 pacientes com TDAH, refratários aos tratamentos convencionais, a Cannabis foi efetiva no alívio dos sintomas e bem tolerada (Milz et al., 2015);

– Em um relatório realizado em janeiro de 2020 pelo Instituto Israelense de Tecnologina (Technion), foi verificado que o tratamento com a Cannabis medicinal foi associado com a diminuição dos sintomas do TDAH e do uso das medicações usuais em pacientes adultos (Hergenrather et al., 2020);

Desse modo, fica evidente que a terapêutica do TDAH precisa ser cada vez mais investigada com o uso do canabinoides, uma vez que estudos iniciais demonstram a priori a segurança e a tolerabilidade com seu uso e que uma parte dos pacientes tratados com as medicações usuais não apresentam melhora significativa ou padecem de efeitos colaterais bem indesejáveis.

Desse modo, fica evidente que a terapêutica do TDAH precisa ser cada vez mais investigada com o uso do canabinoides, uma vez que estudos iniciais demonstram a priori a segurança e a tolerabilidade com seu uso e que uma parte dos pacientes tratados com as medicações usuais não apresentam melhora significativa ou padecem de efeitos colaterais bem indesejáveis.

*Wilson Lessa é Médico Psiquiatra, Psiquiatra Forense, professor da faculdade de Medicina da UFRR (Universidade Federal de Roraima) e colunista do Sechat.

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