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Cannabis e saúde mental funcionam? Ciência responde

Cannabis e saúde mental: o que 54 estudos descobriram? Confira os resultados e entenda onde estão as promessas e as dúvidas da ciência.

Cannabis e saúde mental funcionam? Ciência responde
Cannabis e saúde mental são tema de uma das maiores revisões científicas já realizadas sobre o uso de canabinoides | CanvaPro

Cannabis e saúde mental: o que diz a ciência | Estudo 2025

  • Metanálise da The Lancet Psychiatry revela que, apesar de sinais promissores para insônia e autismo, ainda faltam evidências robustas para tratar ansiedade e depressão com cannabis. A ciência pede cautela e mais estudos diante do crescimento acelerado do mercado no Brasil.

Quando o assunto é cannabis e saúde mental, existe uma linha delicada entre esperança e evidência. Uma nova grande revisão científica encontrou sinais promissores para algumas condições, mas também mostrou que ainda faltam estudos robustos para saber quando, como e para quem os canabinoides realmente funcionam.

Publicada na The Lancet Psychiatry, a metanálise reuniu 54 ensaios clínicos randomizados, com 2.477 participantes, acompanhados em estudos publicados entre 1980 e 2025. O resultado? Há caminhos que merecem ser investigados, mas ainda não há respaldo para transformar os canabinoides em tratamento rotineiro para a maioria dos transtornos mentais.

Neste artigo você vai ver:

  • O que a ciência descobriu sobre cannabis e saúde mental
  • Quais condições apresentaram resultados promissores
  • Onde as evidências ainda são insuficientes
  • O que se sabe sobre segurança e efeitos adversos
  • Por que são necessários estudos maiores

O que a ciência descobriu sobre cannabis e saúde mental?

A revisão coordenada por pesquisadores da Austrália e do Reino Unido avaliou a eficácia e a segurança de diferentes canabinoides, incluindo CBD e THC, em transtornos mentais e transtornos relacionados ao uso de substâncias.

Os pesquisadores encontraram alguns sinais positivos. Entre eles estão possíveis efeitos sobre insônia, síndrome de Tourette, transtorno do espectro autista (TEA) e transtorno por uso de cannabis.

Mas existe um detalhe importante: a qualidade geral das evidências foi considerada baixa ou muito baixa. Além disso, 24 dos 54 estudos, ou 44%, apresentaram alto risco de viés.

Ou seja, a ciência encontrou pistas, não respostas definitivas.

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Cannabis medicinal para saúde mental tem evidência para quais condições?

Entre os resultados mais interessantes está a insônia. A análise encontrou aumento do tempo de sono em algumas medidas entre participantes que utilizaram canabinoides.

Também houve redução de tiques em pessoas com síndrome de Tourette e redução de alguns traços associados ao autismo. No transtorno por uso de cannabis, combinações de CBD e THC apresentaram redução de sintomas de abstinência em determinadas análises.

Isso não significa, porém, que qualquer produto à base de cannabis produza os mesmos efeitos.

Formulação, concentração, dose, duração do tratamento e perfil do paciente podem interferir nos resultados. É justamente essa diversidade que torna a interpretação dos estudos mais complexa.

CBD para saúde mental ainda precisa de mais pesquisas

Se existe uma mensagem central na revisão, ela é simples: não dá para colocar todos os canabinoides no mesmo lugar.

CBD isolado, THC, combinações dos dois, óleos e diferentes formulações foram avaliados em contextos distintos. Para pesquisadores ouvidos pela Revista Pesquisa FAPESP, essa variedade dificulta a comparação direta entre os resultados.

O neurocientista Sidarta Ribeiro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, chamou atenção justamente para essa heterogeneidade dos estudos.

Por isso, falar simplesmente que “cannabis funciona” ou “cannabis não funciona” pode ser uma simplificação excessiva.

A pergunta científica está ficando mais específica: qual canabinoide, para qual condição, em qual dose, formulação e perfil de paciente?

Ansiedade, depressão e outros transtornos ainda são uma incógnita

Para algumas condições, os resultados foram menos animadores.

A metanálise não encontrou efeitos significativos para ansiedade, anorexia nervosa, transtornos psicóticos, transtorno de estresse pós-traumático e transtorno por uso de opioides. Para TDAH, transtorno bipolar, TOC e transtorno por uso de tabaco, os dados foram insuficientes.

Um ponto chama atenção: os pesquisadores não encontraram ensaios clínicos randomizados que permitissem analisar o uso de canabinoides para depressão.

Isso é especialmente relevante porque a depressão está entre os transtornos mentais mais prevalentes no mundo.

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E os efeitos adversos?

A esperança precisa caminhar junto com a segurança.

A revisão encontrou maior probabilidade de ocorrência de eventos adversos entre pessoas que receberam canabinoides em comparação aos grupos de controle. O número necessário para causar um dano adicional foi estimado em sete pacientes, embora não tenha sido observado aumento significativo de eventos adversos graves ou de abandono dos estudos.

Para o professor Lucindo José Quintans Júnior, da Universidade Federal de Sergipe, os resultados não significam que os canabinoides sejam perigosos, mas mostram que possíveis efeitos adversos precisam ser considerados diante de benefícios que ainda são incertos para muitas condições psiquiátricas.

Mercado cresce enquanto a ciência ainda investiga

O cenário ganha outra camada quando se observa a expansão do mercado de produtos derivados da cannabis.

Segundo dados apresentados pela Revista Pesquisa FAPESP, as autorizações para uso de canabinoides no Brasil passaram de 850, em 2015, para 194.682, em 2025. No mesmo período, a produção científica ainda enfrentava limitações relacionadas ao tamanho das amostras, duração dos estudos, padronização dos produtos e financiamento.

Para os pesquisadores, esse descompasso reforça a necessidade de estudos clínicos maiores e mais bem controlados.

A ciência, afinal, não precisa escolher entre celebrar ou condenar a cannabis. Precisa continuar perguntando.

E talvez essa seja a parte mais honesta da história: há sinais que merecem atenção, mas ainda existem muitas perguntas esperando respostas.

Saúde mental e canabinoides

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Matéria revisada por

  • Pedro Pierro

    Pedro Pierro

    Pedro Pierro é neurocirurgião especialista em dor e epilepsia, além de Diretor Científico da Sechat e curador do CBCM. · CRM-SP 102.283

Cannabis e saúde mental: eficácia e segurança em revisão da Lancet Psychiatry

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