Cannabis Europa 2026: política e negócios da cannabis na Europa
Evento que reúne formuladores de políticas, investidores e líderes da indústria consolida-se como o principal fórum estratégico da cannabis legal na Europa e antecipa os rumos do mercado em 2026
Publicada em 27/02/2026

Palco do Cannabis Europa durante conferência que reúne formuladores de políticas públicas, investidores e líderes da indústria para debater os rumos da cannabis legal na Europa. Crédito: Cannabis Europa
“Where Cannabis policy meets business opportunity” — “Onde a política da cannabis encontra a oportunidade de negócios.”
A frase que define o Cannabis Europa não é apenas um slogan institucional — é um diagnóstico preciso do momento que vive o mercado regulado de cannabis no continente. Em um cenário de mudanças legislativas graduais, pressões por padronização sanitária e busca por escala produtiva, o evento se consolida como um dos principais pontos de convergência entre formuladores de políticas públicas, investidores e líderes empresariais.
Marcado para os dias 26 e 27 de maio de 2026, em Londres, o encontro deve reunir mais de 1.500 participantes, 70 palestrantes e 50 expositores, consolidando-se como um dos maiores fóruns estratégicos da indústria legal europeia.
À frente de uma das empresas patrocinadoras recorrentes do evento está Arthur de Cordova, CEO da Ziel. Com trajetória em mercados altamente regulados — como os setores farmacêutico, energético e financeiro — ele traz uma visão pragmática sobre os gargalos estruturais e as oportunidades que estão moldando a cannabis europeia.
Segundo Arthur, a produção doméstica de cannabis na Europa ainda está em estágio inicial. “A produção doméstica de cannabis na Europa ainda está, de fato, em estágio inicial”, afirmou. Apesar de avanços em países como Portugal, Dinamarca, Holanda, Alemanha e Reino Unido, o continente ainda não atingiu escala suficiente nem eficiência de custos para atender plenamente à demanda interna.
A consequência é clara: dependência de importações.
“O maior desafio é a competitividade de preço”, disse. Ele destaca que produtores europeus operam em ambientes de alto custo — especialmente energia e mão de obra — o que dificulta a concorrência com países como Colômbia, Tailândia e Uruguai. Além disso, o Canadá permanece como principal fornecedor para o mercado europeu, sustentado por capacidade produtiva, consistência de produto e um arcabouço regulatório favorável às exportações.
Para Arthur, à medida que os mercados amadurecem e ocorre compressão de preços, a sustentabilidade da escala dependerá de eficiência operacional e financeira. “Escalar de forma sustentável dependerá cada vez mais de melhorias contínuas — operacionais e financeiras”, avaliou. Ele aponta como “frutos mais acessíveis” a maximização de rendimento no upstream combinada à integração de tecnologias de redução microbiana que garantam conformidade regulatória a baixo custo por grama.

Escala, compliance e o debate sobre descontaminação
Um dos painéis centrais do evento, “Produção Doméstica em Escala”, aborda justamente o equilíbrio entre expansão produtiva e manutenção de padrões sanitários rigorosos.
Segundo Arthur, a incorporação de tecnologia de controle microbiano no pós-colheita não é opcional. “A descontaminação não é opcional em escala; é um pré-requisito para lucratividade consistente e conformidade com as normas EU-GMP”, afirmou. À medida que o volume aumenta, cresce também o risco de patógenos e mofo na flor.
O tema, porém, envolve controvérsia regulatória. Ele explica que há resistência na Alemanha ao uso de tecnologias de radiação ionizante (raio-X e gama) na etapa de descontaminação. “Reguladores e consumidores europeus, especialmente na Alemanha, têm resistência à radiação ionizante”, disse. Caso o operador utilize esse método, cada variedade precisa ser registrada individualmente, processo que pode levar entre seis e doze meses e custar cerca de € 5 mil por cepa — o que impacta o tempo de entrada no mercado.
Esse cenário, segundo ele, tem efeito cascata global. “97% do fornecimento alemão é proveniente de fora da Alemanha”, afirmou, indicando que decisões regulatórias nacionais moldam toda a cadeia internacional.
Arthur defende tecnologias não ionizantes, como radiofrequência — tecnologia desenvolvida pela Ziel — que, segundo ele, permite atender aos padrões microbianos da União Europeia sem acionar exigências regulatórias adicionais. Ele destaca ainda a importância de documentação IQ/OQ/PQ para auditorias EU-GMP, fator determinante para exportadores.
Suíça, República Tcheca e a geopolítica da produção
O Cannabis Europa também tem sido palco de debates sobre reformas nacionais. A Suíça, por exemplo, avança na discussão sobre legalização do uso adulto.
“A Suíça é um dos mercados mais empolgantes para se observar na Europa”, afirmou Arthur. O país já possui mercado medicinal funcional e experiência robusta na produção de flor de CBD em escala. Para ele, uma eventual legalização ampliaria o mercado doméstico de forma imediata.
Ele observa ainda que, por operar fora do arcabouço jurídico da União Europeia, a Suíça possui maior flexibilidade regulatória. “Combinada a cultivadores experientes, infraestrutura existente e localização geográfica central, a Suíça tem potencial para se tornar tanto um forte mercado doméstico quanto um relevante hub de exportação”, disse.
Outro polo em ascensão é a República Tcheca. “O crescimento da República Tcheca é impulsionado por um canal saudável de exportação para a Alemanha”, afirmou. Com custos competitivos de energia e mão de obra, infraestrutura sólida e capacidade crescente de processamento EU-GMP, o país tende a ganhar participação como hub de processamento, inclusive competindo com Portugal.
Reino Unido, França e os diferentes ritmos da Europa
O Reino Unido já desponta como o segundo maior mercado medicinal da Europa. “Apesar de ter aproximadamente um décimo do tamanho da Alemanha, o Reino Unido emergiu como o segundo maior mercado de cannabis medicinal da Europa”, disse Arthur. Ele observa que os preços no Reino Unido se mantêm mais estáveis que na Alemanha, onde há maior pressão competitiva.
A França, por sua vez, segue um caminho mais cauteloso. Após participar da edição parisiense do Cannabis Europa, Arthur comentou que o novo arcabouço regulatório ainda não abrirá oportunidades comerciais em 2026. “Ainda será um ano de ‘construção de base’”, afirmou. O modelo francês está estruturado sob lógica farmacêutica, com o governo atuando como comprador único e prescrição restrita a cinco áreas clínicas específicas.
“O cenário ficará mais claro no segundo semestre de 2026”, avaliou.
O papel estratégico do evento
Mais do que um encontro setorial, o Cannabis Europa se posiciona como espaço de diálogo qualificado entre reguladores, operadores e investidores.
“Eles oferecem um ambiente em que operadores, reguladores, fornecedores de tecnologia e investidores podem se engajar em conversas sobre o que realmente está funcionando no mercado”, afirmou Arthur. Ele destaca que as discussões são “francas e revigorantes” e funcionam como um termômetro real do que está acontecendo no campo regulatório e comercial.
A presença recorrente da Ziel como patrocinadora reforça a importância estratégica do encontro. “A Ziel é patrocinadora recorrente porque encontramos valor aqui”, disse.
Ao reunir política pública e fluxo de capital no mesmo ambiente, o Cannabis Europa consolida-se como plataforma de construção de consenso e aceleração de negócios. Em um mercado que ainda busca maturidade regulatória e eficiência produtiva, o evento funciona como bússola para decisões que moldarão o futuro da cannabis legal no continente.