Cannabis não é uma só: o alerta contra generalizações no uso medicinal
Especialista alerta que tratar cannabis como uma substância única compromete a interpretação científica, a prática clínica e o avanço da medicina baseada em evidências.
Publicada em 24/04/2026

Helena Joaquim fala sobre os riscos de generalizar o uso de extratos de cannabis medicinal em entrevista ao Deusa Cast
O avanço da cannabis medicinal no Brasil tem sido acompanhado por um fenômeno preocupante: a simplificação de um tema que exige precisão científica. Em um corte recente do Deusa Cast, a pesquisadora Helena Joaquim traz um contraponto técnico ao debate e reforça um ponto central — generalizar pode comprometer tanto a ciência quanto o tratamento de pacientes.
Bacharel em Biotecnologia, mestre e doutora em Neurociências, com atuação em gestão médica e pesquisa clínica na indústria farmacêutica, Helena chama atenção para um erro recorrente: a leitura enviesada da literatura científica.
"Da mesma maneira que a gente tem que ler um artigo científico com muito cuidado para falar que existe sim uma evidência de efeito, a gente tem que ler com muito cuidado esses artigos que falam que não tem evidência de efeito."
A declaração expõe um problema que atravessa o debate público e parte da comunidade científica: a tendência de selecionar evidências para sustentar posições prévias, ignorando a complexidade dos dados disponíveis.
Um termo amplo para uma realidade complexa
Ao abordar a própria definição de cannabis, a pesquisadora desmonta uma ideia amplamente difundida.
"A cannabis, a gente fala de cannabis, cannabis, cannabis, mas é quase como um conjunto de plantas. A gente sabe que tem muitas moléculas dentro de um extrato, mesmo que ele seja rico em canabidiol ou em THC, que são os dois principais."
A fala aponta para um aspecto essencial: não existe um único tipo de cannabis, mas sim diferentes combinações de compostos — entre eles canabinoides e outras substâncias — que influenciam diretamente os efeitos terapêuticos.
O detalhe que muda tudo
Essa complexidade se torna ainda mais crítica quando aplicada à prática clínica. Segundo Helena, pequenas variações na composição podem gerar resultados completamente distintos.
"Cada uma dessas moléculas parece fazer muita diferença para um extrato, e cada uma tem um efeito. E quando essas metanálises são feitas, essas revisões sistemáticas, elas levam em consideração artigos que utilizaram diferentes tipos de produtos."
Na prática, isso significa que análises amplas podem reunir estudos com produtos heterogêneos, dificultando conclusões precisas — um ponto frequentemente ignorado em interpretações mais simplificadas.
Não existe fórmula universal
A pesquisadora também destaca que a eficácia terapêutica depende diretamente da composição utilizada em cada caso, e não apenas da substância isolada.
"Quando a gente fala de evidência robusta para epilepsias farmacorresistentes, é basicamente com o CBD. Já na espasticidade devido à esclerose múltipla, são produtos com proporção um para um de CBD e THC. Se você inverter isso, a resposta não tende a ser a mesma."
O exemplo reforça a necessidade de individualização do tratamento — princípio básico da medicina que, no caso da cannabis, ganha ainda mais relevância.
O risco está nos extremos
Para Helena, o maior problema não está apenas na falta de informação, mas na forma como ela é simplificada.
"Quando a gente generaliza, tanto para um lado quanto para o outro, isso é muito perigoso. Por isso é tão importante ter estudos clínicos específicos para extratos ou moléculas específicas."
A advertência vale para diferentes esferas: da comunicação ao mercado, passando pela prática clínica. Generalizações podem gerar falsas expectativas, uso inadequado e até comprometer a credibilidade da terapêutica.
Um campo que ainda está em construção
Apesar dos avanços, a pesquisadora ressalta que o conhecimento atual ainda é limitado a uma parcela dos compostos da planta.
"A gente fala de canabidiol e THC porque são os mais estudados e conhecidos, mas existem outros canabinoides que ainda precisam ser investigados de forma sistemática e pragmática."
O ponto indica que o desenvolvimento da cannabis medicinal ainda está em curso — e que o futuro da área dependerá diretamente da qualidade e da precisão das pesquisas.


