Cotidiano

Presidente da Fiocruz ressalta importância das associações de pacientes

Delegação da Fiocruz visita instalações da Apepi em uma fazenda de Paty do Alferes no Rio de Janeiro

Presidente da Fiocruz ressalta importância das associações de pacientes
Presidente da Fiocruz ressalta importância das associações de pacientes

Ricardo Valverde (Agência Fiocruz de Notícias)


Uma delegação da Fiocruz visitou, no sábado (27/1), as instalações da Apoio a Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal (Apepi) em uma fazenda de Paty do Alferes (RJ). A Associação, que tem 8 mil pacientes e com a qual a Fiocuz já promoveu seminários que reuniram especialistas brasileiros e estrangeiros, inaugurou o Centro Avançado de Cultivo e Secagem (Cacs). A iniciativa faz parte do avanço da pauta da cannabis medicinal no debate público, com a criação de associações de pacientes, a permissão via Anvisa para a importação de medicamentos à base de canabinoides, além de uma ampla discussão na mídia sobre os benefícios da terapêutica.

O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, que esteve na visita à fazenda da Apepi, ressaltou a importância das associações de pacientes e também a de se produzir evidências científicas sobre as propriedades do canabidiol e sua relação com a saúde, gerando subsídios para políticas públicas. Para Moreira, “este não é um debate de costumes, é um debate de saúde, que precisa envolver as autoridades sanitárias, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Nossa expectativa é que a Fiocruz, uma instituição de ciência, tecnologia e inovação em saúde, possa contribuir com o tema, junto com universidades e outras entidades”.

O presidente da Fiocruz disse que a visita serviu para conhecer o laboratório da Apepi e aspectos importantes do plantio das mudas da cannabis, da extração do óleo e da produção em geral. “Nosso objetivo é adquirir elementos que possam orientar uma agenda de pesquisa sobre o tema”. A fazenda, de 37 hectares, fica nos limites dos municípios de Paty do Alferes, Miguel Pereira e Vassouras, na Região Centro-Sul Fluminense.

Moreira comentou que o diretor do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde, Antonio Eugenio de Almeida, acompanhou a visita para conhecer os processos relacionados aos padrões de qualidade e a definição de pureza do produto final. Para Almeida, o país precisa de investimentos na área, tendo em vista as grandes e urgentes necessidades de saúde pública nacionais. “O Brasil não pode fugir do que vemos em outros países, com esses medicamentos contribuindo para a saúde das pessoas”, observou o diretor. A chefe de Gabinete da Presidência da Fiocruz, Zélia Profeta, e a vice-diretora de Gestão do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz), Silvia Santos, participaram da visita.

O Grupo de Trabalho Cannabis Medicinal da Fiocruz considera que há uma janela de oportunidade única para a discussão da certificação, produção e distribuição de medicamentos à base de cannabis, com grande impacto na saúde da população de baixa renda por meio do SUS e de associações de pacientes. Um atraso em participar deste debate pode representar a perda de oportunidade para o SUS, ampliando o fosso que segrega a população mais pobre na falta de acesso a estes medicamentos.

Nota técnica

Em abril, o Programa Institucional de Políticas de Drogas, Direitos Humanos e Saúde Mental da Fiocruz lançou uma nota técnica que aborda as evidências científicas encontradas até o momento sobre tratamentos terapêuticos baseados em cannabis e seus derivados. O objetivo do documento é oferecer subsídios técnicos para as instituições responsáveis pela legislação, regulamentação, pesquisa, produção, padronização, distribuição e uso da cannabis e derivados para fins terapêuticos no Brasil, bem como para a sociedade em geral.

Segundo a nota, um número crescente de pesquisas aponta para o potencial terapêutico de canabinoides, entre eles o canabidiol (CBD) e o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC), para diferentes condições clínicas e enfermidades. Essas pesquisas apresentam diferentes níveis de evidência, ou seja, para cada condição existe, no presente momento, maior ou menor robustez científica que comprove a segurança e eficácia da aplicação terapêutica. Os pesquisadores responsáveis pelo documento destacam que algumas pesquisas são conclusivas em apontar a segurança e eficácia dos canabinoides na redução de sintomas e melhora do quadro de saúde para dor crônica, espasticidade, transtornos neuropsiquiátricos e náusea, vômito e perda do apetite ligados ao tratamento com quimioterapia.

Além de detalhar evidências e referências técnicas sobre as condições de saúde acima, a nota técnica ainda reforça a necessidade de se avançar no desenvolvimento de pesquisas no Brasil, com a realização de estudos clínicos de diferentes condições, na capacitação de médicos e outros profissionais de saúde sobre o uso terapêutico da cannabis e derivados. Isso permitirá que possam prescrever e tratar com mais confiança e conhecimento e também na regulação dos produtos à base de cannabis, para que sejam produzidos nacionalmente e distribuídos de forma segura e eficaz.

Para os pesquisadores, “é indispensável assegurar uma regulamentação abrangente e eficiente, que viabilize a produção, prescrição e o acesso gratuito e universal, pelo Sistema Único de Saúde, a uma ampla gama de formas farmacêuticas da cannabis e derivados, sempre respaldadas por evidências sólidas de segurança e eficácia terapêutica”.

Agência Fio Cruz