Quando o medo muda o comportamento do seu cachorro
A história de Cruella mostra os desafios enfrentados por tutores diante da agressividade, da apatia e das limitações dos tratamentos tradicionais em cães
Publicada em 05/02/2026

Como a cannabis ajudou Cruella a superar o medo e recuperar a qualidade de vida | Foto: Arquivo Pessoal
Aos cinco anos, a cachorrinha Cruella carrega uma história que mistura várias emoções que vai de medo, tentativas frustradas de tratamento e, mais recentemente, uma retomada da qualidade de vida. A mudança começou a ser percebida há cerca de três anos, quando ela passou a apresentar alterações comportamentais importantes, como agressividade e medo intenso de barulhos altos.
Tutora de Cruella, a médica-veterinária Aline Marques Lourencini, de 31 anos, acompanhou de perto cada etapa desse processo. Sócia-proprietária do Pet De Pelos a Escamas, em Bauru, no interior de São Paulo, ela divide a rotina profissional e a paixão pelos animais com o marido, Gabriel Genebre.

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Medo, apatia e os limites dos tratamentos convencionais
Segundo Aline, os primeiros sinais surgiram após o cio de Cruella. “Ela começou a ficar mais reativa, principalmente com pessoas e sons altos. Provavelmente houve também erro de manejo, porque por ela ser muito bonitinha, as pessoas vinham passando a mão sem aviso, e isso foi gerando desconforto”, relembra.
A primeira abordagem envolveu ajustes no ambiente e na rotina, além de acompanhamento com profissionais da área comportamental. Durante cerca de um ano, Cruella passou por tratamento associado a mudanças no dia a dia. Houve melhora nos quadros de medo e agressividade, mas outro problema surgiu: a apatia. “Ela não era mais a mesma cachorra. Ficava muito sedada, não brincava, não tinha aquela energia de antes”, conta.
Após a interrupção das medicações, novas tentativas foram feitas, incluindo florais, homeopatia e fitoterápicos como passiflora, mas sem resultados satisfatórios. No fim do ano passado, uma nova prescrição trouxe ainda mais efeitos adversos. “Um medicamento causou incontinência urinária e outro deixou ela ainda mais medrosa”, diz Aline.
A aproximação com a cannabis e a medicina integrativa
Entusiasta da medicina integrativa desde a graduação, Aline já acompanhava, há cerca de dois anos, relatos sobre o uso da cannabis tanto em humanos quanto em animais. A dificuldade, no entanto, era encontrar acompanhamento acessível e seguro para o caso da própria filha de quatro patas.
“Eu já tinha pedido para uma colega prescrever, mas ela achou que ainda não era o momento. No final do ano passado, eu cansei de esperar e resolvi fazer o curso de prescrição de cannabis veterinária”, explica.
Com receituário adequado para aquisição em farmácia humana, Aline iniciou o tratamento de Cruella no dia 15 de janeiro, utilizando produto adquirido na farmácia de manipulação. O protocolo vem sendo ajustado com o apoio de um colega veterinário da área integrativa.
Resultados perceptíveis já nas primeiras semanas
A resposta ao tratamento foi rápida. “Na primeira semana já deu para perceber uma melhora significativa”, afirma. Hoje, os episódios de pânico diante de chuva e fogos praticamente desapareceram. Antes, Cruella hiperventilava, não comia e ficava completamente desorientada. “Agora ela fica mais quietinha, mas se chamamos, ela vem”, descreve.
Os passeios, que haviam se tornado inviáveis, também voltaram a fazer parte da rotina. “Antes, qualquer barulho na rua era motivo de desespero. Hoje ela fareja, brinca, marca território. É outra cachorra”, diz Aline. A agressividade também diminuiu de forma consistente.
Mais do que reduzir sintomas, o tratamento permitiu que Cruella voltasse a expressar comportamentos naturais. “Ela está mais animadinha, menos agressiva e com menos medo. Está conseguindo viver novamente”, resume.
Um olhar profissional que também é pessoal
Formada em Medicina Veterinária desde 2018, Aline tem pós-graduação em clínica e cirurgia de pets exóticos e animais silvestres. O interesse por animais não convencionais vem desde a infância e se consolidou ainda antes da faculdade.

Apesar da formação e do curso concluído, Aline explica que, por enquanto, a prescrição de cannabis ainda não faz parte da rotina com pacientes do pet shop. “Quero me aprofundar mais nos estudos antes de prescrever para outros animais. Por enquanto, estou usando apenas com a Cruella, até para entender melhor o processo e ter uma experiência bem estruturada”, afirma.
Cannabis e o avanço na medicina veterinária
Casos como o de Cruella refletem um movimento mais amplo de crescimento do uso da cannabis na medicina veterinária, especialmente dentro da abordagem integrativa.
Segundo reportagem do Portal Sechat de setembro do ano passado, a cannabis tem ganhado espaço como alternativa terapêutica em diferentes espécies, com foco na redução de efeitos colaterais comuns a medicamentos convencionais e na melhoria da qualidade de vida dos animais.
No caso de Cruella, o objetivo principal sempre foi preservar sua essência. “Eu não queria algo que apagasse quem ela é. Queria que ela continuasse sendo brincalhona, ativa, mas sem sofrimento. Até agora, a cannabis está proporcionando exatamente isso”, finaliza Aline.



