Conheça o Pelé da cannabis medicinal

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Cientista israelense Raphael Mechoulam é o pioneiro nos estudos de aplicação da maconha medicinal no mundo. Leia abaixo a entrevista concedida pelo pesquisador ao Sechat:

Ele é um filho do holocausto. Judeu e nascido na Europa, em 1930, Raphael Mechoulam sobreviveu ao nazismo graças a inteligência e ao bom senso dos pais que no auge do antissemitismo, em 1939, decidiram ir morar no interior da Bulgária.

O pai, médico, intuiu que seria mais seguro viver na zona rural e então mudou-se com a família para uma vila pequena e distante que não tinha nem eletricidade. Tornou-se uma referência na comunidade, cuidava das pessoas e era respeitado pelos vizinhos, portanto preservado. E assim os Mechoulam passaram 5 anos abrigados da tempestade nazista que sacudiu o continente e o mundo.

Somente em 1944, último ano da guerra, foi que o pai de Raphael acabou enviado para um campo de concentração. Lá a medicina salvou de novo a sua vida. Profissionais de saúde eram aproveitados para cuidar de prisioneiros doentes que estavam em regime de trabalho forçado.

Depois da guerra a família voltou para Sofia, capital da Bulgária. Mas ainda naquela mesma década de 40, em sua segunda metade, o país voltou a viver sob a sombra de um regime político autoritário – o stalinismo comunista.

Em 1949, a família Mechoulam decide se mudar para o Oriente Médio, a nova casa dos judeus – Israel, o pequeno país recém-nascido do acordo político que desenhou a estrutura do mundo no pós-guerra. E, ali, na Terra Santa, teve início a grande aventura do cientista bioquímico Dr. Raphael Mechoulam.

Nos anos 50, em Jerusalém, Mechoulam estuda química e ganha sua primeira experiência de pesquisa no exército israelense, trabalhando com inseticidas. Aos 22 anos estava formado. E com 28 já era Ph.D pelo instituto de pesquisa Weizmann, o mais respeitado de Israel.  

Depois de estudos de pós-doutorado no Rockefeller Institute, Nova York (1959-60), ele volta para a equipe científica do Instituto Weizmann (1960-65), antes de se mudar para a Universidade Hebraica de Jerusalém, onde se tornou professor em 1972. E lá pesquisa e dá aulas até os dias atuais, com 88 anos de idade. Dr. Raphael é um homem raro, com uma história pessoal rica e décadas de dedicação incessante ao trabalho da ciência.

O ponto de inflexão da carreira de Mechoulam está diretamente relacionado com a revolução atual sobre o conceito da maconha. Mechoulam é o “Pelé” da cannabis medicinal. Ele e seu grupo de pesquisa tiveram sucesso na síntese total dos principais canabinóides vegetais: Δ9-tetrahidrocanabinol, canabidiol, cannabigerol e vários outros. Canabinoide é uma substância que ativa receptores encontrados nos sistemas nervoso e imunológico de animais e seres humanos.

A partir de boas relações com o Instituto Weizmann em Israel e seus representantes aqui no Brasil, o Sechat conseguiu uma entrevista exclusiva com o grande cientista da maconha medicinal. De seu escritório em Jerusalém, Mechoulam conversou com a redação do nosso portal. Dr. Raphael falou sobre o caminho para a regulação dos derivados da cannabis no Brasil e do processo mundial bastante acelerado de reconhecimento das propriedades medicinais do vegetal cannabis sativa.
 

Sechat: Você acredita que chegamos em um ponto em que a indústria farmacêutica não pode mais atrasar a entrada de medicamentos da cannabis em seus catálogos?

Mechoulam: A indústria farmacêutica já está avançando com os derivados e eles podem representar uma nova linha importante de medicamentos.

Sechat: Você realmente acha que a maconha medicinal para o tratamento de doenças como Esclerose Múltipla, Autismo, Parkinson, Alzheimer, Epilepsia e tantas outras é irreversível?

Mechoulam: Certamente em algumas doenças – como a epilepsia pediátrica, em que novas drogas são necessárias. Quanto mais ensaios clínicos forem concluídos, provavelmente veremos o mesmo em outras doenças – como doenças autoimunes e, possivelmente, esquizofrenia.

Sechat: O Brasil aparece em sua pesquisa com a parceria com o Dr. Carlini – nos anos 80. Por que você acha que o Brasil está tão atrasado na regulamentação da maconha medicinal?

Mechoulam: Acredito que o Brasil é um país relativamente conservador e, em temas como a maconha, ele vai devagar. Mas, como existe uma pesquisa notável nessa área no Brasil, acredito que preparações específicas de maconha medicinal serão gradualmente aceitas e regulamentadas oficialmente. Dr. Carlini trabalhou comigo e foi quem obteve os primeiros resultados bons em pacientes com episódios de convulsão diários. Isso há 30 anos. Por que essa pesquisa não seguiu? Por que não pode ser retomada? Por que não tem espaço para essa discussão? São boas perguntas. E esse é momento de fazê-las.

Sechat: Qual é o país que você acha que está tratando esse problema mais corretamente?

Mechoulam: A Suíça possuí um conjunto de leis muito avançado. E o país já permite produtos de cannabis com menos de um por cento de THC. E em julho passado começaram por lá a explorar novas maneiras de regularizar tipos de maconha mais potentes.

Sechat: De que maneira a regulação do uso médico em um país do tamanho e da importância do Brasil pode impactar a pesquisa mundial? Vale dizer que o Brasil é o quarto maior consumidor de medicamentos do planeta.

Mechoulam: Presumo que se o CBD for aprovado e bem regulado, seu uso no Brasil será bastante amplo. Trata-se de um país gigantesco, com 200 milhões de pessoas, muitas questões, dores e doenças. Terapias novas e bem fundamentadas só podem ajudar. Vejo que é uma questão de tempo.

 Sechat: Por que você acha que o preconceito (tabu) sobre a cannabis está finalmente morrendo?

Mechoulam: Na medida em que mais pesquisas são publicadas, torna-se óbvio que preparações específicas de cannabis são drogas boas. Minha ênfase é na medicalização da cannabis, e não na legalização absoluta da cannabis, que é uma questão social.

Sechat: Você tem contato com jovens cientistas?

Mechoulam: Eu ainda leciono estudantes de pós-graduação na Universidade Hebraica de Jerusalém. Eu tenho um bando de entusiastas jovens que trabalham no meu grupo. A maioria é de Israel, mas um alemão e um americano acabaram de se juntar ao meu grupo. No momento, meu grupo é um “saco misto” de pesquisadores: Árabes muçulmanos e cristãos, observadores e judeus não observantes. Eles trabalham juntos muito bem de fato. É uma tragédia que israelenses e palestinos não possam conviver melhor por conta do conflito local. Existem bons cientistas nas duas comunidades. Meu ensinamento não tem fronteiras definidas – eu ensino química e biologia. Eu não acredito que a natureza tenha fronteiras de conhecimento.

Sechat: Existe um episódio pitoresco da etapa de sua pesquisa de síntese do THC que foi a mistura da planta da maconha em alimentos oferecidos para seus colegas. Como foi? Pode nos contar?

Em 1963, conseguimos isolar alguns dos componentes da cannabis: o CBD e o THC. Para sacramentar a conclusão eu e minha mulher fizemos uma observação curiosa: Servimos um bolo para um grupo de amigos. Para uma metade, demos um bolo comum, para a outra, um bolo com o THC, o princípio ativo da maconha. Naquela noite, apenas os que comeram o bolo com THC apresentaram olhos avermelhados, fome, sensação de dilatação do tempo, euforia, risos espontâneos, etc. Na noite seguinte, repeti o teste colocando o CBD no lugar do THC. E nada aconteceu aos convidados. E foi assim que os primeiros canabinoides e seus efeitos foram descobertos. Fazer essa experiência foi muito divertido.

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