Associações estruturam produção e padrões de qualidade na cannabis medicinal no Brasil

Mesmo sem regulamentação definitiva e amparadas pela Justiça, entidades estruturam processos rigorosos, padronizam extratos e adotam padrões técnicos equivalentes aos da indústria farmacêutica; movimento já atende cerca de 150 mil pacientes no país

Publicada em 08/01/2026

Associações elevam padrão de qualidade e consolidam modelo para a cannabis medicinal no Brasil

Imagem ilustrativa: Canva Pro

As associações de apoio aos pacientes de cannabis medicinal no Brasil são um meio importante para levar a terapia canábica a milhares de pessoas. O que começou com pequenos grupos de pacientes buscando autonomia terapêutica se tornou, em muitos casos, uma estrutura técnica robusta, baseada em metodologias farmacêuticas e protocolos rígidos de controle.

E muitas associações brasileiras representam esse protagonismo importante do acesso à cannabis medicinal. O processo, que antes poderia ser associado à informalidade de um preparo artesanal, hoje se apoia em genética controlada, padrões laboratoriais e rastreabilidade completa desde a semente. 

O Brasil tem centenas de associações espalhadas em todo o território nacional e pelo menos três Federações de Associações Canábicas, entidades criadas para organizar e reunir outras associações. Neste setor em expansão, existem muitos exemplos de associações que oferecem produtos que ajudam no tratamento de centenas de pacientes.  

 

G santa cannabis.png
Gabriela Kreffta, farmacêutica da Santa Cannabis, em atividade no laboratório da instituição | Imagem: Arquivo Institucional 

 

A farmacêutica Gabriela Kreffta explica que tudo começa muito antes do frasco chegar às mãos do paciente. “ O processo começa no cultivo orgânico, com genética controlada e rastreada desde a semente”, diz. Segundo ela, a extração é feita com solvente grau alimentício resfriado e protocolos que preservam os compostos bioativos. “Após a colheita e a secagem, o material vegetal passa por uma extração com solvente grau alimentício previamente resfriado [...] o que aumenta a seletividade e preserva melhor os compostos de interesse, como os canabinoides e terpenos”, detalha a responsável técnica da associação Santa Cannabis fundada no ano de 2019 em Santa Catarina. 

A partir daí, o processo entra numa lógica industrial: filtração de precisão, evaporação em ambiente controlado, ativação dos canabinoides sob vácuo e testes de pureza e estabilidade. Tudo acompanhado de análises periódicas. 

Esse controle de pressão e temperatura é fundamental para alcançar resultados mais estáveis e reprodutíveis”, afirma.

O objetivo é garantir que cada frasco represente uma fórmula previsível — um desafio técnico que diferencia o setor.

 

Da planta ao frasco: controle ponto a ponto

 

Imagem do WhatsApp de 2025-11-26 à(s) 17.30.57_f9459ae2.jpg
Cultivo da Santa Cannabis, onde plantas são acompanhadas desde a genética até a fase final de crescimento. | Imagem: Sechat 

 

Um dos avanços mais significativos é o controle contínuo de qualidade, que acontece em todas as fases da produção. Gabriela explica que a associação monitora a planta desde o cultivo: “O controle de qualidade é contínuo e integrado a todas as etapas do processo produtivo, sendo executado em parceria com um laboratório independente, acreditado e participante da Rede REBLAS/Anvisa" - que significa Rede Brasileira de Laboratórios Analíticos em Saúde constituída por laboratórios analíticos, públicos ou privados, habilitados pela Anvisa, capazes de oferecer serviços de interesse sanitário com qualidade, confiabilidade, segurança e rastreabilidade. No Brasil, já são mais de 15 laboratórios habilitados para análise de produtos de cannabis. 

Esse monitoramento inclui controle ambiental, análise de solo, avaliações periódicas de canabinoides e exames para garantir ausência de contaminantes. “A biomassa vegetal é analisada conforme as diretrizes da Farmacopeia Brasileira, avaliando-se a ausência de metais pesados, micotoxinas e contaminantes microbiológicos”, destaca.

Após a extração, o rigor se intensifica. Segundo a especialista, cada lote passa por testes que determinam se está apto para ser envasado; identificação, inspeção visual, checagem de volume e emissão dos Certificados de Análise (CoA) - documento técnico emitido por laboratórios acreditados que comprova a composição, pureza, potência e segurança de um produto — no caso da cannabis medicinal, detalha concentrações de canabinoides, presença de contaminantes, solventes residuais, metais pesados e parâmetros microbiológicos. Essas etapas formam uma cadeia de controle que mira o padrão industrial farmacêutico. “De acordo com os lotes, são emitidos os Certificados de Análise (CoA), que validam o produto final e confirmam a aderência a um processo padronizado e reprodutível”.

 

Transporte também é parte do processo

 

Uma mudança pouco discutida, mas fundamental para a segurança, é o cuidado com o transporte do óleo — parte da cadeia produtiva que muitas vezes é ignorada.

A farmacêutica explica que não basta produzir bem; é preciso garantir que o produto não seja comprometido no percurso. “Utilizamos frascos de vidro âmbar, que minimizam a interferência da luz sobre os canabinoides, e embalagens estruturadas, que evitam impactos, vazamentos e variações térmicas durante o envio”.

 

Padronização

 

A padronização da concentração de canabinoides é um dos pilares que diferenciam um produto seguro de um produto imprevisível. Gabriela descreve um processo que se apoia no padrão-ouro da química analítica. “A padronização é garantida por análises quantitativas de canabinoides realizadas por cromatografia (HPLC)”, explica.

Nesse processo, balanças analíticas de alta precisão e amostragem rigorosa garantem que cada lote mantenha a mesma potência. “Essa é a diferença entre um produto artesanal e um produto desenvolvido com rigor técnico e farmacêutico”, resume.

 

Laboratórios acreditados

 

A etapa final — liberação do produto para o paciente — não é feita pela própria associação. Para evitar conflitos e elevar a confiabilidade, os testes são realizados por um laboratório externo.

Gabriela detalha a estrutura: “A análise final dos produtos da Santa Cannabis é realizada em laboratório independente, credenciado pela Rede REBLAS/Anvisa e certificado pela ISO 17025”. A parceria com o DALL Phytolab, conforme ela explica, garante rastreabilidade e precisão metrológica.

Internamente, a farmacêutica ainda destaca a importância de triagens e acompanhamento de processo, mas deixa claro: “A liberação final é sempre feita com base em laudos emitidos pelo laboratório acreditado”.

 

Ambiente controlado e ausência de contaminantes

 

Para garantir pureza e segurança, certas associações passaram a operar com protocolos que lembram as boas práticas de fabricação farmacêuticas. Gabriela descreve ambientes restritos, higienização total e controle para evitar contaminação cruzada.

Buscamos seguir as Boas Práticas de Fabricação e Manipulação [...] garantindo a ausência de metais pesados, fungos, microrganismos e solventes residuais”, afirma.

 

Rastreabilidade total — e a chegada do SAP

 

A rastreabilidade hoje é um diferencial importante para as associações. Cada lote tem uma história completa: da semente ao frasco.

Desde a entrada da semente, cada lote é identificado e registrado em nosso sistema interno de controle, garantindo rastreabilidade completa em todas as etapas”, explica Gabriela.

Ela diz que a associação onde atua está em fase de implementação do SAP — sistema usado por indústrias farmacêuticas. “O SAP permitirá centralizar e interligar dados de produção, estoque, qualidade e distribuição”, diz.

Segundo a associação, já foram investidos cerca de R$ 2 milhões em estrutura física e equipamentos desde a sua fundação em 2019. 

A confiança médica — e o que ainda falta

 

Para os médicos, previsibilidade e acesso à informação são fundamentais. Gabriela destaca: “O médico precisa ter clareza sobre a concentração do produto, o perfil de canabinoides, a forma farmacêutica e via de administração”.

Segundo ela, a associação oferece suporte técnico, reuniões, materiais e laudos. Mas ainda há barreiras. “Falta um reconhecimento formal da qualidade técnica que muitas associações já alcançaram”, afirma.

Gabriela reforça que grande parte das evidências clínicas brasileiras foi produzida com produtos de associações — e que isso deveria ser considerado pelos reguladores.

 

Critérios para o paciente e a importância da transparência

 

Gabriela recomenda que o paciente exija documentos e verifique a origem e a qualidade. “O paciente deve verificar se a associação possui regularização institucional, responsabilidade técnica farmacêutica e controle de qualidade documentado”, diz.

E, sobre segurança: “O paciente deve solicitar o CoA e verificar se as análises foram realizadas por laboratórios confiáveis”.

A diferença entre um óleo artesanal e um óleo tecnicamente produzido, segundo ela, é evidente: “Um óleo artesanal apresenta variabilidade de dose, pureza e composição [...] Já um óleo produzido sob controle técnico e laboratorial possui estabilidade físico-química, padronização de concentração e reprodutibilidade entre lotes”.

 

O papel social das associações

 

Apesar dos avanços técnicos, Gabriela lembra o propósito original das associações. Uma missão que, segundo ela, não pode ser esquecida. “São as associações que há anos produzem resultados concretos, melhoram a qualidade de vida de pacientes e famílias, impulsionam o avanço do setor e mantêm viva uma rede de solidariedade e pesquisa”.

Para ela, confiar em uma associação séria é reconhecer um modelo que une ciência, ética e impacto social. “Nossa missão é garantir acesso a produtos seguros, eficazes e tecnicamente validados — mas com a sensibilidade humana e o impacto social que apenas o trabalho associativo é capaz de oferecer”.

 

Estrutura técnica e controle de qualidade

 

A_-27 (1).jpg
Autorizada judicialmente para o cultivo e o fornecimento de derivados da Cannabis sativa desde 2017, a ABRACE Esperança possui mais de uma década de atuação no atendimento a pacientes e mantém estrutura laboratorial própria e programas de controle de qualidade em João Pessoa (PB). | Imagem: Arquivo Abrace

 

Com autorização judicial para cultivar e fornecer derivados da Cannabis sativa desde 2017, a Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança — ABRACE Esperança — atua há quase uma década no atendimento a pacientes que utilizam produtos à base de cannabis medicinal no Brasil. Sediada em João Pessoa (PB), a associação investe em estrutura técnica própria, incluindo laboratórios e programas rigorosos de controle de qualidade.

“Não há como garantir qualidade sem estrutura farmacêutica.” A afirmação é de Umberto Souza, farmacêutico responsável técnico da ABRACE Esperança. Com experiência em Garantia da Qualidade e validação na indústria do medicamento, ele destaca que produzir óleo de cannabis com padrão farmacêutico exige mais do que boa intenção. “Exige instalações adequadas, equipamentos certificados, processos validados, profissionais qualificados e, principalmente, um compromisso inabalável com a segurança do paciente.”

 

A jornada começa no cultivo

 

Ele conta que o processo tem início ainda na escolha das plantas. A associação trabalha com genéticas específicas, selecionadas de acordo com o perfil de canabinoides desejado para cada tratamento. “O cultivo já é uma etapa de controle de qualidade.”

Segundo Umberto, desde a seleção genética até a produção de mudas, tudo é acompanhado de perto. “A seleção genética, a produção de mudas e o cultivo são totalmente controlados e monitorados.”

O responsável técnico também explica que a temperatura, umidade, iluminação e nutrição são monitoradas continuamente. A colheita ocorre no momento ideal, quando os canabinoides atingem a concentração adequada. “A colheita ocorre no ponto ideal, com separação de partes da planta.”

Após essa etapa, o controle segue rigoroso na secagem e na cura, com atenção constante à umidade, temperatura e ventilação. “O armazenamento também é um ponto de atenção, feito em embalagens livres de luz, oxigênio e umidade, em temperaturas controladas com identificação por lote.”

 

A_-371 (2).jpg
Na unidade da ABRACE Esperança, o cultivo de Cannabis sativa é conduzido em áreas técnicas controladas, com acompanhamento de etapas que incluem manejo das plantas, coleta de amostras e posterior envio para análise laboratorial | Imagem: Arquivo Abrace

Do extrato ao frasco

 

Depois da pós-colheita, o material segue para a extração. De acordo com Umberto, o método utilizado é a maceração etanólica estática, seguida de rotaevaporação do solvente. O extrato obtido passa então pela formulação, na qual ocorre a diluição até a concentração desejada.

O envase e o fechamento dos frascos são realizados em área limpa, com frascos higienizados, antes de o lote seguir para as análises finais de controle de qualidade e liberação.

 

Dentro do laboratório: onde a ciência acontece

 

A maior parte dos ensaios laboratoriais é realizada dentro da própria associação.

“Hoje a ABRACE realiza a grande maioria dos seus testes internamente, através de equipamentos certificados, métodos validados e técnicos experientes, o que garante perante a ANVISA autonomia para realização dos ensaios de controle de qualidade.”

As análises incluem:

  • - Perfil de canabinoides
  • - Metais pesados
  • - Microbiologia
  • - Resíduos de solventes e agrotóxicos, quando aplicável

Somente após a aprovação em todas as etapas o lote é liberado, afirma o responsável técnico. 

Padronização e previsibilidade terapêutica

 

A constância da concentração entre diferentes frascos é garantida por processos técnicos bem definidos.

“Padronização de processos, cálculos de formulação precisos, balanças calibradas e análises laboratoriais”, diz Umberto. 

Esse conjunto de práticas assegura previsibilidade terapêutica, permitindo que médicos prescrevam com confiança e pacientes recebam tratamentos consistentes.

 

Rastreabilidade total

 

Segundo Umberto, a associação mantém registros completos de cada etapa do processo. “Registros desde a semente até o produto terminado.” Esse nível de rastreabilidade permite identificar rapidamente qualquer desvio e reforça a segurança do paciente.

 

Laudos e transparência

 

Cada lote gera um documento técnico, garante o farmacêutico. “Sim, laudo analítico ou Certificado de Análise (CoA), é Gerado para cada lote, fica internamente com a ABRACE, mas Podemos disponibilizar quando o associado solicita.”

O acesso é garantido. “Sim, através de solicitação.”

Nos laudos constam concentração de canabinoides, metodologia analítica, número do lote e resultados de contaminantes.

 

Médicos no centro do processo

 

Para Umberto, o suporte técnico ao prescritor é parte essencial da estratégia. “Tipo de canabinoide alvo da terapia (Exemplo: CBD; THC; CBD+THC); concentração; via de administração; forma de uso e posologia individualizada.”

Essas informações são compartilhadas por diferentes canais. “Portal, e-mail, materiais técnicos, reuniões.”

Há também contato direto com a equipe técnica. “Sim, via contato direto em um canal de atendimento exclusivo ao prescritor.”

 

Artesanal versus técnico

 

A diferença entre um óleo artesanal e um produto técnico é clara. “Regularidade de dose, segurança, eficácia e confiança.” 

Para Umberto, não há atalho possível. “Não há como garantir qualidade sem estrutura farmacêutica.”

 

O que ainda falta

 

Mesmo com rigor técnico, o avanço do setor enfrenta entraves.

Segundo ele, regras regulatórias mais objetivas trariam segurança jurídica, ampliariam o acesso e fortaleceriam a confiança médica. “Clareza regulatória.” 

Para médicos e pacientes, o recado é direto. “Associações sérias oferecem tratamento seguro, transparente e humanizado, com dados confiáveis para médicos e segurança para pacientes”,  afirma Umberto ao finalizar dizendo que transformar uma planta em medicina exige ciência. "E medicina exige rigor."

 

Brasil reúne diversas associações dedicadas ao acesso e à qualidade da cannabis medicinal

 

O Brasil conta com diversas associações dedicadas ao apoio, pesquisa e integração de pacientes, profissionais e o setor produtivo no campo da cannabis medicinal, que atuam de norte a sul do país em contextos clínicos, científicos e sociais. Na lista disponível no portal Sechat, estão entidades como a APEPI – Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal, a Abrace – Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança, a AMA+ME – Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal, a CULTIVE – Associação de Cannabis e Saúde e a PRÓ-VIDA – Associação de Pacientes e Profissionais de Cannabis Medicinal, entre muitas outras espalhadas por diferentes estados e realidades brasileiras. 

Além dessas, organizações como a Associação CANNAB – para Pesquisa e Desenvolvimento da Cannabis Medicinal no Brasil, a Associação Brasileira das Indústrias de Cannabis e Cânhamo (ABICANN) e a Sociedade Brasileira de Estudo da Cannabis Sativa (SBEC) contribuem com foco em desenvolvimento científico, políticas públicas e fortalecimento do setor industrial no país. Veja mais associações nesta lista. 

Essa matéria faz parte de uma série de reportagens que abordam a qualidade da cannabis medicinal em todos os setores do ecossistema, analisando desde a atuação das associações e da indústria nacional até a comparação com produtos importados, em uma investigação completa sobre acesso, segurança e eficácia terapêutica no Brasil.

Associações estruturam produção e padrões de qualidade...