Cannabis na juventude: o que a ciência diz sobre o uso recreativo em adolescentes e jovens adultos

Estudos mostram que há variação em algumas regiões do cérebro de adolescentes e adultos que começaram a usar cannabis na juventude em comparação àqueles que iniciaram o uso da substância mais tardiamente

Publicada em 13/02/2026

Imagem ilustrativa de cérebro humano com destaque para áreas ligadas à memória e ao córtex pré-frontal, associadas a estudos sobre uso de cannabis na adolescência

Pesquisas recentes apontam que o início precoce do uso de cannabis pode estar associado a alterações na estrutura e na função cerebral em jovens. | Crédito: Canva Pro

 

Fase importante para a formação cerebral do ser humano, a adolescência e o começo da vida adulta costumam ser momentos em que a cannabis é introduzida no círculo social e/ou no cotidiano de muitos indivíduos. A ciência estuda como o uso precoce pode estar associado a mudanças cerebrais e a padrões cognitivos.

 

 

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O que se sabe

 

Os estudos que se debruçaram sobre essa mudança nos padrões cerebrais apontaram diferenças de cognição e nas imagens do órgão. Embora o uso de cannabis na adolescência tenha sido amplamente associado ao aumento do risco de transtornos psiquiátricos, pior desempenho acadêmico e alterações na atividade e na estrutura cerebral, poucos estudos conseguiram comprovar que a cannabis sozinha é capaz de apresentar tal risco. Muitos desses efeitos estão relacionados a doenças e condições pré-existentes, que podem ser acentuadas com o uso da substância.

Em outras palavras, a cannabis pode acelerar efeitos em indivíduos que já apresentem propensão ao desenvolvimento de algumas doenças, como esquizofrenia e transtornos de ansiedade, mas não é possível afirmar que a substância leve ao quadro se consumida sozinha.

Além disso, pesquisas vêm aprofundando a compreensão sobre os possíveis impactos neurológicos do uso precoce e intenso da cannabis. Um estudo publicado em janeiro de 2025 no PubMed/NIH, intitulado Brain Function Outcomes of Recent and Lifetime Cannabis Use, observou que o uso pesado ao longo da vida está associado à menor ativação de regiões cerebrais estratégicas, como o córtex pré-frontal dorsolateral, especialmente durante tarefas que exigem memória de trabalho e controle executivo.

Já uma revisão de escopo publicada em 2025 na revista Frontiers in Psychiatry, intitulada Cannabis use in adolescence and young adulthood: a scoping review, que analisou quase 100 estudos envolvendo adolescentes e jovens adultos, encontrou evidências consistentes de alterações estruturais e funcionais no cérebro — incluindo mudanças na matéria branca, na matéria cinzenta e na concentração de metabólitos cerebrais — embora destaque a necessidade de estudos longitudinais para avaliar a extensão e a possível reversibilidade desses efeitos ao longo do tempo.

Por sua vez, um artigo publicado em setembro de 2025 no PubMed Central (PMC), intitulado Cannabis Use in Adolescents: Brain Development and Mental Health, indicou que o uso diário de cannabis de alta potência pode aumentar em até cinco vezes o risco de transtornos psicóticos em indivíduos com vulnerabilidade prévia, reforçando o papel da predisposição individual como fator determinante.

 

Possibilidade de comprometimento do amadurecimento do cérebro

 

Estudos realizados pelo Center for BrainHealth, da University of Texas at Dallas, com resultados publicados em fevereiro de 2016, indicam que a idade de início do uso de maconha pode ter efeitos de longo prazo no desenvolvimento cerebral: participantes que iniciaram uso antes dos 16 anos apresentaram variações no córtex pré-frontal que sugerem um atraso no desenvolvimento normal dessa região, responsável por julgamento e raciocínio complexo, enquanto aqueles que começaram após essa idade exibiram mudanças mais associadas a padrões de envelhecimento cerebral acelerado.

O prejuízo nessas áreas pode se traduzir em dificuldades cognitivas que acompanham o indivíduo até a vida adulta. Curiosamente, para aqueles que começaram após os 16 anos, os danos observados foram diferentes, manifestando-se como um envelhecimento precoce das estruturas cerebrais.

Assim como outros estudos que são referências na área, a metodologia incluiu adolescentes e jovens adultos e monitorou o funcionamento do cérebro por alguns anos. Características sociológicas, étnicas e geográficas foram consideradas, em um estudo que reuniu diferentes perfis de indivíduos.

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Dr. Flávio Gerladis, médico neuropediatra, destaca que o cérebro ainda em desenvolvimento pode ser mais vulnerável aos efeitos do uso frequente de cannabis. | Foto: Arquivo Pessoal

Para o médico e neuropediatra Flávio Alves, "a maturidade do cérebro é um processo muito complexo, mas a cannabis, quando fumada, pode influenciar negativamente se consumida com frequência, sobretudo em pessoas mais jovens. É um momento em que o cérebro está fresco e ainda se desenvolvendo, por isso o risco acaba sendo maior. É possível dizer que esse mesmo risco é mitigado ao longo do tempo, a partir dos 26 anos", comenta.

 

Influência no sistema endocanabinoide

 

Responsável por regular algumas condições celulares e fatores como apetite, dor, sono e a memória, o sistema endocanabinoide é o mais afetado pelo uso da cannabis, principalmente quando confrontado por grandes quantidades de THC (substância comum no consumo, sobretudo quando existe inalação da cannabis). Os receptores espalhados pelo corpo podem se desregular e sofrer alterações, sobretudo quando o uso é contínuo.

"É como se o THC fosse roubando o espaço dos receptores e saturando assim a sua atuação. Nesse caso, existe um grande potencial ansiogênico associado ao uso da cannabis fumada", complementa Flávio.

 

Como mitigar riscos e tratar o assunto

 

Na adolescência, o uso prolongado da cannabis pode interferir em diversos fatores cognitivos e atrapalhar no desempenho escolar. Além disso, fatores sociais, ambientais e genéticos podem contribuir para o desenvolvimento de doenças, como esquizofrenia, ansiedade e quadros pulmonares, sobretudo quando a cannabis é fumada. Para diminuir todos esses riscos, o uso contínuo deve ser evitado.

 

Relatos

 

Matias Santos, usuário desde os 14 anos, revelou que teve algumas dificuldades durante seu período escolar, mas que não credita apenas ao uso da substância:

"Eu comecei a fumar cedo e acho que pode ter afetado um pouco o meu foco na época de escola, mas não acredito que tenha sido o único fator. É um momento de pressão, mudança hormonal e entrada na vida de adolescente para adulto. Muita coisa interfere além do que você consome. Acho que o álcool, muito mais aceito e presente de jovens e de adultos, me trouxe mais imprevistos do que a cannabis durante toda minha fase de adolescência. Hoje não fumo mais e reduzi imensamente o meu consumo de álcool por uma questão de saúde, mas acho que as doses que utilizei quando mais jovem interferiram um pouco em alguns processos", comentou.

Considerando estudos mais recentes, não existe risco de desenvolvimento de doenças a partir do uso da cannabis. A substância, porém, sobretudo se fumada, pode acelerar alguns fatores genéticos de propensão às doenças em alguns indivíduos. No curto prazo, o uso contínuo pode gerar algumas questões, como perda de foco, comprometimento da memória e dificuldade de raciocínio — influências que nem sempre se mostram relevantes a longo prazo, segundo os estudos mais recentes.

A comunidade médica, em sua maioria, não recomenda o uso recreativo em adolescentes e jovens adultos, sobretudo por conta do desenvolvimento do cérebro. Existem casos específicos em que o uso da cannabis por inalação, incluindo vaporização, dabbing e fumo são indicados por profissional da saúde.