Uso de cannabis entre adolescentes se associa ao aumento do sofrimento psicológico, aponta estudo no Canadá

Pesquisa com mais de 35 mil estudantes mostra que a relação entre cannabis e ansiedade ou depressão se intensificou entre 2013 e 2023, especialmente entre meninas e usuários frequentes

Publicada em 04/02/2026

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O sofrimento psicológico entre adolescentes mais do que dobrou na última década em Ontário, no Canadá, e o uso de cannabis aparece estatisticamente associado a esse cenário — sobretudo entre jovens do sexo feminino e aqueles que consomem a substância com maior frequência. É o que revela um estudo populacional publicado em janeiro de 2026 na revista científica Addiction.

A pesquisa analisou dados de 35.007 estudantes do ensino fundamental e médio, do 7º ao 12º ano, coletados entre 2013 e 2023 por meio do Ontario Student Drug Use and Health Survey. Os resultados mostram que, enquanto o consumo de cannabis entre adolescentes caiu no período, os indicadores de ansiedade e depressão cresceram de forma expressiva.

Sofrimento psicológico cresce mesmo com queda no uso de cannabis

 

De acordo com o levantamento, a prevalência de sofrimento psicológico — medido pela escala Kessler-6, que avalia sintomas de ansiedade e depressão — passou de 10,7% em 2013 para 27,4% em 2023. No mesmo intervalo, o uso de cannabis no último ano caiu de 23,1% para 17,6% entre os adolescentes.

Apesar da redução no número de usuários, o estudo identificou que jovens que consumiram cannabis apresentaram maior prevalência de sofrimento psicológico em comparação aos que não usaram a substância, mesmo após ajustes para idade, condição socioeconômica, uso de álcool e cigarro.

Entre os adolescentes que relataram uso muito frequente — 40 vezes ou mais no ano — a associação se fortaleceu ao longo do tempo. Em 2013, não havia diferença estatisticamente relevante em relação aos não usuários. Em 2023, esse grupo apresentou uma prevalência de sofrimento psicológico 18 pontos percentuais maior.

Diferenças entre sexos e impacto da frequência de uso

 

Um dos achados centrais do estudo é a diferença marcante entre sexos. Entre meninas, o uso de cannabis apresentou uma relação clara de dose–resposta: quanto maior a frequência de consumo, maior a prevalência de sofrimento psicológico. Já entre meninos, essa associação não foi estatisticamente significativa em nenhuma das faixas de uso analisadas.

Segundo os dados, meninas que usaram cannabis 40 vezes ou mais no último ano apresentaram uma prevalência de sofrimento psicológico 19% maior do que aquelas que não usaram a substância. O padrão se manteve mesmo após o controle de fatores comportamentais e socioeconômicos.

Os autores também observaram que o início mais precoce do uso de cannabis está associado a piores desfechos em saúde mental. Cada ano adicional de atraso no início do consumo foi associado a uma redução de 5% na prevalência de sofrimento psicológico entre estudantes do ensino médio.

Potência do THC e uso como estratégia de enfrentamento

 

Embora o estudo não tenha medido diretamente a potência dos produtos de cannabis consumidos, os pesquisadores utilizaram o ano da pesquisa como um indicador indireto do aumento do teor de THC ao longo do tempo. Dados canadenses mostram que a concentração média de THC na cannabis aumentou de cerca de 6% nos anos 1990 para aproximadamente 20% a partir de 2018, além da popularização de extratos com concentrações ainda mais elevadas.

Em 2023, quase metade dos adolescentes que usaram cannabis afirmou consumir a substância como forma de lidar com sofrimento psicológico. Entre meninas com uso muito frequente, esse percentual chegou a 96%. O estudo também identificou altos índices de necessidade não atendida de cuidado em saúde mental, especialmente entre usuárias frequentes.

Os autores destacam que, apesar da associação observada, o desenho transversal da pesquisa não permite estabelecer causalidade. Ainda assim, os resultados levantam preocupações relevantes para a saúde pública juvenil.

Implicações para políticas públicas

 

Com base no princípio da precaução, os pesquisadores defendem que estratégias de prevenção devem priorizar a redução da frequência de uso, o adiamento da idade de iniciação e o controle da potência dos produtos de cannabis, com atenção especial às adolescentes do sexo feminino.

O estudo reforça a necessidade de integrar políticas de saúde mental e prevenção ao uso de substâncias em um contexto de maior acesso, normalização social da cannabis e aumento consistente dos indicadores de sofrimento psicológico entre jovens.