<strong>CBCM2023: Preconceito e abuso de opióides ganham espaço em debate sobre cannabis medicinal</strong>

Palestrantes do Bloco 2 “Saúde” levantaram as principais questões sobre a cannabis no tratamento da dor, na oncologia e para a terceira idade

Publicada em 05/05/2023

<strong>CBCM2023: Preconceito e abuso de opióides ganham espaço em debate sobre cannabis medicinal</strong>

Por Bianca Rodrigues

O tema preconceito e abuso de opióides foi destaque, na 2ª Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal, por causa dos mitos criados em relação a planta. Enquanto muitas pessoas acreditam que a cannabis seja a solução para todos os males, outras têm medo de recorrer aos benefícios medicinais. Nesta quinta-feira (04), o evento, organizado pela Sechat e realizado no Expo Center Norte, em São Paulo, reuniu milhares de pessoas interessadas no conhecimento capaz de desvendar os mistérios criados em relação à planta.

Durante o segundo bloco do evento, os doutores Mauro Araújo, Cristiano Abreu e Edson Peracchi trouxeram novidades  sobre o uso da cannabis em tratamentos médicos de suas respectivas especialidades. Veja os principais destaques do Bloco 2 “Saúde”:

“Muita gente tem medo de usar a cannabis em fase terminal, mas é aí que precisa usar mesmo”, Mauro Araújo

O  Dr. Mauro Araújo, anestesiologista especialista em dor, apresentou os benefícios dos medicamentos à base de cannabis em detrimento ao uso de opióides. 

Mauro Araújo, anestesiologista especialista em dor. (Foto: Bianca Rodrigues)

Tanto o canabidiol (CBD) quanto o tetrahidrocanabinol (THC) podem controlar a dor crônica com a mesma eficácia que produtos à base de ópio, de forma mais segura e controlada. Os opióides estão associados a altas taxas de abuso e dependência por parte dos pacientes, e é considerada a principal causa de morte por overdose nos Estados Unidos e no Canadá. O especialista destacou ainda que, graças ao acesso à cannabis medicinal, o Brasil provavelmente será um dos poucos países em que não haverá abuso de opióides por parte da população. 

Fechando a palestra, Mauro apresentou alguns estudos com resultados positivos sobre o uso de canabinoides no tratamento da dor. Mais de três mil pacientes apresentaram redução da dor em 57% utilizando principalmente produtos à base de tetrahidrocanabinol (THC) e alguns com canabidiol (CBD), além de uma segunda parte que apresentou redução de 33% com produtos combinados. 

“Os trabalhos precisam ser melhores e estar sempre em atualização”, Cristiano Abreu

O  Dr. Cristiano Abreu - oncologista e co-fundador da GrifoLabs, uma HealthTech de curadoria médica - ministrou a segunda palestra da tarde e abordou os temas com maior evidência científica para o uso da cannabis na oncologia. 

  Dr. Cristiano Abreu - oncologista e co-fundador da GrifoLabs.  (Foto: Bianca Rodrigues)

Segundo ele, os pacientes oncológicos são extremamente críticos e na maioria das vezes possuem difícil controle de sinais e sintomas com as medicações atuais. A cannabis surge como alternativa para essa situação dentro do cenário de cuidados paliativos. 

O maior nível de evidência científica hoje é para o uso do tetrahidrocanabinol (THC) no tratamento de náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia, assim como a caquexia e anorexia - perda de peso e apetite induzidos pelo câncer. Além disso, há pesquisas que mostram o benefício do uso do canabidiol (CBD) antes do início da quimioterapia para a prevenção da neuropatia , proporcionando melhor qualidade de vida para esses pacientes.

Além disso, Cristiano fez uma reflexão sobre os estudos da cannabis:“Temos evidências de qualidade e distintas e é inegável a quantidade de pesquisas para respaldar cientificamente as indicações. O que acontece é que as revisões estão buscando trabalhos antigos, e isso acaba enviesando um pouco a nossa forma de trabalhar. Os trabalhos precisam ser melhores e estar sempre em atualização.”

“Hoje o grande desafio é impedir que a cannabis seja vista como uma panaceia”, Edson Luiz Peracchi

Para embasar os benefícios e aplicações dos canabinóides na terceira idade, Edson Peracchi, médico cientista especialista em indústria farmacêutica, apresentou uma evolução clínica do estresse tendo como gatilho a ansiedade.

Edson Peracchi, médico cientista especialista em indústria farmacêutica. (Foto: Bianca Rodrigues)

Ele explicou que diversas doenças como problemas de sono, compulsão alimentar, obesidade, comorbidades, diabetes, hipertensão e depressão estão relacionadas ao estresse e à ansiedade. Ao tratar a ansiedade, se trata o ciclo vicioso que leva à doenças, um processo conhecido como “fisiologia reversa do processo de estresse”. 

Um segundo ponto de atenção da palestra foi a explicação sobre o uso de remédios  derivados de CBD ou até mesmo o uso recreativo com THC, no tratamento de espasticidade muscular, devido ao poder relaxante das substâncias. Edson trouxe ainda uma reflexão sobre o desafio do uso popular da cannabis:

“Hoje o grande desafio é impedir que a cannabis seja vista como uma grande panaceia, para combater  todos os males, que sozinha reverterá o mundo médico. Isso não existe. Isso se faz com interações medicamentosas, com associações de outros medicamentos e recursos terapêuticos, buscando sempre o sinergismo das drogas.”

Perguntas e respostas

Ao final da tarde de palestras, o Dr. Pedro Pierro moderou o bate-papo com os especialistas, onde eles responderam perguntas de outros palestrantes e do público. 

Foram abordadas questões sobre uso de canabinoides por pacientes que consomem anticoagulante, para tratamento da dor crônica e sono, influência do THC na alteração do sono REM e titulação de dose em pacientes oncológicos. 

Pierro aproveitou e também explanou sobre o uso irregular de opióides. “Vocês sabiam que houve um aumento de 400% no uso de opióides sem prescrição médica no Brasil? A codeína é a principal e temos uma marca de 5% da população fazendo uso irregular da droga. É o famoso tramalzinho, a codeínazinha. Acho que se não abrirmos os olhos, teremos uma crise de opióides aqui também” 

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