O que a ciência diz sobre o canabigerol (CBG), um composto da cannabis
Revisão científica publicada na revista Molecules reúne evidências sobre o canabinoide não psicoativo e discute seu potencial terapêutico em processos como inflamação, dor e metabolismo, mas especialistas alertam que ainda faltam estudos clínicos em humanos
Publicada em 13/03/2026

O CBG é um canabinoide presente na planta de cannabis e vem sendo estudado pela ciência por seus possíveis efeitos terapêuticos. Foto: Canva Pro
O avanço das pesquisas sobre cannabis medicinal tem ampliado o olhar da ciência para além dos compostos mais conhecidos da planta, como o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC).
Entre as moléculas que vêm despertando interesse crescente da comunidade científica está o canabigerol (CBG), um canabinoide não psicoativo presente na Cannabis sativa.
Uma revisão científica publicada na revista Molecules analisou os principais estudos disponíveis sobre o composto e reuniu evidências sobre seus possíveis mecanismos de ação no organismo.
O trabalho discute pesquisas que investigam o papel do CBG em processos biológicos como inflamação, dor, neuroproteção e metabolismo energético.
Apesar do interesse crescente, os próprios autores destacam que grande parte das evidências disponíveis ainda vem de estudos pré-clínicos, realizados em laboratório ou em modelos animais.
O que é o CBG
O canabigerol (CBG) é um dos mais de cem fitocanabinoides identificados na planta Cannabis sativa.
Diferentemente do THC, ele não apresenta efeito psicoativo, o que significa que não provoca alterações de percepção ou consciência associadas ao uso recreativo da cannabis.
A nutróloga Dra. Paula Pileggi Vinha, doutora em Clínica Médica pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora na área de medicina canabinoide, explica que o interesse científico pelo composto tem crescido justamente por suas características farmacológicas.
Segundo a médica, o avanço das pesquisas com cannabis medicinal ampliou o foco da ciência para além dos compostos tradicionalmente estudados.
“O CBG é uma molécula extremamente interessante do ponto de vista biológico. Mesmo aparecendo em concentrações menores na planta, ele tem um papel central na formação de outros canabinoides e também apresenta interações relevantes com diferentes sistemas celulares”, afirma a médica.
“Durante muito tempo, a maior parte das pesquisas ficou concentrada no THC e no CBD. Mas hoje sabemos que a planta possui uma grande diversidade de compostos ativos, e muitos deles ainda estão sendo investigados. O CBG é um exemplo de molécula que pode trazer novas perspectivas terapêuticas.”
Diferença entre CBG, CBD e THC
O “canabinoide mãe” da cannabis
Um dos aspectos mais relevantes do CBG está relacionado à própria bioquímica da planta de cannabis.
O CBG é frequentemente chamado de “canabinoide mãe” porque atua como o composto base a partir do qual outros canabinoides essenciais são sintetizados pela planta.
Durante o desenvolvimento do vegetal, o CBG é o ponto de partida químico que, por meio de processos enzimáticos, permite a formação de substâncias amplamente conhecidas, como:
• CBD (canabidiol)
• THC (tetrahidrocanabinol)
• CBG (canabigerol)
Embora sejam derivados da mesma planta, os três compostos possuem propriedades farmacológicas bastante diferentes.
O médico Diego Araldi, pós-graduado em cannabis medicinal, explica que o THC é o canabinoide mais conhecido justamente por seus efeitos psicoativos.
“O THC tem uma ligação muito forte com os receptores CB1 do sistema endocanabinoide, que estão concentrados principalmente no cérebro. Essa interação é o que provoca os efeitos psicoativos característicos da substância”, explicou o pesquisador.
No caso do CBG, os mecanismos de ação ainda estão sendo investigados.
“Os estudos sugerem que o CBG pode atuar em múltiplos alvos biológicos, incluindo receptores ligados à dor, inflamação e atividade neurológica. Essa diversidade de interações é justamente o que desperta o interesse da comunidade científica.”
“O canabidiol não atua da mesma forma que o THC. Ele interage com diferentes sistemas de sinalização celular envolvidos na regulação da ansiedade, da inflamação e da excitabilidade neuronal. Por isso tem sido amplamente estudado para diferentes condições médicas.”
Como o CBG pode agir no organismo
Assim como outros canabinoides, o CBG pode interagir com o sistema endocanabinoide, um sistema biológico presente no corpo humano responsável por ajudar a regular diversas funções fisiológicas.
Esse sistema tem como função principal manter o equilíbrio interno do organismo, processo conhecido como homeostase.
Segundo a Dra. Paula Pileggi Vinha, essa interação é uma das razões pelas quais o CBG vem sendo investigado com maior atenção.
Entre as funções reguladas estão:
• regulação da dor
• processos inflamatórios
• controle do apetite
• sono
• memória
• metabolismo energético
“Os estudos indicam que o CBG pode modular diferentes vias celulares envolvidas na inflamação e na sinalização neuronal. Isso abre possibilidades interessantes de investigação em áreas como doenças inflamatórias e neurodegenerativas.”
Leia também
Cannabis medicinal: como funciona o tratamento e o que diz a ciência
Leia aqui
Canabidiol (CBD): o que é e por que ele é estudado pela medicina
Leia aqui
Sistema endocanabinoide: o que é e qual sua função no organismo
Leia aqui
Pesquisas científicas sobre cannabis avançam no Brasil
Leia aqui
O que os estudos analisados pela revisão indicam
A revisão científica publicada na revista Molecules reuniu resultados de diferentes estudos experimentais que investigaram os efeitos do CBG em modelos biológicos.
“Grande parte dessas evidências vem de estudos experimentais. Isso significa que ainda precisamos de pesquisas clínicas bem conduzidas em humanos para avaliar se esses efeitos realmente se traduzem em benefícios terapêuticos”, explica a Dra. Paula Pileggi Vinha.
Segundo os autores do estudo, esses resultados indicam que o composto possui potencial para investigação em diferentes áreas da medicina. No entanto, especialistas alertam que esses dados ainda precisam ser confirmados em estudos clínicos.
Entre os efeitos mais frequentemente observados estão:
• ação anti-inflamatória
• possível efeito analgésico
• propriedades neuroprotetoras
• influência em processos metabólicos
CBG, metabolismo e síndrome metabólica
Outro ponto discutido na revisão científica é a relação entre o sistema endocanabinoide e o metabolismo energético.
Esse sistema participa da regulação de processos importantes, como controle do apetite, armazenamento de gordura e equilíbrio energético do organismo.
Por essa razão, pesquisadores passaram a investigar possíveis conexões entre canabinoides e a chamada síndrome metabólica, um conjunto de condições que inclui obesidade abdominal, hipertensão, resistência à insulina e alterações nos níveis de colesterol.
No entanto, especialistas destacam que esses resultados não significam que o CBG possa ser utilizado como tratamento para emagrecimento.
“É importante deixar claro que o estudo não prova que o CBG faz emagrecer. O que ele discute são possíveis mecanismos biológicos relacionados ao metabolismo. Para qualquer indicação clínica nesse sentido, seriam necessários ensaios clínicos robustos que comprovem eficácia e segurança em humanos.”
A experiência de uma paciente
Além do avanço das pesquisas científicas, o interesse pela cannabis medicinal também tem crescido entre pacientes.
A administradora Fernanda, de 33 anos, moradora de São Caetano do Sul (SP), começou a utilizar cannabis medicinal após iniciar acompanhamento médico para tratar lipedema e melhorar seu equilíbrio geral de saúde.
Segundo ela, a indicação surgiu após relatar sintomas como ansiedade, cansaço frequente e dificuldade de concentração.
“Minha experiência tem sido muito positiva. Eu percebi melhora na disposição ao longo do dia, mais foco nas atividades e um equilíbrio maior em relação à ansiedade.”
Fernanda afirma que já tinha ouvido falar sobre o uso medicinal da cannabis porque seu pai havia utilizado o tratamento anteriormente.
“A cannabis medicinal ainda enfrenta muito preconceito. Mas quando a gente começa a pesquisar e conversar com profissionais da área, percebe que existe um campo muito sério de estudo e aplicação terapêutica.”
O que ainda precisa ser investigado
Apesar do potencial científico do CBG, especialistas ressaltam que ainda existem muitas perguntas a serem respondidas.
Entre os principais desafios estão:
• determinar doses seguras e eficazes
• avaliar efeitos colaterais a longo prazo
• compreender interações com outros medicamentos
• confirmar benefícios terapêuticos em humanos
Segundo o pesquisador Diego Araldi, esse processo faz parte do desenvolvimento científico de qualquer nova substância.
“Toda molécula promissora passa por um caminho longo de validação científica. Primeiro surgem estudos laboratoriais, depois pesquisas em animais e, por fim, ensaios clínicos controlados em humanos.”
O futuro das pesquisas com CBG
Nos últimos anos, o avanço das técnicas de cultivo e extração da cannabis permitiu o desenvolvimento de variedades da planta com maior concentração de CBG.
Isso tem facilitado o estudo da molécula e ampliado o interesse da comunidade científica.
Para a Dra. Paula Pileggi Vinha, a revisão científica publicada recentemente cumpre um papel importante ao organizar o conhecimento disponível sobre o composto.
“Esse tipo de estudo é fundamental porque reúne o que já foi descoberto e ajuda a orientar as próximas pesquisas. Ainda estamos no início da compreensão do potencial terapêutico do CBG.”
Segundo ela, os próximos anos devem trazer novos ensaios clínicos capazes de esclarecer melhor o papel do composto na medicina.
“O CBG é uma molécula promissora, mas a ciência precisa avançar com cautela e rigor para entender exatamente quais são suas aplicações clínicas.”
Fonte: Matéria baseada em revisão científica publicada na revista Molecules.
Conteúdo informativo. Consulte sempre um profissional de saúde antes de iniciar qualquer tratamento.