Sistema de cannabis na Holanda mantém estrutura híbrida
Durante décadas, Amsterdã foi vista como a capital mundial da cannabis tendo a venda tolerada, enquanto a produção permaneceu ilegal por anos, alimentando um dos maiores debates sobre regulação da planta no mundo
Publicada em 05/06/2026

Internacional
Quando se fala em cannabis na Europa, poucas cidades são tão imediatamente associadas ao tema quanto Amsterdã. Os famosos coffee shops, que há décadas atraem turistas de todo o mundo, ajudaram a construir a imagem da Holanda como um dos países mais liberais em relação à planta.
Mas existe uma contradição que acompanha essa reputação desde os anos 1970: embora a venda de pequenas quantidades de cannabis seja tolerada em estabelecimentos licenciados, a produção da planta permaneceu ilegal durante décadas. O resultado foi um modelo que ganhou fama internacional, mas que também se tornou alvo de críticas dentro do próprio país.
Segundo o site El Planteo, essa contradição ficou conhecida como o "Paradoxo Verde de Amsterdã", um sistema que permitiu que a cannabis se tornasse parte da identidade cultural da cidade sem que houvesse uma legalização completa da cadeia produtiva.
Como surgiram os coffee shops na Holanda
A política holandesa de tolerância começou a ganhar forma em 1976, quando o país passou a diferenciar drogas consideradas de menor risco das substâncias classificadas como mais perigosas. A partir daí, o consumo e a venda de pequenas quantidades de cannabis passaram a ser tolerados em estabelecimentos específicos, os coffee shops.
Ao longo dos anos, esses espaços se transformaram em um dos principais cartões-postais de Amsterdã. Milhões de turistas passaram a visitar a cidade atraídos não apenas pelos canais e museus, mas também pela possibilidade de adquirir cannabis de forma relativamente acessível.
O problema da "porta dos fundos"
Apesar da fama internacional, a política holandesa sempre carregou uma inconsistência estrutural.
Enquanto a venda de pequenas quantidades era tolerada na chamada "porta da frente" dos coffee shops, o abastecimento desses estabelecimentos acontecia por uma "porta dos fundos" que permanecia ilegal. Em outras palavras, os comerciantes podiam vender cannabis, mas não tinham uma forma legal de comprar o produto de seus fornecedores.
Segundo especialistas citados pela Fast Company Brasil, essa ausência de regulamentação da produção acabou sendo considerada por muitos analistas um erro de concepção do sistema, permitindo a atuação de mercados paralelos e organizações criminosas.
O modelo que influenciou o mundo
Mesmo com suas contradições, a experiência holandesa teve impacto global.
Por décadas, Amsterdã foi vista como um laboratório de políticas públicas relacionadas à cannabis. O modelo inspirou debates em diversos países e ajudou a impulsionar discussões sobre descriminalização, redução de danos e regulação do mercado da planta.
A cidade se tornou um símbolo internacional da tolerância, embora a legislação holandesa jamais tenha estabelecido uma legalização plena da cannabis recreativa.
Mudanças recentes na política holandesa
Nos últimos anos, o governo holandês passou a reconhecer as limitações do sistema.
Em 2023, a Holanda iniciou um experimento para regulamentar toda a cadeia da cannabis, incluindo cultivo, fornecimento e comercialização. O objetivo é justamente reduzir a dependência do mercado ilegal e criar um sistema totalmente controlado pelo Estado.
Paralelamente, autoridades locais também passaram a discutir medidas para reduzir o chamado turismo da cannabis. A prefeita de Amsterdã, Femke Halsema, chegou a defender restrições ao acesso de turistas aos coffee shops, argumentando que o crescimento desse mercado trouxe desafios relacionados ao crime organizado e ao turismo excessivo.
O legado do paradoxo verde
Décadas depois de se tornar referência mundial, a política holandesa continua sendo estudada por governos, pesquisadores e agentes do setor da cannabis.
O caso de Amsterdã demonstra que tolerar o consumo é diferente de regulamentar toda a cadeia produtiva. E é justamente essa diferença que explica por que a cidade mais associada à cannabis no planeta passou tantos anos convivendo com um sistema em que a venda era aceita, mas a produção permanecia fora da legalidade.
O chamado "Paradoxo Verde" continua sendo um dos exemplos mais emblemáticos dos desafios enfrentados por países que buscam equilibrar liberdade individual, saúde pública e controle do mercado da cannabis.
Fonte: El.Planteo.