A qualidade dos produtos de cannabis produzidos pela indústria no Brasil
Como a indústria farmacêutica garante qualidade e segurança nos produtos à base de cannabis vendidos no Brasil
Publicada em 17/03/2026

A indústria da cannabis no Brasil se desenvolve e ganha cada vez mais força com as atualizações da Anvisa, que ampliam caminhos regulatórios e impulsionam inovação, acesso e crescimento do setor - Foto: Canva Pro
Por trás de cada frasco de óleo de cannabis vendido nas farmácias brasileiras existe um rigoroso processo de produção que envolve desde o cultivo controlado da planta até análises laboratoriais sofisticadas. A RDC 327/2019 - em 2026 a norma foi atualizada para a RDC 1.015, regulamentação da Anvisa que permite a comercialização desses produtos no país, estabelece padrões que transformaram a cannabis medicinal em um segmento da indústria farmacêutica com exigências que buscam de elevar a segurança e eficácia dos tratamentos à base cannabis.
O Protagonista: CBD e o Elenco de Canabinoides
Por regulamentação da Anvisa, os produtos de Cannabis comercializados hoje no Brasil precisam ter o canabidiol (CBD) como maioria na sua composição. Rafaela Prates Xavier, Diretora de Operações Farmacêuticas da Ease Labs, e Maísa Fernandes, Coordenadora de Desenvolvimento Farmacêutico da Ease Labs, explicam: "Essa exigência se baseia no fato de que o CBD é o canabinoide com maior nível de evidência científica relacionada à segurança e ao potencial terapêutico".

Lucas Fisher, CEO da Endogen, detalha as propriedades químicas dos principais canabinoides:
"Os principais canabinoides presentes nos produtos da indústria farmacêutica são o Tetrahidrocanabinol (THC) e o Canabidiol (CBD). Suas propriedades químicas são cruciais para a eficácia e segurança. O THC atua como agonista parcial dos receptores CB1 e CB2; a afinidade pelo receptor CB1 no SNC confere a eficácia terapêutica (analgesia, antiemético), mas é também a causa do potencial psicoativo, exigindo moderação e controle na formulação".
Fisher complementa sobre o CBD: "Já o CBD possui baixa afinidade por CB1/CB2 e atua como um modulador alostérico negativo do CB1. Sua estrutura química não psicoativa permite que atue em múltiplos alvos moleculares, conferindo um perfil de segurança superior ao THC isolado, sendo eficaz como antiepiléptico e ansiolítico".

Para a especialista Rafaela Prates Xavier, "O CBD é um composto não psicotomimético, com baixo risco de eventos adversos, e que atua como modulador de diversas vias neurais. Esse perfil farmacológico está relacionado aos efeitos ansiolíticos, anticonvulsivantes, anti-inflamatórios e neuromoduladores, já bem documentados na literatura".
Luzia Sampaio, gerente Médico Científico da Herbarium, explica que "na indústria farmacêutica brasileira, os produtos de cannabis têm como foco principal o Canabidiol (CBD), disponível tanto como fitofármaco isolado quanto em fitocomplexos". Ela detalha: "Os fitocomplexos são extratos completos da planta que, além do CBD, contêm outros fitocanabinoides como o Tetrahidrocanabinol (THC), Canabigerol (CBG) e Canabinol (CBN), além de outros metabólitos secundários importantes como terpenos e flavonoides".
Quanto ao THC, Maísa Fernandes afirma: "Em produtos formulados a partir do extrato da planta, outros canabinoides também podem estar presentes, incluindo o tetraidrocanabinol (THC) — principal composto psicotomimética da Cannabis. Embora o THC apresente possíveis efeitos analgésicos, antiespáticos e antieméticos, seu uso requer controle rigoroso devido ao maior potencial de causar efeitos adversos".
Sampaio reforça que ". O teor de THC nesses produtos é rigorosamente regulamentado, devendo ser preferencialmente inferior a 0,2%, o que assegura um perfil de segurança sem efeitos psicoativos significativos. A inclusão e caracterização de outros
canabinoides, como CBG e CBN, que possuem propriedades farmacológicas relevantes para o
fitocomplexo, são definidas pela estratégia de cada empresa, uma vez que seus teores não são
mandatórios nas regulamentações atuais da Anvisa", explica em entrevista concedida antes da criação da RDC 1.015/2026.
Alta pureza

A escolha entre produtos tem fundamento científico. Sampaio esclarece: "O CBD com alta pureza (fitofármaco) possui eficácia e segurança bem estabelecidas na literatura científica, justificando seu uso clínico para indicações específicas onde o CBD isolado demonstra seu potencial farmacológico. Contudo, nos fitocomplexos, a interação sinérgica de diversos compostos quimicamente ativos (canabinoides, terpenos, flavonoides) é um fenômeno que tem recebido crescente atenção. Essa sinergia farmacológica pode amplificar a eficácia terapêutica e mitigar potenciais efeitos adversos que poderiam ser observados com canabinoides isolados, oferecendo um perfil de ação mais abrangente e, por vezes, mais seguro".
Fisher exemplifica essa combinação: "A formulação de medicamentos como o Mevatyl combina ambos em proporções definidas para otimizar o efeito terapêutico enquanto mitiga os efeitos adversos do THC".
As especialistas da Ease Labs ressaltam: "A qualidade e a segurança desses produtos dependem diretamente da padronização dos processos farmacêuticos. Técnicas avançadas de extração, purificação e controle analítico garantem que o paciente receba concentrações precisas e reprodutíveis de cada canabinoide. Esse rigor é essencial para reduzir a variabilidade entre lotes, aumentar a previsibilidade dos efeitos terapêuticos e assegurar a segurança durante todo o tratamento".
Da Planta ao Frasco: Um Processo Sob Vigilância Constante
Sampaio explica que a qualidade começa no campo: "O ponto de partida é fundamental: a matéria-prima deve ser cultivada sob Boas Práticas Agrícolas (BPA), essencial para a qualidade inicial e para minimizar a presença de contaminantes".
Fisher detalha os métodos de extração: "Os processos de extração e purificação na indústria farmacêutica visam garantir a pureza, segurança e consistência lote a lote. A extração por fluido supercrítico (CO2) ou a extração etanólica a frio são métodos de alta eficiência utilizados para maximizar a recuperação dos canabinoides e preservar a qualidade inicial do extrato".
Ele complementa sobre a purificação: "Em seguida, a purificação é crítica e geralmente realizada através de técnicas de separação cromatográfica em larga escala, como a Cromatografia Líquida de Alta Performance (HPLC) ou a Cromatografia de Contracorrente (CCC). Estes passos removem quimicamente contaminantes indesejados (pesticidas, metais pesados, solventes residuais) e garantem que o Princípio Ativo (API) final seja de alta pureza e com a concentração precisa".
Sampaio detalha o sistema de supervisão: "Todo o processo, desde a extração inicial e as etapas intermediárias de purificação até a obtenção do produto de cannabis final, é rigorosamente supervisionado e validado sob um sistema de Boas Práticas de Fabricação (BPF)".
Rafaela e Maísa, complementam: "Na indústria farmoquímica, os processos de extração e purificação são estruturados com parâmetros validados, assegurando a reprodutibilidade entre os lotes. Além disso, tanto os materiais empregados no processo quanto o produto acabado seguem especificações rigorosas, garantindo a qualidade e a segurança necessárias".
O controle de qualidade é contínuo. Sampaio detalha: "Um controle de qualidade contínuo é integrado em todas as fases, desde a matéria-prima até o produto acabado. Análises intermediárias e finais, utilizando técnicas avançadas como Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (HPLC), Cromatografia Gasosa acoplada à Espectrometria de Massas (GC-MS) e Espectrometria de Massas com Plasma Indutivamente Acoplado (ICP-MS), são cruciais para verificar a pureza e a ausência de contaminantes indesejados, como solventes residuais, metais pesados, pesticidas e agentes microbiológicos".
Esse controle também "assegura o padrão de complexidade dos fitocomplexos, garantindo uma equivalência de lote a lote não apenas no teor de CBD, mas também na composição de outros canabinoides e metabólitos secundários. Isso é fundamental para prevenir variações que poderiam impactar diretamente a segurança e a eficácia do produto de cannabis", ressalta Sampaio.
Os Inimigos Invisíveis: Luz, Calor e Oxigênio

Maísa alerta: "Fatores ambientais como temperatura, luz e oxigênio podem comprometer a estabilidade dos canabinoides, visto que aceleram processos de degradação".
Fisher detalha cientificamente esses processos: "A estabilidade dos canabinoides é altamente impactada por fatores químicos e ambientais, pois são moléculas terpenofenólicas vulneráveis à degradação. O oxigênio (O2) provoca a oxidação do THC em Canabinol (CBN), um canabinoide menos potente. A luz UV induz a fotólise e a degradação da estrutura molecular. A temperatura pode causar termólise e a descarboxilação de formas ácidas para suas formas neutras ativas".
Sampaio complementa: "A exposição à luz, especialmente à radiação ultravioleta, atua como um potente catalisador de degradação, provocando, por exemplo, a oxidação do THC em canabinol (CBN). Temperaturas elevadas também aceleram reações como a oxidação e a descarboxilação dos canabinoides ácidos em suas formas neutras".
O problema vai além da perda de potência. Segundo Sampaio, "embora a descarboxilação controlada seja um processo desejado para ativação, um aquecimento excessivo ou inadequado pode levar à perda de potência e à formação de produtos de degradação indesejáveis".
Ela complementa: "A presença de oxigênio, por sua vez, promove a oxidação dos canabinoides, contribuindo para a alteração de sua composição".
Rafaela explica as estratégias de controle: "Medidas de controle são aplicadas durante o processo para mitigar esses riscos, incluindo o controle de umidade e temperatura das áreas produtivas, uso de embalagens adequadas que protegem o produto e armazenamento em condições apropriadas".
Fisher detalha as soluções em larga escala: "Para combater esses desafios em larga escala, a indústria farmacêutica utiliza embalagens opacas, armazena os produtos sob gás inerte (como nitrogênio), e pode incluir antioxidantes na formulação. Além disso, o armazenamento em condições de temperatura controlada ou refrigeração é essencial para manter a qualidade e a potência do produto ao longo do seu prazo de validade".
Sampaio detalha as soluções de embalagem: "As embalagens são otimizadas, utilizando-se materiais como vidro âmbar, que são opacos para proteger contra a luz. Estratégias como o uso de embalagens hermeticamente seladas são empregadas para proteção contra a luz e a entrada de oxigênio". Além disso, "o envase em atmosfera inerte, como nitrogênio, é uma prática comum para minimizar a exposição ao oxigênio".
A formulação também é estratégica. Sampaio explica: "A formulação estratégica também é crucial, com o desenvolvimento de produtos que utilizam veículos oleosos para oferecer um ambiente protetor aos canabinoides lipofílicos e a inclusão de antioxidantes farmacêuticos, como os tocoferóis, para combater a oxidação".
As especialistas Maísa e Rafaela completam: "Além disso, estudos de estabilidade são conduzidos para comprovar a proteção do produto à luz, umidade e temperatura ao longo do tempo". Sampaio complementa: "Estudos de estabilidade aprofundados, acelerados e de longa duração, seguindo diretrizes internacionais e regulamentações nacionais, são realizados para determinar o prazo de validade e as condições de armazenamento que garantam a manutenção da integridade e potência do produto".
A Precisão da Repetição: Garantindo Lotes Idênticos
Sampaio enfatiza: "A padronização e a consistência entre lotes são pilares na produção farmacêutica de medicamentos e também de produtos de cannabis, sendo essenciais para a segurança do paciente e a previsibilidade do efeito terapêutico".
O processo começa no cultivo. Como explica Sampaio, "este rigor começa já na necessidade inicial das práticas de cultivo controladas e uniformes, em conjunto com o controle rigoroso da matéria-prima. A cannabis é selecionada com base em condições padronizadas (Boas Práticas Agrícolas - BPA) e geneticamente controlada, minimizando a variabilidade fitoquímica".
Rafaela e Maísa detalham: "A indústria assegura a padronização e a consistência dos lotes de produtos à base de canabinoides por meio de processos controlados e validados, que envolvem o uso de matérias-primas previamente caracterizadas, procedimentos operacionais padronizados e equipamentos calibrados e qualificados".
Fisher explica os métodos de controle de qualidade: "A indústria farmacêutica assegura que cada lote tenha a mesma concentração de canabinoides através de rigorosos processos de Controle de Qualidade (CQ) baseados nas Boas Práticas de Fabricação (BPF). Utilizam-se métodos analíticos validados, como a Cromatografia Líquida de Alta Performance (HPLC), para quantificar com precisão os canabinoides e garantir que a potência se enquadre nas especificações do produto registrado".
Durante a fabricação, Sampaio explica: "As etapas de fabricação subsequentes são validadas para assegurar a reprodutibilidade, com parâmetros críticos como temperatura, pressão, tempos e proporções de componentes sendo precisamente controlados e monitorados". E ainda: "Durante o processo, o controle de qualidade em processo realiza monitoramento contínuo e amostragem intermediária, permitindo ajustes em tempo real para manter o lote dentro das especificações".
A verificação é feita com tecnologia avançada. Sampaio detalha: "A verificação final da concentração e da identidade do produto em cada lote é crucial. Para isso, são empregados métodos analíticos validados, como a Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (HPLC-UV/DAD), que quantifica com precisão a concentração de canabinoides como CBD e THC, bem como de outros canabinoides relevantes".
Para os fitocomplexos, Sampaio ressalta: "Para os fitocomplexos, a consistência vai além da concentração individual de canabinoides, abrangendo a manutenção do padrão de complexidade de todos os metabólitos secundários, como terpenos e flavonoides, para que o efeito comitiva seja mantido de forma consistente entre os lotes".
Fisher complementa sobre extratos botânicos: "Para os medicamentos que utilizam extratos botânicos (como Mevatyl), o processo de padronização é ainda mais crítico, garantindo que a razão específica entre THC e CBD, e suas concentrações absolutas, sejam idênticas em todos os lotes. Esta consistência química é fundamental para garantir que o paciente receba sempre o mesmo efeito terapêutico e que a segurança do medicamento seja mantida".
Maísa e Rafela complementam: "O monitoramento dos parâmetros críticos de processo e a aplicação de especificações rigorosas nos testes analíticos e microbiológicos garantem a obtenção de um produto final seguro, estável e de alta qualidade".
O Controle Final: Da Fábrica à Farmácia
Sampaio esclarece o controle final: "A regulamentação exige que o controle de qualidade do produto acabado seja realizado em território nacional por laboratórios credenciados pela Rede Brasileira de Laboratórios Analíticos em Saúde (REBLAS), que verificam rigorosamente, entre outros parâmetros, os teores de CBD e THC, garantindo a conformidade com as especificações das normas da Anvisa e a segurança do paciente".
A rastreabilidade é total. Como detalha Sampaio, "a rastreabilidade e a documentação completa de cada lote são igualmente fundamentais, confirmando que todos os controles de qualidade foram executados. A liberação de cada lote para comercialização se dá após a análise técnica da ANVISA, e todos os documentos produzidos no âmbito da produção do produto de cannabis devem estar à disposição da Agência, que pode solicitar a conferência das informações a qualquer momento".
Rafaela e Maísa resumem: "As análises são conduzidas por meio de métodos validados, conforme as legislações vigentes e diretrizes estabelecidas pela Anvisa. Além disso, atendem às especificações de compêndios oficiais e normas internacionais, garantindo resultados confiáveis que asseguram a qualidade, estabilidade e a segurança do produto".
Fisher detalha os testes essenciais: "Os testes e análises químicas realizados na indústria são essenciais para o cumprimento das normas da ANVISA e (BPF) para assegurar a segurança do paciente. O teste de identidade e pureza confirma a composição química do princípio ativo, enquanto os testes de contaminantes, abrangendo metais pesados, pesticidas, solventes residuais e contagem microbiana, garantem que o produto está livre de substâncias nocivas dentro dos limites estabelecidos pelas farmacopeias. Adicionalmente, os estudos de estabilidade (acelerada e de longa duração) confirmam a vida útil do medicamento e as condições ideais de armazenamento".
As especialistas Rafaela e Maísa explicam o escopo: "Os testes e análises nos permitem monitorar identidade, pureza, potência, estabilidade e outros parâmetros tanto dos insumos quanto dos produtos acabados, assegurando que cada lote atenda aos requisitos de qualidade estabelecidos pela regulamentação sanitária. Esse controle rígido nos permite identificar eventuais desvios, prevenir riscos e garantir consistência entre lotes, desde a matéria-prima até a liberação final".
Fisher conclui: "A aprovação de cada lote só ocorre após a comprovação laboratorial de que todos esses critérios de qualidade, potência e segurança foram integralmente atendidos".
Segurança
Sampaio conclui: "Essa robusta integração da análise química com os requisitos regulatórios, somada aos sistemas de rastreabilidade e monitoramento pós-comercialização, onde a indústria reporta eventos adversos, assegura que o produto de cannabis que chega à farmácia para o paciente é seguro e de alta qualidade, atendendo plenamente às normas sanitárias vigentes".
Para os pacientes brasileiros, esse rigor representa não apenas conformidade regulatória, mas a garantia de que cada produto passou por múltiplas camadas de controle de qualidade, desde o cultivo até a liberação final pela Anvisa, assegurando segurança e eficácia terapêutica.

