De anos de sofrimento ao reencontro consigo mesma: a história de Fátima e a cannabis medicinal
Durante décadas, Fátima acreditou que precisava apenas “aguentar”. Entre crises emocionais, dificuldades de aprendizagem e anos de tratamentos sem respostas, a socióloga só recebeu o diagnóstico de TEA e TDAH aos 55 anos
Publicada em 20/05/2026

Fátima Carvalho relata benefícios da cannabis medicinal após diagnóstico tardio de TEA e TDAH | Foto: Arquivo Pessoal
Durante boa parte da vida, Fátima Carvalho, aprendeu a sobreviver no improviso. Antes mesmo de entender o que significavam palavras como autismo, neurodivergência ou TDAH, ela já carregava sinais e sentia o mundo de forma diferente.
Nascida na capital paulista, mas morando há quase duas décadas em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Fátima que tem hoje 58 anos e é professora de sociologia e Diretora Executiva da Associação Divina Flor, relembra uma infância marcada por dificuldades motoras, irritabilidade intensa, insônia e desafios na aprendizagem.
“Minha mãe relatava que eu era uma criança que brigava com todo mundo, eu mordia minhas primas, eu ficava nervosa”, conta.
Canhota em uma época em que isso ainda era visto como inadequado, ela enfrentou obstáculos na alfabetização e dificuldades dentro da escola, em um período em que praticamente não existia acolhimento para crianças neurodivergentes. Sem diagnóstico, sem informação e sem profissionais preparados para compreender o que acontecia, Fátima cresceu tentando se adaptar ao mundo enquanto o mundo pouco tentava compreendê-la.
Crises silenciosas e dores invisíveis
As explosões emocionais atravessaram a infância e seguiram pela adolescência. Vieram o isolamento, os longos períodos de choro, a ansiedade constante e a sensação de inadequação. Mais tarde, também surgiram a compulsão alimentar, o cigarro, o álcool e a dificuldade extrema de concentração. Mas, mesmo diante de tantos obstáculos, ela insistiu.
Entrou na universidade aos 21 anos e levou dez anos para concluir o curso de Ciências Sociais. Reprovou disciplinas, enfrentou bloqueios emocionais e lidou diariamente com a procrastinação e a exaustão mental. Foi nesse período, em 1990, que a cannabis apareceu pela primeira vez em sua vida.
Ela percebeu, quase intuitivamente, que a planta reduzia a ansiedade, diminuía os pensamentos intrusivos e ajudava na concentração. “Eu comecei a perceber que ajudava a reduzir a ansiedade e a angústia que eu sentia constantemente”, relata.
Durante anos, e por uma questão de tabu social da época, o uso permaneceu escondido. Enquanto usuária de cannabis, Fátima também tentava encontrar respostas em tratamentos convencionais para depressão e ansiedade.
Passou por diferentes medicações psiquiátricas, afastamentos do trabalho e crises que a faziam se esconder no banheiro da escola até conseguir recuperar o controle emocional. Mas a melhora nunca era completa.
Quando o tratamento virou propósito de vida

Foi apenas em 2020, já no início da pandemia, que aconteceu um ponto de virada. Fátima experimentou seu primeiro extrato caseiro de cannabis. “Eu tomei três gotas e o resultado foi excepcional”, conta.
Na mesma semana, Fatima notou melhora na ansiedade, no humor, na concentração, nas dores físicas, na retenção de líquido e até uma tendinite no ombro. Pouco tempo depois, iniciou acompanhamento médico com prescrição de óleo Full Spectrum de CBD. O tratamento trouxe melhora significativa no sono, na depressão e na ansiedade.
Mas foi após uma longa consulta psiquiátrica, em 2021, quando perdeu sua mãe pela Covid-19, que surgiu a primeira suspeita de TDAH. A investigação seguiu até 2023, quando, após avaliação neuropsicológica, veio o diagnóstico definitivo: TEA nível 1 de suporte com comorbidade de TDAH.
Apesar da resposta de todas as suas fragilidades chegar aos 55 anos, ela ainda busca energia para reorganizar a própria vida. “Eu me redescobri através do tratamento e da missão em poder amparar, via associação, tantas outras pessoas que podem passar pelo que eu passei”, conta.
Hoje, Fátima utiliza diariamente CBD 6000mg aliado ao Atentah para o tratamento do TDAH. Segundo ela, a combinação foi determinante para recuperar estabilidade emocional, foco e qualidade de vida. “Hoje eu consigo ter um controle emocional, eu tenho mais concentração. Eu me redescobri através desse tratamento”, diz.
Ela conta ainda que a ansiedade e a depressão reduziram quase completamente. O sono melhorou. As crises diminuíram. E, pela primeira vez em décadas, ela sente que encontrou um tratamento capaz de enxergar não apenas os sintomas, mas a origem do sofrimento.
“Eu posso dizer que não posso ficar sem esse remédio, que ele é a base que eu tenho para não cair (emocionalmente e fisicamente), com a cannabis consigo equilibrar pensamento, dores e seguir”, finaliza.
A história de Fátima carrega marcas profundas de uma geração inteira de mulheres neurodivergentes que cresceram sem diagnóstico, sem informação e sem acolhimento.
Hoje, ao compartilhar sua trajetória, ela transforma a própria vulnerabilidade em ponte para outras pessoas que passaram a vida inteira tentando entender por que viver parecia sempre mais difícil.


